Evocação de Álvaro Guerra e da sua «trilogia dos cafés»

Se vivo fosse, o insigne escritor, jornalista e diplomata Álvaro Guerra completaria, em 2016, oitenta anos. Infaustamente, porém, é passada mais de uma década sobre o seu desaparecimento, com o qual o panorama literário português ficou – neste caso, com particular verdade – imensamente mais pobre.

Não pretendemos, apoiados que estamos, tão-somente, no nosso rude e fruste verbo, obrar aqui uma capaz retrospectiva da riquíssima obra desta notável figura da cultura pátria, cujo talento, fulgentemente multiforme, se espraiou, em rútila demonstração de incomparável genialidade, pelas mais diversas áreas, legando-nos uma pródiga e preciosa herança, a que não podemos senão dispensar o carinho que só as cousas mais belas deste mundo em nossa alma suscitam. De todo o modo, é-nos grato consignar, nesta sede, um punhado de impressões de leitura que em nós permanecem, à guisa, pois, de modesto mas sentido preito de homenagem.

E decidimos, dessarte, referir-nos àquela – empregamos, por opção nossa, o singular, pois que a vemos como tríade incindível e de sentido apenas completamente apreensível por via da consideração da sua integralidade – que temos para nós como sendo a obra-prima, o magnum opus, deste saudoso autor: a sua «trilogia dos cafés», publicada, a espaços, ao longo da década de 80.

Com efeito, por essa época Álvaro Guerra meteu ombros a uma tarefa tão nobre quanto espinhosa: produzir um relato literário da nossa História – portuguesa e mundial – do século XX, através da delicada imbricação dos grandes marcos cronológicos que constituem a mesma e do entrelaçamento de marcas conjunturais e da caracterologia dos distintos períodos político-sociais com a narração da vida quotidiana de uma típica vila portuguesa de província, dando conta, pari passu, dos pequenos e grandes feitos dos seus habitantes, dos seus sonhos e ambições, da trajectória, mais ou menos constante, mais ou menos sinuosa, da vida de cada um. Temos, ao cabo, uma sucessão de instantâneos, de retratos dessa sua «Vila Velha» (que poderá identificar-se, mutatis mutandis, com a Vila Franca de Xira de que o autor era natural) e dos seus personagens mais característicos. Vestindo a pele do cronista que vai arquivando, com afectuoso afinco, as marcas mais frisantes da história da vila, assistimos à passagem do tempo por ela, em seu vórtice paulatinamente transformador dos hábitos e das gentes, em consequência do qual as figuras cógnitas e queridas de antanho vão dando lugar a outras, de fresca data e diversa fisionomia, também estas, no entanto, condenadas a uma mais ou menos completa substituição, no tempo breve, por outras que se lhes seguirão, por irrefragável ditame da lei da vida.

Mas Vila Velha, na sua individualidade, no seu microcosmos, aninhada junto ao Rio Grande, é átomo integrador de um organismo naturalmente mais vasto e complexo: a lezíria, Portugal, a Europa, o Mundo. As transformações do todo influem no destino das partes; e, à medida que o complexo se vai modificando, também Vila Velha evolui, enquanto reprodução a escala menor das mutações verificáveis no vasto conglomerado. E é o seu café o epicentro local dessa transformação. O café. O ponto de encontro. O local de reunião da família vila-velhense. O café, que principia por ser «República», em homenagem ao regímen trazido pela aurora revolucionária de 5 de Outubro de 1910, passa, no dealbar da década de 30, a ser «Central», nome asséptico (e, por isso mesmo, quiçá «a-subversivo»…) que o voltear dos tempos impunha, ao começar de raiar o clamor autoritário, vigilante e repressivo do Estado Novo, e termina, em heróico epílogo, crismado de «25 de Abril», graças à pertinácia de um grupo de entusiastas locais da Revolução dos Cravos. De todos estes designativos, haverá sido o do meio – «Café Central» – o que mais perdurou, entre 1930 e 1975. Coincidentemente – ou não – abrange o longo período de ditadura, que, efectivamente, levou a palma aos restantes, maugrado a contenção forçada, o controlo inquisitorial, a canga férrea e dura. Isto lança-nos a interrogação, a dúvida inquietante: porquê…?

Porém, não foi a despropósito que o café se denominou «Central». Naturalmente, segundo o excelso relato do narrador-cronista, a motivação imediata da mudança deveu-se ao freio imposto pela ditadura. Mas digamos que tinha esse nome pleno significado. No «Central» se reunia, se concentrava, como que impelida por irresistível força centrípeta, a élite vila-velhense – ricos e pobres, instruídos e pouco mais que analfabetos, que aqui se não faz distinção de pecúlio ou formação, apenas se privilegiam os tipos sociais mais característicos e notáveis daquele tão pitoresco e fascinante meio –, cavaqueando sobre cousas corriqueiras, de todos os dias, indagando – hábito tão comum! – da vida alheia e suas peripécias quantas vezes romanescas, mas também comentando, com o fino acerto de uma visão aguçada e perscrutadora ou com a simpleza dimanante de um saber «só de experiência feito», as novas da vida da vila, da região, do país, do mundo. Os actores do palco de Vila Velha reproduzem, à sua dimensão, os cambiantes trazidos pelo devir dos tempos, imbricam-se no fenómeno mutatório político-social, são dele parte integrante. Como, repetidamente, faz notar o autor, Vila Velha está presente em quase todos os acontecimentos de tomo da vida nacional, por meio de um ou vários personagens por ela gerados e criados. E todos – participantes activos ou espectadores passivos – confluem nesse ponto de encontro que vem a ser o café, «República», «Central» e «25 de Abril», mas decididamente, e ao cabo, «Central», porque tem o condão de acolher a todos no seu seio: os abastados e os humildes, os situacionistas e os oposicionistas, os tradicionalistas e os progressistas, reunidos à volta da «bica» (a de saco, vetusta e consuetudinária, quantas vezes com o complemento fundamental de um bagaço, e só bem mais tarde substituída pela modernidade do «café expresso»…), do «carioca», do «abatanado», do mazagran. Não olvidando outras tertúlias da vila – a farmácia (aliás, «pharmacia», até à actualização ortográfica – e não só… – que cortou cerce com a tradição das velhas cavaqueiras), a filarmónica, o clube de futebol e o «Clube Vila-Velhense», este último local de encontro da sociedade mais destacada e, via de regra, bem instalada na vida –, o café a todas leva a palma, em história e perenidade. Vence estoicamente o surgimento de outros estabelecimentos quejandos, mais modernos e inovadores. Mas não vence, mesmo após tantos anos de combate denodado, o correr do tempo. Fulge uma vez derradeira com a Revolução de 1974, mas extingue-se três anos depois.

A «Vila Velha» que Álvaro Guerra assim nos pinta, no longo caminhar do tempo compreendido entre 1914 e 1975 (com ligeiras notas conclusivas que fazem espraiar a narrativa até ao meado da década de 80), é, pois, o retrato fiel e impressivo de qualquer «Vila Velha» portuguesa, mutatis mutandis. As personagens-tipo, primorosamente cinzeladas, são passíveis de encontrar-se em qualquer terra portuguesa de idêntica caracterologia. Por quase todas as vilas ou pequenas cidades do país acharíamos, em similar período, vultos que em muito se equivaleriam ao notário Dr. Teófilo de Oliveira, estrénuo mantenedor de uma neutralidade exímia e atento observador da realidade político-social do país e do mundo, ao advogado Dr. Maurício Santos, referente maior de erudição dispersa em plêiade de elaborados lugares-comuns, ao Dr. Vicente Mourão, causídico perenemente idealista e combativo lutador pela liberdade, ao «Tainha Rico», campeador a pulso pela ascensão social, ao clínico Dr. Leonardo Ferreira e ao industrial Guilherme Andrade, caciques e indefectíveis pilares do poder estabelecido ao nível local, às beneméritas (e beatas…) D. Ermelinda Pacheco e D. Clarisse Andrade, ao «Piedade», tradução distorcida e rude – e, por isso, tantas vezes a mais lúcida de todas! – da realidade envolvente, a Judite Castro, firme e utópica planeadora de amanhãs mais bonançosos e juncados de feéricas e prometedoras esperanças, aos Lencastres da «Quinta das Toupeiras», derradeiros representantes de uma fidalguia decrépita que se agarra tenazmente à perempta lembrança de um passado irrepetível, a Zacarias Gorjão, anarquista da velha guarda sempre fiel aos seus ideais, ao Silva do «Correio de Vila Velha», lídimo representante do eterno casamento de alguma imprensa com o incriticável establishment, etc. Estas e muitas outras figuras da extensa galeria de retratos humanos cuidadamente elaborada por Álvaro Guerra são património comum nosso, emergem das páginas da obra para, por hipótese probabilíssima, virem a encontrar-se connosco bem ao virar da esquina. E em quantas localidades não vamos achar, similarmente, um «Café Central», seguro ponto de encontro de todas elas?

Em suma, na sua «trilogia dos cafés» – «Café República» (abrangendo o período compreendido entre 1914 e 1945), «Café Central» (relato dos sucessos havidos entre 1945 e 1974) e «Café 25 de Abril» (uma penetrantemente lúcida abordagem dos anos de 1974-75 e suas mais frisantes vicissitudes) –, Álvaro Guerra atinge brilhantemente o objectivo de contar a história portuguesa do século XX, não olvidando as suas interligações com os grandes acontecimentos mundiais. A sua «Vila Velha» vem a ser, bem cremos, uma inteligente metáfora do país, e as suas personagens bem no-lo demonstram. Acresce à notável tessitura da narração, prenhe de substância histórica e factual, o estilo desenvolto e doseadamente crítico-irónico do narrador-cronista, mas, acima de tudo, lúcido e adequadamente distanciado dos factos narrados e comentados. Mais do que uma bem conseguida ficção – bastamente imbuída em realidade bem tangível, sublinhe-se –, mais do que uma narrativa envolvente, a «trilogia dos cafés» é um documento imprescindível e de consulta obrigatória para quem almeje conhecer com nitidez o que foi a evolução do país no último século. A obra literária de Álvaro Guerra estende-se muito para além deste precioso conjunto de três livros – mas só por estes já teria indiscutível jus ao maior e mais vivo reconhecimento como autor de altíssimo mérito.

[N. B.: O ano que corre, posto que ainda imberbe, vai já funestamente pródigo em desaparecimentos de pessoas muito queridas, que nos habituámos, ao longo do tempo, a estimar, a respeitar, a admirar. Pecando embora pela incompletude e redutibilidade da enumeração, não queremos, contudo, deixar de aproveitar o ensejo da circunstância para evocar, de guisa humilde, quatro nomes de grandes portugueses, já falecidos em 2016: a insigne fadista e actriz Fernanda Peres, o notável professor, estudioso e divulgador das veras tradições da Academia de Coimbra Dr. Gonçalo dos Reis Torgal, o jurista de alto quilate e figura destacada do panorama político nacional que foi o Dr. António de Almeida Santos e, por fim, mas não por último, o grande actor, referência maior do nosso teatro, cinema e televisão e ser humano de excepcionais qualidades pessoais e profissionais que foi Nicolau Breyner. Aos quatro citados, e a todos os outros que vão implícitos nesta menção, aqui se consagra, muito sentida e sinceramente, a lídima expressão do nosso profundo e perene reconhecimento.]

 

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Sem categoria. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s