Esperança, futuro, incerteza… – nótulas a propósito do Natal que passou, e do Novo Ano que passará

É findo o Natal – rectius, é findo aquele que, por prática consuetudinária e imperativo cronológico, cabe assinalar por esta altura, que não aqueloutro que, em bom rigor, é dever de qualquer pessoa ir assinalando, paulatinamente, todos os dias, ao longo do ano.

Isto afirmamos propositadamente porquanto, se bem notarmos, o Natal transporta, em larga miríade de significações que decididamente densificam esta data e que lhe conferem o seu vero e impressivo sentido, uma mensagem inequívoca e inelutável de renovação, de ressurgimento. Tal-qualmente Cristo, cujo nascimento é de uso celebrar-se nesta época (o que, como bem se sabe, advém da cristianização de celebrações pagãs já fundamente enraizadas), também nós devemos renascer continuamente (sem que, note-se, façamos aqui qualquer tipo de confusão com sentidos similares que estão presentes em outra celebração, a da Páscoa), ano após ano, olhando contemplativa e reflexivamente o périplo até aqui efectuado e perspectivando, com vista ampla e prudência decisória, os trilhos a seguir.

E também não é inocente o facto de estarmos tangendo estas cordas: ressurgimento, fim de etapa, encetar de novos trabalhos. Ao Natal se segue, com minúsculo e fugaz intervalo, o Fim do Ano. Isso constitui bom mote para se falar de muitas coisas, incorpóreas, elementos constitutivos da alma, que, sem embargo, nos acompanham a todo o instante: a reflexão, a ponderação, a perspectivação, e, correlatamente, sentimentos de ansiedade, expectação, receio, incerteza e… esperança.

Mais uma vez actuámos a coberto de um propósito mais lato, ao grifarmos este último termo. Um Novo Ano traz sempre consigo a esperança de que algumas coisas melhorem, aquelas coisas que, no ano prestes a esvair-se por entre as brumas nevoentas do tempo corrente, não foram tão boas como esperávamos. Por certo um simples limite temporal, convencionalmente imposto, costumadamente definido, não será, de per si só, penhor bastante de mudança. Porém, sabe-se lá por que artes, tem a passagem do ano, recorrentemente, o condão quási espantoso de nos trazer renovada esperança, intenções prospectivas, projectos de futuro.

Dessa maneira, mais um ano vai correndo! E, no curso do mesmo, onde ficam aquelas intenções, aqueles projectos, aqueles intentos que em catadupa enxameavam o nosso cérebro aquando do soar das badaladas do vetusto campanário? Uns cumprem-se, outros não, outros só parcialmente. Mas é natural que assim seja.

Toscas e banais se antolham estas linhas; e só resolvemos escrevê-las na medida em que, agora, tornaremos à ideia de esperança, pois que esta vai parecendo, nos dias que correm, realidade já relegada e perempta, atingida fatalmente por frecha rude ante a paliçada que cerca o porvir, sobre o qual nuvens nigérrimas vão impendendo. Falando claro e já não metaforicamente: onde ficará a esperança, em tempos que são de crise?

Afigura-se, por nossa banda, que, a despeito do pendor dificultoso da tarefa (que cada vez mais se assemelha a um dos doze trabalhos – e que trabalhos! – do mítico Hércules), haveremos de lograr cultivar alguma esperança, nem que seja apenas uma centelhazinha, similar àquelas crepitações mortiças de um brasido no seu estertor, que intenta apagar-se mas, afinal, se não extingue de todo, e vem a revivescer quando alguém torna a atiçá-lo convenientemente. Assim deverá suceder com a esperança: os tempos correm severos, as gentes – compreensivelmente, de resto – não conseguem, por mais que o desejem, vislumbrar porvires ridentes; de todo o modo, fique uma réstia de luminosidade. A História nos ensina o carácter cíclico da evolução humana: a épocas de alguma acalmia sucedem alturas de crise, de incerteza, de forte penar, mas a que, via de regra, sucedem renovadas clareiras evolutivas. Tudo se repete; as formas de organização política e social, as flutuações económicas, tudo isso se vai repetindo, por certo que mudando frequentemente de aspecto, modificando as suas manifestações, trazendo inéditos cambiantes, mas, essencialmente, preservando a sua génese.

Por tudo isto, cremos haver ainda lugar a uma certa esperança. Postergamos o pessimismo impenitente, mas também – e repare-se bem – não pagamos tributo àquela esperança demasiadamente optimista, e sim àqueloutra esperança, realista, que, embora mirando o horizonte com apreensão e cuidados, tem para si que poderá existir algum sol de ressurreição para além das nuvens de tempestade.

Antes de apormos o derradeiro ponto a estas (frustes…) considerações que a quadra que atravessamos nos suscitou, permita-se-nos a adjunção de duas nótulas:

– A primeira visa, antes de mais, lembrar sentidamente as figuras de Oscar Niemeyer, destacado arquitecto brasileiro e inolvidável obreiro da cidade de Brasília, e de Paulo Rocha, insigne cineasta português, ambos recentemente desaparecidos. É nosso antigo costume efectuarmos, todos os anos, por esta altura, um leve esforço de rememoração, e recordarmos alguns nomes que, no decurso do ano findo, nos deixaram. Não se cura de qualquer hábito funéreo; longe disso. Apenas tentamos trazer novamente ante nós a memória de pessoas que contribuíram para que o nosso mundo fosse mais rico, mais evoluído, mais… humano! Recordá-las é ter ideia de quão empobrecido fica esse mundo ao cabo de um simples ano. Mas o tempo não pára, e o futuro trará, decerto, novos valores, novos vultos, novos legados. E seguros estamos de que todo esse manancial de novos contributos ajudará a minguar – nunca a colmatar totalmente, pois que cada ser humano é singular e irrepetível, como se sabe – a perda de pessoas de tão notável dimensão;

– A segunda, aproveitamo-la, como compete, para desejar, a todos os estimados leitores deste Blogue, digno espaço de convivialidade cultural e literária, e, bem assim, aos demais ilustres colaboradores do mesmo, que o Natal que passou haja sido, como deixámos expresso, um auspicioso renascimento, e que o Novo Ano que, dentro de breves instantes, principiará possa, maugrado a época difícil que se vive, receber algo dessa esperança que nos não cansámos de ressaltar neste texto.

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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