Honrar os nossos, perpetuar o passado, perspectivar o futuro

Assinalou-se, na semana que ainda há pouco findou, o Dia de Todos-os-Santos. Como já consuetudinariamente sucede, aproveitam muitas pessoas tal data, por ser dia feriado (até agora…), para antecipar o Dia de Todas as Almas, dos Fiéis Defuntos, que, em bom rigor, cabe assinalar subsequentemente, em 2 de Novembro. E também é prática veneranda e consagrada pela auctoritas de que o tempo longo, uma vez transcorrido, sempre se faz revestir efectuar-se, por esta altura, uma romagem aos cemitérios, à derradeira morada dos entes que já partiram. Limpam-se as campas rasas, adornam-se as sepulturas de multicolores espécimes florais, ali se depondo, concomitantemente, velas que, com sua luz, alumiam lembranças de pessoas queridas que dos seus se já apartaram.

Abstraiamo-nos, porém, da imediata significação de que tais datas se revestem, mormente para os católicos, e centremo-nos na essencialidade que, afinal, a tudo isto preside: a homenagem àqueles seres que já foram viventes, que deixaram a marca da sua existência vincada no sempiternamente incompleto livro da História da Humanidade (o qual, recorrendo a um usual símile, vai sendo feito e desfeito, qual teia de Penélope), e cuja lembrança cabe, portanto, evocar. Em boa verdade, uma das marcas conaturais à nossa condição de seres humanos radica, precisamente, no respeito que nos deverão merecer as gerações antecedentes, porque antecipadoras do percurso que, hodiernamente, nos é cometido. Elas nos legaram perenes exemplos, valiosas lições, estribos seguros em que haveremos de fazer assentar o nosso diuturno périplo, se almejarmos uma avisada estruturação do rumo a seguir.

Tanto maior sentido ganham as afirmações que a traço grossíssimo fomos fazendo no anterior parágrafo quanto é certo que muitos daqueles que, por esta altura do ano, merecem a nossa sincera homenagem foram nossos honoráveis antepassados. E não se perfila despiciendo, nos dias que correm, salientar o alto relevo de que se recobre o conhecimento, que a cada um incumbe cultivar, da história da sua família, das suas origens, da sua génese. O ser humano é também, como dizia Ortega y Gasset, resultado «da sua circunstância», pelo que à formação esclarecida, completa e equilibrada de todo o elemento da societas essencial se torna uma contemplatio das multiformes dimensões, mais ou menos próximas, mais ou menos distantes, de que se compõe, afinal, o seu ser.

Retomemos o ponto em que principiámos: ainda que abstraindo-nos do fundo pendor religioso que imbui este culto que de uso se rende às pessoas falecidas, é fora de dúvida que tal acto leva consigo algo de profunda e comoventemente humano: «honrar os nossos», lembrá-los, respeitar a sua memória, tomar o seu exemplo por base de um caminho a prosseguir. Por certo esta lembrança se não deverá reconduzir apenas a uma singular ocorrência de calendário, devendo, em rigor, ser alimentada quotidianamente. Porém, inquestionáveis se nos afiguram o simbolismo e o realce que o facto de existir um específico dia dedicado a tão importante preito de homenagem consigo traz. É tradição antiga e arreigada no espírito popular (para usar uma consabida expressão alemã, aqui tomada de empréstimo dos seus domínios de origem e translaticiamente empregada, no Volksgeist), e que deve manter-se. As boas tradições deverão sempre sobreviver à erosão dos tempos. Tradições, dizemos, que não as suas evitáveis deturpações, que amiudadamente, e de há algum tempo a esta parte, se vão aqui e acolá vislumbrando – o importante não é, de facto, recobrir as sepulturas de aparatosos ornatos decorativos, de ostensivos primores florais, mas apenas daquelas oferendas sinceras que a nossa razão humana e o nosso sentimento ex corde nos impelirem a consagrar aos nossos entes queridos.

Isto nos faz ver – tornando, novamente, a uma ideia que já fomos tenuemente frisando supra – a importância de que o passado se reveste, a tarefa ingente que vem a ser a do conhecimento das gerações que nos antecederam, a premência de cultivar-se o estudo da evolução da Humanidade. Porque tal constitui, afinal, um dever que inere à nossa natural condição de seres pensantes, que sabem perfeitamente que se não reconduzem a uma hermética e constritora individualidade, mas que, sem perder de vista a essência muito própria de cada um, vêm a ter múltiplos pontos de contacto com imensas outras realidades do Universo, das quais será mister consciencializarem-se, a fim de poder lograr-se, não talvez, por certo, o conhecimento integral do ser (tarefa esta que será, sem grandes dúvidas, sempre constituenda…), mas uma cada vez maior aproximação a esse conhecimento. Por isso empregámos, no título que encima estas linhas, a expressão «perpetuar o passado» – e não foi incautamente que dissemos «perpetuar». Quisemos, com o emprego de semelhante forma verbal, não cultivar claudicantes posições passadistas, mas sim chamar a atenção para a necessidade de ter bem presentes as lições que o passado nos fornece, transmissoras que são dos testemunhos daqueles que nos precederam na História da Humanidade, a fim de que possamos… «perspectivar o futuro», para concluir com outra citação da mencionada epígrafe deste artigo, e que, afinal, mais não pretende do que salientar este facto: não só, como se afirmou, o conhecimento das diversas dimensões de que se compõe o ser é tarefa conatural ao homem-pessoa, enquanto elemento consciente e activo no seio da societas em que se insere, mas é também, e de guisa ineliminável, conditio sine qua non de uma adequada estruturação do porvir, pois que só havendo em vista as lições de quem já viveu será possível, no fim de contas… aprender a viver, e a fazê-lo por nós próprios, de tal forma que, um dia, também o nosso singular exemplo seja tido em conta pelos vindouros.

Eis, pois, o quanto, muitíssimo condensada e imperfeitamente, se nos ofereceu à reflexão a propósito de data tão costumeira do nosso calendário, mas, afinal, de tão vincado e penetrante simbolismo e relevo. E dizem-nos as notícias que, a partir do próximo ano, já não será o 1.º de Novembro feriado. Poderá, oficialmente, o não ser, mas, felizmente, a tradição manter-se-á. Em todo o caso, injustificada e criticável se afigura a supressão. Tristes sinais dos tempos, que, pelos vistos, vão correndo a destempo de tudo o que neste sucinto texto houvemos ensejo de expor.

 

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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