Uma libelinha em desespero

      Por uma “escadinha de chuva”,quantas vezes sonhamos subir os degraus que distam da Terra ao Céu; sonhamos que este nos parece tão perto, e a nossa vontade  diz que é tão fácil lá subir? Uma espécie de sensibilização num sonho; como que a arranjarmos forças para vivermos a Liberdade e sacudirmos o corpo das recordações que nos perturbam e são objecto de angústia. Ah! Se isso fosse possível, se isso não fosse uma ilusão e tivéssemos ao nosso alcance uma tal possibilidade para a ocuparmos nos nossos desejos de purificação libertadora, tenderíamos, certamente, a subirmos até ao Céu para limparmos todos os sofrimentos, que não fizemos nem sabemos porque existem.

     De um tal sonho, sejamos ao menos espectadores, num tempo em que, obrigados pelo facto de chover, passemos a estar livres de todas as ocupações que nos restrinjam a liberdade e que não sejam senão a chuva ou outros obstáculos naturais, que sendo bens, nos limitem, e, em alguns casos, nos obriguem a estar obrigatoriamente “ocupados”, por não podermos sair à rua. É que não basta estar ocupado com o que produzimos e construímos, vestimos e comemos; é fundamental termos a noção destas realidades e do seu significado; não vá a ocupação nos ocupar a Vida,ou a nossa vida perder-se no egoísmo da ocupação.

     Vem a propósito um acontecimento que motivou esta análise sobre as ocupações; aliás, um acontecimento que esteve na origem da certeza que vivemos num mundo em que tudo quanto existe tem o seu significado e desperta em nós aspectos de relação e afinidade.

      Estava um dia muito quente e o motivo da minha viagem era tão agradável, quantas as combinações que me eram possíveis nesse tempo de transporte e estadia de visita. Não tinha muita pressa; dependia de um conjunto de circunstâncias que justificavam uma atenção preocupada pela descoberta de aspectos para a memória e motivos para o conhecimento.

    Não desejava combinar o tempo com excessos nem planeei o que não pudesse concretizar; apenas uma viagem, um encontro com locais e pessoas e uma visita para resolver um assunto que há bastante tempo me preocupava. Aliás, sentei-me por diversas vezes em locais que descobri e me atraíram facilmente. De um modo geral, mais pela satisfação que encontrava em cada momento que vivia do que pela preocupação de descobrir outros motivos que despertassem a análise ou a vontade da descoberta e procura; julgo que a satisfação de uma viagem reside mais na mudança e na surpresa do que nos motivos que se planeiam.

     E, aconteceria assim, se o facto que aconteceu não despertasse em mim um sentimento raro e uma vontade de exaltação; um sentimento que me fez meditar no Mundo com outras preocupações e um sentido diferente; mesmo em relação à compreensão deste fenómeno e sua consequente analogia!

      Num lago atractivo e muito refrescante, onde os movimentos leves e brandos da água que o Sol tangia davam lugar a imagens raiadas de luz brilhante e pura, deparei com uma pequenina borboleta que aos poucos morria por afogamento.

     Tinha ficado presa numa pequena massa viscosa que boiava no lago e lhe servia de base de sustentação no ondular da água, que ainda que fosse brando e suave aos olhos de quem o contemplava, era suficientemente causador dos perigos que corria aquele pequenino insecto..  Era do tamanho de um pequeno botão e a massa viscosa agarrava-a e prendi-a de tal forma que as asas não se moviam e os sinais de vida eram já muito ténues; aliás, não fora a minha ocupação ser mais de observador que de passeante do Mundo, e esta borboleta não se teria salvo nem eu teria percebido o que poderemos fazer através das nossas ocupações!

     De imediato e com muita cautela, separei este pequeno corpo da matéria que a segurava; libertei-a da água e suspendi-a no tronco de uma árvore que estava próxima, para que fosse capaz de voar de novo para os limites da Vida, e da vida que lhe era natural e sua. Fiquei ainda algum tempo a contemplá-la e, ao vê-la debater-se com as dificuldades da libertação, pedi por instantes a Deus que a ajudasse a encontrar o caminho e lhe desse forças para voar de novo na busca do alimento, que a fome deveria ser muita e a debilidade já não a ajudava.

    A partir desse momento fiquei a congeminar comigo sobre a comparação da Ordem natural com outras ordens, nomeadamente a social e na qual está presente a necessidade de organização geral. Neste incidente, pude aperceber-me que até nas ordens mais regulares e nos ritmos de transformação, ocorrem factos que excedem os limites da nossa compreensão.

    E ao descobrir que tudo é governado com absoluta perfeição e que tudo ocorre, segundo a vontade do Criador; como compreender, que até os seres mais dependentes, que são naturalmente inclinados na protecção e segurança, caiam nos desvios incidentes humanamente provocados ou naturalmente ocorridos?

    Meditei, que existe um pensamento especial no poder dos pensamentos proverbiais, e que eles são as primeiras explicações e as mais consoladoras na nossa desolação perante factos tão inexplicáveis, como aquele que acabava de assistir; lembrei-me do que me haviam ensinado em aspectos doutrinais: “Deus protege uns e manda proteger os outros”

Macedo Teixeira

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Sobre macedoteixeira

Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. É professor do ensino secundário (aposentado), tendo leccionado em várias escolas ao nível do ensino secundário público e cooperativo. É autor das seguintes obras literárias e filosóficas: Sementes da Verdade, Entre o Sol e as Ocupações, Crescendo Constroem-se os Sonhos, Quando as Estrelas Acordam e Caminho de Luz e Sombra. É também autor da obra dramática: Uma Dança na Escuridão. Colabora com jornais, fóruns e revistas, e é autor do blogue: www.partilharsaberes.webnode.pt
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