Um conto inédito: «O último adeus a Cesária» (Parte I)

Nos dias 9, 10 e 11 de Fevereiro do ano corrente, demos à publicação, neste Blogue dos Autores, um conto de nossa autoria, que se intitulava A esmola. Como, então, frisámos em uma singela nota prévia de que o fizemos acompanhar, não fora tal texto incluso na nossa antologia de contos Retratos Dispersos, por certo escrúpulo mais exigente que presidiu ao ordenamento sistemático que a mesma ostenta. Em boa verdade, não se nos afigurou aquele texto inteiramente merecedor de ser recoberto de aspecto impresso. Mas mais dissemos. Fugazmente, fizemos menção ao facto de haverem sido em número de dois os textos então arredados da nossa colectânea ficcional. Pois para além do já referido conto A esmola, outro permaneceu inédito: O último adeus a Cesária. Porque não desejamos que o mesmo (maugrado todas as imperfeições que lhe reconhecemos, e que nos não orgulham…) seja condenado ao esquecimento, jazendo no fundo de uma gaveta plena de papelada, e, bem assim, porque, à semelhança de outros escritos emanados da nossa pena, contém este conto certo aspecto de análise e crítica social (sendo que esta última se vai perfilando, nos dias que correm, cada vez mais necessária e premente…), entendemos haver chegado o momento azado para a sua exibição ante o público leitor deste espaço em que gratamente participamos, o que faremos em três partes, que serão sucessivamente publicadas, nos próximos dias. Apenas aditamos uma palavra mais, para referir que o texto ora postado segue um modelo narrativo distinto daquele que, por hábito, cultivamos, inconsiderando, de certa forma, a unicidade narrativa, e alternando entre a acção principal – actual – e múltiplas analepses, que nos dão, ao fim e ao cabo, toda a história de vida da protagonista, Cesária. Mas disso facilmente se aperceberão os estimados leitores. Principiemos, pois:

 

Tangem os sinos ao longe. Dobram a finados. Todos perguntam: quem foi?

Badalam os sinos no campanário, tocam dolentemente, em um ritmo compassado, melancólico e triste. E todos perguntam: quem foi?

Lá estão eles, os sinos. Tocando, tocando sempre, com uma passividade atroz, quási como que habituados a anunciar sempre a mesma nova. Já lhes não faz espécie propalar a morte de quem quer que seja. Habituaram-se, e o hábito endurece o sentir. Mas ainda há quem pergunte: quem foi?

Pela estradita da aldeia, a Tia Rosa do Seixas corre a atirar ao vento a resposta à interrogação que a muitos baila na ideia. Lá vai ela, é a portadora das notícias aziagas. Lá vai ela, toda de negro vestida, com o lenço amarrado à cabeça. Lá vai ela, que escancara a boca enrugada e maledicente, apenas para soltar o fruto da curiosidade alheia. E ela diz:

– Foi a Cesária!

Pronto. Soltou uma verdade universal. Melhor. Soltou a revelação mais expectada naquele momento. Os outros, que haviam deixado seus mesteres no campo para escutar a novidade, pasmaram, imbecilizaram-se ante aquele facto assim revelado, ficaram sem qualquer reacção. Tia Rosa do Seixas ufanava (será possível alguém ufanar-se com funestos sucessos?). Por momentos, sentia-se dona do universo. Sentia-se uma entidade poderosíssima, a quem bastava uma palavrinha para embrutecer uma turbamulta inteira, tal o impacto da revelação que só ela continha. Mas era divindade barata, de pechisbeque. Passado o primeiro e inicial assombro, logo a multidão assimilou a informação que lhe fora fornecida, e a Tia Rosa voltava a ser a mesma insignificância do costume, até que outro passamento lhe desse mote suficiente para, por fugazes momentos, se transformar, ela e só ela, na guardiã da verdade.

O povo, que se apartara do seu trabalho para ouvir aquilo que desejava ouvir, recaiu na sua modorra. «Coitada, é a vida», diziam todos, e volte-se à labuta, que é já tarde. Ai, que está tanto frio!

Bom, e parece que, no meio de tudo isto, toda a gente se ficava pelo acessório e desprezava o essencial. Os pólos desta pequena cena haviam sido: de um lado, a Tia Rosa do Seixas; do outro, o povo, aglomeração inominada e informe. Pois. E a Cesária? A bem dizer, não fora tida nem achada na conversa. Tomara-se o acessório pelo essencial. Ou será que o essencial é o acessório e vice-versa? Talvez que para muitos assim seja.

Porque a nós – porventura, ingenuamente, e descarrilando da linha-férrea do pensamento geral – se afigura que o essencial é o essencial, e o acessório é o acessório, cabe relevar o essencial, visto o acessório haver sido já exposto. Cabe fazer a pergunta que ninguém se lembrou de fazer: quem fora Cesária?

Era por um dia outonal, de vento e chuva. As folhas amarelecidas soltavam-se das árvores tristes. Transida de frio, uma mulher pobre acercava-se da casa da Tia Rosalina da Cruz. Horas depois, ouviam-se choros de criança.

Não tardou a que a Tia Anunciação do Nunes rumasse à residência da parteira. Queria ver a filha, que decerto já teria tido a criança. Ah, vida ingrata, mais uma boca para suster! Que raio de infelicidade! Como fora a Marquinhas arranjar o rebento? Ah, aquele genro, aquele Albertino, não tinha tino nenhum! Com um rancho enorme, cinco pequenos já para alimentar, e ainda vinha mais uma prenda!

– Então, Tia Anunciação, vem ver a sua nova netinha? – perguntou a parteira, a Tia Rosalina, à mãe da puérpera.

– Venho. Venho assistir a mais uma desgraça para a gente! Já viu, Tia Rosalina? Esta mocidade só sabe arranjar filharada! – retorquiu Tia Anunciação, secamente, como era seu costume.

Deitada na enxerga, visivelmente exausta, a Marquinhas contemplava a sua recém-nascida filhinha com certa ternura. Que encanto! Tão pequenina e delicada! Porém, logo a velha Tia Anunciação lhe lançou um olhar chamejante. Não tinha carinhos de avó, aquela idosa senhora. Tinha, somente, a consciência prática da utilidade: seria ou não útil aquela cria? Resposta pronta: não seria.

– Ó filha, tu deves livrar-te desse estorvo. Vai deitá-la à roda!

Marquinhas tremeu. A sua consciência, um pouco mais humana que a de sua progenitora, clamou bem alto contra aquela crueldade. Não, não iria enjeitar uma filha sua! E tão bonitinha que ela era! Ficava-se com ela.

A Tia Anunciação mordia os beiços, raivosa.

– Ficas com ela, mas arranjas-te para sustentá-la. Eu não te ajudo!

A igreja começa de encher, com gente para assistir ao funeral de Cesária. Vão entrando as beatas, aves negras, de espírito venenoso e putrefacto. Falam baixinho, enrodilham as linhas com que se cose a vida dos outros, lançam pus sobre tudo e todos. Dissimulam a degradação moral sob uma capa de santidade. De santidade? De beatice, de imbecilidade…

Onde ia? Ah, sim. Marquinhas criou sua filha mais nova com desvelos, aqueles desvelos que os pais, sabe-se lá por que insondável motivo, destinam sempre ao descendente caçula. Os outros manos não frequentaram a escola, a Cesária frequentou. Tinha algumas dificuldades na prosódia – era natural –, mas aprendia depressa e bem. Sua mãe trabalhou insanamente para lhe proporcionar o estudo das primeiras letras. Tinha gosto em que a filha surgisse bem lavada e penteada, posto que com um vestido pouco desenxovalhado. Mas a mais não podia almejar…

No recreio, chamavam-lhe a «Cesária dos Remendos». As demais moças – poucas, de resto, porquanto a população escolar era maioritariamente masculina – não queriam com ela brincar, tinham certo escrúpulo em dar confiança a uma pobre de Cristo, que não tinha onde cair morta. Os rapazes riam-se dela. Porém, houve um que se enamorou daquela andrajosa colega – era o Felisberto, um gordo, que só sabia contar piadas – e que, durante uns anos, não a largou. Cesária rejeitou-o incontáveis vezes. Esse, porque os pais tinham um pequeno comércio, foi para a capital do distrito, para o liceu. Nos primeiros tempos, mandava-lhe cartas apaixonadas, e muito ingénuas. Passaram-se os meses, e a correspondência acabou. Fenecera aquela paixão infantil do Felisberto, que, entretanto, se encantara pela artista principal de uma trupe itinerante.

Vai a igreja enchendo. O Padre Ramires sai da sacristia, já paramentado. Vem com ar grave. Ao centro do tempo, o caixão contendo o cadáver de Cesária é rodeado de velas. As beatas rezam, para, acto contínuo, atentar contra a religião, ao lançar sua peçonha sobre o mundo inteiro – mormente, no caso, sobre a defunta, que se já nem podia defender! –.

Pois dizia que a Cesária fez a instrução primária. Foi, então, trabalhar. Marquinhas almejava-lhe um futuro ridente, quiçá como criada interna em uma boa casa. Não se concretizou, porém, tal anseio. Como largo número de moças da sua idade, foi Cesária labutar para o campo, trabalhando à jorna. Debalde tentou sua progenitora encontrar-lhe mais alta posição. Correu Ceca e Meca, falou às senhoras das melhores casas da região, perguntou-lhes se não careciam de serviçal obediente e trabalhadora, desfiou-lhes, em larga récita esmaltada pelas mais luzentes virtudes humanas, as prendas de sua filha, menina dum quilate como se já não via!… Mas nenhum solar, nenhuma casa abastada precisava, então, de pessoal novo. Cerravam-se as portas de um porvir promissor para aquela pobre alma, que encarreirava, sem surpresa, no normal destino da gente pobre.

Foram tempos difíceis! Cesária era, afinal, miudita, e a lavoura mais não lhe ofertava do que fadigosos tormentos. Obrava prodígios de equilibrismo com as bilhas de água que trazia da fonte. Demonstrava incomum força no amanho da terra, facto assombroso, dada a sua pouca idade e a fraca compleição. Extenuava-se com as lides da malha do centeio e do trigo, ali, na eira, sob o sol tirano. Soma: ao fim do dia, arribava a casa quási exânime, sorvendo, com as poucas forças sobrantes, o modesto caldo que compunha o repasto familiar. Marquinhas, que jornadeava também, mas para outros patrões, compadecia-se de sua mais pequena filhinha, que assim consumia a mocidade em labuta pesada e cruel. Só Tia Anunciação, cada vez mais idosa e cadavérica e com uma alma progressivamente mais ressequida, por efeito petrificador do tempo, era capaz de manifestar alguma satisfação com tal statu quo. E até argumentava:

– É assim, filha, tem de ser! Faz-te bem trabalhar! Olha que até havias de fazer mais qualquer coisa! Eu, na tua idade, esfalfava-me ali que nem uma moira!… E ainda cá ando. São noventa e dois, ou coisa que o valha, e ainda cá estou…

E proferia tais palavras mascando uma côdea rijíssima de casqueiro, apenas com o auxílio dos dois dentes que lhe ainda restavam. Marquinhas, por um resquício de temor reverencial que se fazia sentir no seu espírito, não retorquia ante os ditos eloquentes de sua venerável progenitora, posto que, lá no fundo, os mesmos lhe repugnassem sobremaneira.

Já vai a igreja cheia. Pela porta principal, de madeira maciça, vão entrando as últimas pessoas. O senhor morgado do Vilar Novo, que se não nega a estar junto do povo nestes momentos funéreos, vai sentar-se num dos primeiros bancos. É pessoa de família antiga e afidalgada, modos afáveis, posto que educadamente comedidos, admirável simplicidade. Tira o chapéu, passa as mãos pela melena escassa. A vista lacrimosa, mercê dos anos avançados, dirige um lance para o caixão onde repousa a defunta. Reconhece o nobre ancião aquela personagem da sua aldeia, e, possivelmente como decorrência de qualquer piedosa recordação de antanho, ainda latente em seu espírito, comove-se. Retira o lenço do bolso das calças, enxuga a lágrima inopinada. Faz o sinal-da-cruz, baixa a cabeça e espera. Nos bancos imediatamente fronteiros, beatas comentam:

– Até o senhor morgado chora esta desgraçada… Pecados velhos! Pecados velhos!

 

(continua)

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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