Um conto inédito: «O último adeus a Cesária» (Parte II)

(continuação da Parte I, ontem publicada)

 

Mas a má sorte de Cesária conheceu breve interregno. As preces instantes e comovidas de Marquinhas ante a imagem de Nossa Senhora do Rosário deram seus frutos. Certo dia, constou-se na terra que a Snr.ª D. Maria dos Prazeres de Bessa e Abranches, viúva do «morgado velho» do Vilar Novo, pretendia nova criada, interna, para a sua casa. O povo comentava que andara ali enguiço na família dos morgados, porquanto, de uma só assentada, haviam assomado às portas de São Pedro o dito «morgado velho» – o Snr. D. Raimundo de Bessa e Abranches, inesperadamente falecido de cólica hepática, após haver deglutido duas perdizes e um bocadinho de pernil assado – e uma das mais antigas serviçais da residência, a Josefina, que, ultimamente, andava achacada com a gota.

Como é bom de adivinhar, nem um momento perdeu Marquinhas. Prestes se colocou na casa da Snr.ª D. Maria dos Prazeres, expondo à augusta senhora todos os predicados de sua filha, os quais dela faziam, decerto, prestimosa e irrepreensível trabalhadora para o serviço doméstico. A viúva, de coração amolecido pelos trágicos e recentes sucessos de sua família, mandou, então, chamar a pequena, à experiência. Se se provasse a sua competência, nada obstaria, evidentemente, a que houvesse o lugar por ocupado.

Naquela tardinha, foi com indizível esmero que Marquinhas aprontou a trouxa paupérrima de Cesária, a qual carpia imensamente, ansiosa pelo desconhecido mundo que se lhe apresentaria na residência dos morgados. Insistia em que não queria ir. Estava muito bem na lavoura, ora essa! O trabalho pesado não a assustava. Sua mãe fazia-lhe ver os inconvenientes do mesmo, a médio e longo prazo: as canseiras, o fraco sustento, a velhice, que a iria tornando progressivamente incapaz de desempenhar tais serviços, etc. Nada parecia, no entanto, convencer a jovem. Por momentos, amparava-se a sua avó, à Tia Anunciação, que, de forma pouco razoavelmente articulada, ia dizendo:

– Que desgraça… Tirá-la do campo, do trabalho… Que desgraça… Levá-la lá para o Inferno… Que desgraça…

Mas a decisão materna era já dado adquirido. Cesária despediu-se da família e rumou, naquela noite, à casa da Snr.ª D. Maria dos Prazeres. Esta tratou-a com afabilidade, com candura. Porém, aquela miudita, de aspecto feito precocemente adulto em razão da vida dura, mas de alma ainda pura e ingénua, não deixou de sentir algum temor ante a figura exteriormente austera e seca da viúva do «morgado velho». Mesmo com toda a simpatia que pudesse dispensar, a Snr.ª D. Maria dos Prazeres, baixinha, magra, vestida de negro, com os cabelos apanhados na nuca, infundia natural reverência. Foi ela que determinou, apontando uma portinha estreita ao fundo do corredor:

– Minha filha, tens ali os teus aposentos. Guarda lá os teus pertences. A Rosalina te dará roupa limpa para vestires e usares no trabalho. No imediato, auxiliarás em todas as lides da casa, para eu ver se me praz o teu serviço. Se ensejo houver de assim o confirmarmos, admitir-te-ei como criada interna a título definitivo.

Mais pasmada ficou Cesária ante este rezatório da novel patroa, a qual, sempre atenta às convenções sociais e ciosa de nunca por nunca deslustrar a nobre fímbria aristocrática que recobria o seu nome e a sua pessoa, colocava, invariavelmente, um extremo cuidado na expressão oral. Porém, lá percebeu a jovem que, decerto, tal palavreado quereria significar que o cómodo indicado seria o seu quarto, e que poderia começar a trabalhar.

Vertidas as derradeiras lágrimas do adeus a sua mãe e à vida da lavoura, cuidou Cesária de se instalar. O quarto que lhe foi cedido era assaz pequeno, mas, para quem vivera, desde a aurora da vida, em uma choupana de fraca catadura, aquele aposento até se afigurava valiosíssima benesse. Pouco tempo volvido, foi-lhe a Rosalina, serviçal de meia-idade e de má cara, dar a farda. Bonita, simples, de alvo tecido e rescendendo a asseio. Envergou-a, mirou-se no minúsculo espelho. Por instantes, envaidou-se. Estava diferente, mais lépida e airosa! O rosto, tisnado do sol inclemente dos campos, tinha, ainda assim, bonita configuração. O sorriso leve que lhe escapava dos lábios donairosos conferia-lhe angelical expressão. O cabelo, penteado e ajeitado, acabava de alindar-lhe a aparência. Aos vinte anos, era, indubitavelmente, uma bonita mulher.

No túmulo, as fauces da defunta estavam secas e chupadas, fruto, mormente, da fome e da moléstia de que a mesma padecera em vida. Os olhos encovados davam ares de sofrimentos pungentemente sentidos. Os cabelos, da cor da neve, desalinhados, davam testemunho duma velhice precoce e triste. As mãos, recurvas e descarnadas, cruzadas sobre o peito, eram imagens de dor e resignação. As beatas lá iam, volta e meia, esparzir-lhe um pouco de água benta. Porém, não era sem uma tremura piedosa que o hissope lançava gotas de saudade sobre uma alma já distante. Comentava-se, à boca pequena:

– Coitadita… Vai mesmo desfiguradinha de todo…

Os primeiros tempos de trabalho na casa dos morgados não foram, de facto, fáceis para Cesária. Habituada estava ela, por princípio e inflexível determinação da natureza, a hercúleos esforços. Mas o campo era o campo. Era suor, mas liberdade. Eram lágrimas, mas saudações ao sol que nasce e vive. Eram canseiras, mas alegrias suaves. Era vida escrava, mas onde os grilhões não eram, porventura, tão férreos. A vida na casa grande era mais confortável, por certo, mas excessivamente regrada, predeterminada, rígida, tão rígida como a aparência da Snr.ª D. Maria dos Prazeres, cujos lampejos de bonomia haviam sido definitivamente recalcados no mais fundo do ser, e que, à medida que o tempo corria, ia recrudescendo em rabugice e azedume.

– Toma atenção no que fazes, rapariga! – era a frase que, invariavelmente, saía da face rugosa da augusta senhora.

A «rapariga» a que a morgada dirigia a sua costumada objurgatória lá foi aprimorando as suas qualidades de serviçal. Mas tornou-se moira de trabalho. Chegava, talvez, a labutar ainda mais pesadamente do que quando andava pelos campos. Nunca fora muito nutrida, mas, agora, por mor das penas do novo mester, andava exageradamente magra. As fauces encovadas, as mãos onde se divisava saliente ossatura, as pernas fininhas. Tudo isto denotava o triste estado daquela criatura.

Intentou Cesária ainda retornar à paterna casa. Não o pôde fazer, por sucessão inopinada de infaustos acontecimentos que vieram a dizimar grande parte de sua pobre família. A tísica lavrou ferozmente no modesto lar de Marquinhas, havendo sorvido a vida desta e do marido, bem como de três dos cinco manos de Cesária. De uma assentada, ficava esta quási sem amparos no mundo!

Nessa altura, foi até muito compreensiva a Snr.ª D. Maria dos Prazeres. Custeou as exéquias dos malogrados defuntos e transmitiu à infeliz criada a sua benévola decisão de mantê-la a seu serviço, com todas as prerrogativas inerentes a tal posto. Muito embora lhe fosse molesta a vida naquela casa, não deixou Cesária de devotar certo reconhecimento à velha morgada, que, por repentino milagre, até se foi tornando cândida e meiga, o que muito contrastava com a aspereza que, por muito tempo, lhe fora natural.

Mas esta fase de grande abnegação e generosidade de D. Maria dos Prazeres cedo conheceu fim, rematada que foi pelo seu passamento. Morreu de velha, disse o facultativo. Todas as criadas a choraram, perdoando os pecados da falecida patroa e lembrando algum bem que lhes ela fizera. Todo o solar da família Bessa e Abranches se cobriu de luto. No salão principal, em urna solene, repousava, para último preito de homenagem, o corpo da morgada.

Este sucesso trouxe à vetusta residência imensa cópia de fidalguia cógnita dos morgados do Vilar Novo, que lamentavam sobremaneira o falecimento de pessoa das suas relações e amizade. Mas trouxe, também, alguém cuja presença se não verificava ali havia muito: o filho da defunta, o Snr. D. Henrique de Bessa e Abranches, o «morgadinho», como todos o tratavam.

Padre Ramires toma posição junto ao altar. Vai principiar a missa. Vão entrando as últimas pessoas na igreja. As beatas desfiam rezas em vão. Nada sentem, nada as comove, são seres impassíveis, ocos, com a alma seca. Sempre cabisbaixo, o Snr. D. Henrique, morgado do Vilar Novo, curvado e trémulo, por inexorável efeito dos muitos anos de sua vida, solta, novamente, pungente lágrima. Não a disfarça desta vez. Deixa-a rolar, devagarinho, pelos fundos sulcos do seu rosto enrugado, após o que se ela precipita, dolentemente, nas lájeas da igreja. Pecados velhos, pecados velhos…

Rendida a derradeira e fúnebre homenagem à saudosa morgada, e cumprido, como competia, o luto pelo passamento da mesma, assumiu o Snr. D. Henrique de Bessa e Abranches as rédeas desse corcel rebelde que era o património de sua família. Não era ignoto das famílias da região que o cômputo dos bens do clã Bessa e Abranches era, indubitavelmente, o que a maior monta ascendia. Certo decaimento se houvera manifestado ultimamente – haja em vista a inexperiência da finada D. Maria dos Prazeres para trabalhos tais, que houve de sobraçar logo após o último suspiro de seu marido… Nada, no entanto, que maculasse notavelmente o lustro, esmaltado por sucessivas gerações de abastados proprietários, daquela casa vetusta e fidalga. Mas teria o novel morgado adequado tino para a gestão de assuntos tais?

Pois assim não parecia. D. Henrique de Bessa e Abranches deixara Vilar Novo muito jovem, demasiadamente jovem para se poder afeiçoar àquelas lides do campo, àquele viver puro, simples, compassadamente marcado pelo bater cadenciado da existência sã. Arrastara-se em devassidão e estúrdia por Coimbra, sem sequer lograr uma pequenina marca meritória no seu curriculum académico, assombrosamente polvilhado de R, coisa que o mesmo, ainda assim, exibia desassombradamente, quási como se de triunfo se curasse. As voltas da vida o faziam tornar à paterna casa, e o encarregavam agora da gerência da mesma.

Nos primeiros tempos, até a criadagem andava num ai-jesus. «O senhor morgado quer isto, o senhor morgado quer aquilo, o senhor morgado manda que, o senhor morgado disse que…». Soma: o senhor morgado vinha impregnado de manias urbanas, que desejava, à viva força, implantar ali, em um arcaico solar de província… Afora isso, mais nada fazia do que passear-se pelos campos derredor, ostentando superlativa pose jactante. Se ocorria lembrar-lhe, ia até às sortes onde o pessoal labutava, sob o tempo inclemente, agreste. Limitava-se a dar ordens. Em dias de melhor disposição, dedicava-se a podar algumas culturas, serviço de que, ademais, prestes se fartava. Então, já extenuado da longa jorna, ia recostar-se em um dos pesados cadeirões adamascados da casa de jantar do seu solar, fumando prazerosamente. Por sobre si, o retrato de seu venerável progenitor, ocupando largo espaço de uma das paredes daquele aposento, mirava-o com gesto severo e carrancudo – se se não tratasse de uma mera representação pictórica, diríamos que o finado D. Raimundo dirigia a seu filho um olhar chamejante e reprovador…

E se vivo fora, teria, decerto, bastas razões para tanto o velho morgado. Com efeito, D. Henrique era um perdulário. Em menos de um ai, dissipou considerável parte do seu património, em viver dissoluto, arrastando o seu vulto ébrio e desregrado por casas de jogo e lupanares. Passava largas temporadas fora de casa, vivendo à custa da riqueza que se lhe ia esvaindo por entre os dedos. Certa vez, o seu procurador, o inteligente e notável advogado Dr. Figueiroa de Aguiar, que à família vinha servindo desde os tempos da gestão de D. Raimundo, fez-lhe notar a gravidade do problema que, paulatinamente, se ia adensando:

– Snr. D. Henrique, já a seu pai servi, e com o maior denodo. De igual forma procedi para com a extremosa mãe de V. Ex.ª, senhora respeitabilíssima e piíssima, que Deus haja. E a V. Ex.ª continuo a servir, sempre da mesma maneira. Porém, julgo mister observar-lhe que, a prosseguir-se o presente caminho, pleno de espinhos e fundos abismos, V. Ex.ª conhecerá, e não daqui a muito tempo, o ocaso do sol que ora o ilumina…

A resposta do morgado foi lapidar:

– Sim, sim… Ó Figueiroa, aceita um charuto?

O Dr. Figueiroa de Aguiar encolheu os ombros e aceitou. «Está tudo perdido», pensou.

Lá está o Padre Ramires, arrazoando o latinório costumado ante o cadáver frio e impassível de Cesária. A meio da missa por alma da defunta, um sucesso inopinado: o Snr. D. Henrique de Bessa e Abranches leva a mão ao peito, solta um leve suspiro e faz menção de desfalecer. Prestes o povo reunido no templo o acode; à frente de todos, o idoso Dr. Figueiroa de Aguiar, com um lampejo de aflição por aquele fidalgo arruinado, mau gestor, jovem irreflectido, que, não havendo calculado avisadamente os passos que o conduziriam a uma velhice tranquila, se achava, agora, votado à penúria, habitador misérrimo de um solar arruinado, em que as térmitas iam carcomendo o mobiliário e a cal das paredes já conhecera dias de melhor aspecto.

– Então, Snr. D. Henrique, então, sente-se bem? – lhe perguntou o Dr. Figueiroa de Aguiar.

D. Henrique, de fauces descoradas e vista arregalada, articulou, quási ininteligivelmente:

– É o fim, Figueiroa… O fim…

O morgado já ia começando de sentir na pele a medida do seu empobrecimento. Faltava o dinheiro para gastar no jogo, os amigos já lhe não emprestavam nem migalha. Vendo-o assim, definhando a olhos vistos, fechavam-lhe as portas de suas casas mesmo na sua cara, postergando-o. E ele ficou abatido, sentindo, pela vez primeira, o mundo tremer-lhe sob os pés nervosos…

Cesária andava ainda no serviço interno da casa. Sempre receosa, sempre contida nos modos, sempre submissa, tal qual a moldara a Snr.ª D. Maria dos Prazeres, tão logo ela dera entrada na residência dos Bessa e Abranches. Não gostava do morgado novo: achava-o presunçoso, imoral. Porém, sempre obediente, servia-o com resignação, mesmo sabendo ser ele pessoa volúvel e de trato não muito fácil.

Para D. Henrique, Cesária era apenas «uma das serviçais». Era como as outras. Nascida para ser mandada. Nem lhe ligava, aliás, especial importância. Isto até ao dia em que começou de reparar na desenvoltura e nos meneios da criada, a qual, posto ser assaz tímida, apresentava certo encanto ingénito. Cesária fizera-se mulher, e era muito esbelta, e de feições atraentes, bonitas. Tanto bastou para que o morgado passasse a cercá-la de interpelações, de comentários simpáticos, de carinhos. A tudo isso se ela furtou, até porque vinha alimentando incipiente derriço com um moço da lavoura, mas só até ao dia em que também a figura elegante e imponente do morgado novo a impressionou. Tanto bastou, pois.

O povo leva D. Henrique em braços para o adro da igreja. Padre Ramires, temendo uma inopinada celebração, ali, naquele momento, de mais um funeral, roga o prestimoso auxílio de todos, para que socorram o fidalgo ancião. Enquanto isso, o corpo de Cesária ali permanece, serenamente depositado no funéreo sarcófago.

– O meu filho… O meu filho… – vai dizendo D. Henrique, com voz cada vez mais sumida, enquanto os populares o levam para fora da igreja.

Cesária andava encantada. Prosseguia o serviço doméstico, posto que gozasse de uma especial e benévola atenuação, concedida por especial graça de seu amo e senhor. D. Henrique não queria, de modo algum, que se ela cansasse. Fazia coisa pouca na cozinha, arrumava algumas roupas e nada mais. De resto, compartilhava leito e mesa com o patrão. As criadas mais novas nem lhe dirigiam palavra, mostravam-lhe má cara, segredavam ditos acres. Porém, Cesária conseguia notável abstracção relativamente a tudo isso: descobrira a protecção e o amparo do morgado novo, a quem devotava, agora, uma profunda afeição. Ideava sonhos de ventura sem par: casamento na igreja, senhora de inúmeros haveres, filhos brincando nos jardins do solar, vida plácida e tranquila. Que rico vislumbre! No entanto, a mais velha das serviçais, a Vitorina, conhecedora perfeita e experimentada das coisas do mundo e da vida, e única que continuava estimando Cesária, curou de desenganá-la, ainda a tempo:

– Minha filha, não alimentes sandices! Olha que o senhor morgado não há-de sustentar-te a pão-de-ló a vida toda! Toma cautela!

Cesária fez orelhas moucas a estes tão certos avisos de Vitorina. Qual! D. Henrique amá-la-ia eternamente! Mal sabia ela qual seria o seu fado…

 

(continua)

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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