Um conto inédito: «O último adeus a Cesária» (Parte III)

(continuação da Parte II, ontem publicada, e conclusão do escrito)

D. Henrique continuava muito indisposto. Tremia, tremia nervosamente, e todos os circunstantes, ali plantados, no adro da igreja, estavam já antecipando o seu fim. «Coitado, está mais para lá do que para cá…», «é agora que ele vai», etc. O Padre Ramires, com o seu ofício interrompido, só pensava na desgraça que seria ter ali um falecimento, naquelas insólitas circunstâncias. Porém, logo tal conjectura se desvaneceu ante superior preocupação: teria a Celestina feito o caldo de feijão-verde, como lhe ele pedira? Ah, aquela moça era mesmo descuidada! Com certeza o não teria feito! E caía tão bem ao almoço!…

Junto do fidalgo, o Dr. Figueiroa de Aguiar procurava sossegá-lo, retirá-lo do estado de nervos em que se encontrava.

– Não há ninguém que chame o facultativo? É caso de vida ou morte! – disse então o causídico, em alto brado.

Mas o facultativo já ali vinha, chamado por uma das beatas presentes na missa. Era o Dr. Sobral, obeso clínico que – todas as pessoas do Vilar Novo o afirmavam, e não sem razão – manifestava aberrante ausência de talento para as artes médicas. Acrescia a isso o estado quási permanente de embriaguez em que se achava, e que não contribuía, decerto, para que fossem mais exactos os seus diagnósticos… O que naquela situação se passou só veio confirmar a regra por todos sabida. O Dr. Sobral acercou-se do fidalgo, mirando-o com vista esgazeada, efeito certo da bagaceira ampla e previamente ingerida. Num breve exame, determinou:

– É coração. Podem ir buscar o fato. Este homem morre aqui.

Todos ficaram assustados, embora não dessem grande crédito ao diagnóstico daquele médico imbecil… O Dr. Figueiroa de Aguiar, incrédulo-mor, correu-o com impaciência:

– Ora, homem, suma daqui! Vossemecê sempre me saiu um bom carniceiro!… Vá-se embora!

Atingido no seu amor-próprio, ia o Dr. Sobral a retorquir, com a fala já embargada pelos efeitos do etilo. A isso obstou, porém, a acalmia experimentada pelo morgado, que, paulatinamente, retornava ao seu estado normal. Fora uma comoção momentânea.

Quando se achou mais calmo, D. Henrique pediu que o ajudassem a erguer. Disseram-lhe que não continuasse na missa, que se recolhesse a casa, pois que poderia piorar. Mas ele insistiu em que ficaria até ao fim. Padre Ramires passava uma mão aliviada pelo suor que, entretanto, lhe banhara a testa, já livre de cuidados. Vária gente se ofereceu para amparar o fidalgo. De entre todos se destacava um rapaz, alto, de fauces sofridas mas que irradiavam energia e força, tez escura, corolário de dura vida passada no campo. Dirigiu-se a D. Henrique, com modos contidos, e lhe disse:

– Queira Vossência aceitar o meu auxílio.

E assim regressou a turbamulta ao interior do templo, onde Cesária, sempre no seu túmulo, ficava aguardando o fim da cerimónia. D. Henrique estava mais calmo, mas sempre com alguma irrequietude que lhe toldava o olhar. Caminhava e ia dizendo, em surdina:

– O meu filho… Onde estará o meu filho?…

– Ah, desgraçada, desaparece-me da vista! Some-te para os quintos dos Infernos! Vai-te!

Assim reagiu intempestivamente D. Henrique quando Cesária lhe deu a nova da sua prenhez. Ela pensara que o seu amado a cercaria de palavras doces, de expressões de contentamento! Pois enganara-se redondamente! O morgado do Vilar Novo não queria cá pequenos para aturar. Era o que faltava! Demais a mais, com que dinheiro sustentaria uma criança? A fortuna de seus pais, desbaratara-a quási por completo, tanto que tivera de reduzir o número de criados, quer em casa, quer nas terras. Pior: o último ano agrícola fora péssimo, e os réditos do cultivo eram míseros. Batera no fundo: não tinha dinheiro, andava andrajosamente vestido, a casa deteriorava-se a olhos vistos, toda a fidalguia da região o repelia como a um cão minado de sarna. E ainda mais esta! Nanja! A mulher que se arranjasse. E Cesária foi corrida da vetusta casa dos Bessa e Abranches, levando a sua pouca roupa e meia-dúzia de cobres. Não adiantaram rogos, não adiantaram súplicas, não adiantaram lágrimas – mais lágrimas verteu ela ao transpor o portão do decrépito solar, que se lhe fechava pesadamente, que lhe cortava cerce os únicos sonhos bonitos que na vida, desgraçada desde o princípio, se permitira sonhar. E a Vitorina dizia, com uma certeza triste:

– Eu bem o pressenti!… Eu bem o pressenti!…

E a vida de Cesária foi, até ao seu termo, como naturalmente se expectaria, atentas todas as observações precedentes: pobre, sofrida, miserável. Andou à jorna, trabalhando sob os sóis cruéis, as chuvas fatigadoras, as neves torturantes. Aguentou estoicamente a rispidez de patrões ásperos, embrutecidos na sua dureza. Onde já ia o luxo brevemente experimentado no solar da finada D. Maria dos Prazeres! Habitava tugúrios inomináveis, frios, sujos. Não tinha amigos, não tinha ninguém. Falava pouco, sofria muito. Recebia ordens, aceitava passivamente.

Teve o seu filho. Um rapaz, um bonito rapaz, que compartilhava com o pai o rosto romântico e esbelto, e com a mãe um certo aspecto de sofrimento, mas também de energia e resignação. Seguindo o curso natural da vida, começou a labutar no campo assim que houve idade para tanto. Durante anos, mãe e filho iam juntos para a jorna: duas almas que davam pena, uma velhinha, prematuramente alquebrada e que, a cada esforço, soltava ais de dor e pranto, e um rapaz castigado, cujo facies se ia tornando cada vez mais rude e desalentado, e que aprendia duramente quanto a vida custava, como já o houvera, de resto, aprendido sua mãe.

Quando Henrique – era este o nome do filho de Cesária, que, maugrado a mágoa cavada fundamente no seu coração pela repulsa de que fora objecto por banda do morgado, nunca o pudera esquecer… – contava obra de vinte anos, sua progenitora contraiu uma febre maligna. Idosa, cansada, sem forças; era demasiadamente evidente que o fim estava muito perto. Porém, antes de finar-se, teve ainda Cesária ensejo para chamar o filho junto ao catre onde definhava, e lhe confessou então:

– Meu filho: bem sei que tenho a morte na garganta, e que sou capaz de já não passar desta noite. Mas quero contar-te uma coisa do maior valor. Sempre te criei com muito amor, e muitos sacrifícios enfrentei para que pudesses ser um homem são e forte. Mas quero dizer-te… Aquela pergunta que sempre me fazias em pequeno, quando vias os outros meninos com um pai e uma mãe… Quero dizer-te… Quero dizer-te quem é teu pai…

Henrique sobressaltou-se. Passara toda a sua infância com aquela pergunta bailando permanentemente no seu pensamento, questão a que, maugrado a sua pertinácia, a mãe sempre se furtara a responder. Ia, enfim, descobrir a tão almejada solução do enigma da sua vida.

– Teu pai… Teu pai é o morgado do Vilar Novo.

O rapaz empalideceu. Seu pai era o morgado do Vilar Novo? O Snr. D. Henrique de Bessa e Abranches, de quem o pessoal da lavoura tanto falava? Sim, já ouvira Henrique conversas a propósito desse fidalgo – «um triste, arruinado, sem vintém…», para além de outras referências pouco abonatórias da personalidade daquele decrépito representante de uma casa nobre já definhada. Cesária notou a admiração no rosto de seu filho, admiração tão pouco natural naquelas fauces já vincadas pela rudeza do campo, e confirmou:

– Sim, o Snr. D. Henrique de Bessa e Abranches, morgado do Vilar Novo… Ele é teu pai…

Suspendeu-lhe o discurso uma dor no peito que a levou a soltar um ai agudo. Era a hora! Era a hora da partida! A respiração começou de alterar-se-lhe, a vista arregalou-se-lhe desmesuradamente, as fauces fizeram-se lívidas. Era o fim. Cesária só teve tempo de fazer um pedido a seu filho:

– Filho, peço-te… Enterra-me no Vilar Novo… Enterra-me no Vilar Novo…

A missa terminou. Padre Ramires pronuncia as derradeiras palavras cerimoniais. Toda a beataria concentrada naquele pequeno templo de aldeia inicia a sua debandada, rumo ao cemitério. E lá vai o caixão, levado por quatro trabalhadores rurais. E lá vão as beatas, ainda sussurrando rezas. E lá vai o Padre Ramires, a despachar o serviço – já são horas do almoço, e do caldo de feijão-verde, ora essa! E lá vai o senhor morgado do Vilar Novo, curvado, de cabeça baixa, amparado pelo Dr. Figueiroa de Aguiar.

O coveiro abre a sepultura pachorrentamente. As pessoas esperam. O sol vai já alto. Trocam-se olhares. Começam todos a pensar nas suas vidas – o homem já está a demorar muito tempo, caramba! Padre Ramires impacienta-se. Interpretando o sentir geral, o coveiro apressa-se. A cova está feita.

E lá vai o caixão, lá vai o féretro daquela infeliz, que nascera pobre, vivera pobre e morrera pobre. Lá vai aquela alma, a quem a vida fora sempre, no fim de contas, amarga madrasta.

Um rapaz alto, o mesmo que, instantes antes, havia amparado o Snr. D. Henrique, aquando da sua indisposição momentânea, debruça-se sobre a cova. Mira uma última vez o caixão, antes que lhe deitem a terra por cima. É um tipo rude, ainda novo, mas já marcado pela dureza do seu mester, da labuta do campo. Tem os olhos rasos de água, mas não chora – não parece bem um homenzarrão daqueles chorar! Agarra uma flor nas mãos, agarra-a com força. Insensivelmente, abre as mãos, e a flor cai. Cai sobre o túmulo da infeliz.

Também junto à campa, o morgado do Vilar Novo olha todo aquele cenário com comiseração. É um homem velho, de cabelo alvo, fauces enrugadas, semblante vencido pelos erros de uma vida triste e desavisada. Todos o sabem. As beatas sabem que ele, hoje, não passa de um pobre diabo – qualquer dia até o solar lhe cai em cima, de tão arruinado que está! Porque está ele ali? Afinal, fora ele que andara de roda de Cesária; ela havia tido um filho que lhe pertencia, a ele, ao morgado do Vilar Novo. E que fizera ele na altura? Escorraçara a mãe do seu filho, escorraçara-a como se de vagabunda se cuidasse. Todos o sabiam. E ele ali estava, junto da tumba daquela infeliz, sob o peso do pecado que o oprimia… Todos o sabiam. Pecados velhos, pecados velhos!

O Dr. Figueiroa de Aguiar registava tudo aquilo em silêncio. Como todos, sabia de tudo, conhecia tudo, estava informado de tudo. Intimamente, tinha pena de ver uma família tão ilustre, como haviam sido os Bessa e Abranches, acabar assim, na figura de um morgado pobre e derrotado. Ah, que grande desvairado fora aquele D. Henrique! Parece impossível… Um filho do Snr. D. Raimundo de Bessa e Abranches haver-se feito semelhante valdevinos… Bom, já não havia volta a dar-lhe. O património estava perdido, e o solar, único bem remanescente, sobre que pendia férrea hipoteca, só não fora ainda executado pelos credores por certo sentimento de piedade para com um idoso perdulário que não esperaria muito mais, certamente, pela hora de encontrar-se com São Pedro… Até mesmo os agiotas sabiam ter alguma humanidade…

As beatas rezavam. As beatas rezavam baixinho. Entrecortavam as rezas com conversas mundanas, com maledicências. E rezavam. Rezavam baixinho.

D. Henrique mirou o rapaz rude. Intrigou-o o ar pesaroso daquele homem feito, o aspecto claramente enlutado, a flor caindo das suas mãos para a campa de Cesária. Acercou-se dele. Perguntou-lhe, com certa cerimónia:

– Porque está assim, com semblante tão carregado? Era alguma coisa à finada?

O rapaz estremeceu ante a aproximação do morgado do Vilar Novo. Porém, retomando alguma placidez, disse apenas:

– Sim. Era filho dela.

E, naquele momento, duas lágrimas, de pai e filho, rolaram de dois rostos, um envelhecido e cansado, outro jovem e rude, e foram cair, ambas elas, sobre o caixão onde jazia Cesária, a infeliz Cesária. O coveiro ia começando a deitar-lhe a terra por cima. Padre Ramires impacientava-se. O Dr. Figueiroa de Aguiar assistia a tudo silenciosamente. E as beatas rezavam, rezavam e maldiziam, e rezavam. Todos o sabiam. Pecados velhos, pecados velhos…

FIM

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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