Evocação de Mariana Rey Monteiro, dois anos após o seu falecimento

Há precisamente dois anos, o luso universo da representação emurcheceu, ante a obnubilação de uma das suas mais fulgentes estrelas. Falecia Mariana Rey Monteiro.

Foi, na verdade, uma perda de incomensurável monta para os meios culturais do nosso país. O grande público decerto conservará, como memória viva e venerável, a imagem do admirável talento representativo da Actriz de que hoje falamos, bem como a recordação saudosa do seu profissionalismo e do seu carácter.

Mariana Rey Monteiro foi, como se sabe, a distintíssima continuadora do trabalho aturada e meritoriamente desenvolvido, ao longo de várias décadas, por seus ilustres Pais, Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro, dois nomes maiores da cena teatral portuguesa do último século. Ademais, foram os mesmos decididos impulsionadores de uma das maiores companhias teatrais europeias: a célebre (e de boa memória!) Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, a qual, para além de haver deixado um vincado contributo para a qualidade e diversidade do teatro que se ia fazendo em Portugal (levando à cena inesquecíveis peças de autores nossos, mas também, e numa atitude vanguardista e arrojada para a sua época, cultivando obras de múltiplos autores estrangeiros de renome, com base em cuidadíssima selecção, não se coibindo de trazer ante o público português textos de novos autores, como Régio e Sttau Monteiro), foi decantadíssima escola de actores, por ela tendo passado alguns dos vultos mais proeminentes que a arte de Talma alguma vez conheceu em Portugal (citemos, numa enumeração meramente exemplificativa, os nomes de Palmira Bastos, Luz Veloso, Estêvão Amarante, João Villaret, Eunice Muñoz, Maria Barroso, entre muitos outros).

Em tal fecundo meio germinou, pois, o rútilo talento artístico de Mariana Rey Monteiro. Estreou-se, auspiciosamente, com a Antígona, em 1946, no Teatro Nacional D. Maria II. A partir de então, não mais cessou a sua dedicação profunda ao teatro e à representação. Cultivou, por quase quatro décadas, o amor aos palcos e ao público. Integrou o elenco de peças teatrais dos mais altos vultos da dramaturgia nacional e estrangeira, desde Shakespeare a Molière, passando por António Ferreira, Bernard Shaw, Valle-Inclán, Tennessee Williams e Bernardo Santareno.

Mas não só no teatro se deu a conhecer o extraordinário talento de Mariana Rey Monteiro. Ademais, grande parte do público conserva-a, sobretudo, na lembrança pelas suas ímpares aparições televisivas. Façamos um brevíssimo exercício de rememoração, e logo depararemos com a criada Emília de Gente Fina é Outra Coisa (1982-83), série cómica de grande quilate em que, aliás, a insigne Actriz contracenava com sua Mãe, Amélia Rey Colaço (a qual, como D. Matilde, deixou para a posteridade um registo cénico inolvidável). Se mais adiante nos permitirmos ir, tornar-nos-á à lembrança a D. Ifigénia Marques Vila de Vila Faia (1982), primeira e notável telenovela portuguesa, resultante de um projecto que logrou congregar um apuradíssimo naipe de actores (Ruy de Carvalho, Rosa Lobato de Faria, Glória de Matos, Varela Silva, Ana Zanatti, Luísa Barbosa, Nicolau Breyner, Margarida Carpinteiro, Carlos César, Helena Isabel, Vítor de Sousa, entre outros) e que veio a abrir, de par em par, as portas à grande produção ficcional televisiva do nosso país. E igualmente fecunda e duradoura se revelou a colaboração de Mariana Rey Monteiro em outras telenovelas portuguesas: como Ofélia em Origens (1983), nas vestes de Helena Fontes em Chuva na Areia (1985), esse notável «tele-romance» (como, à época, foi definido) dimanante de obra ficcional inédita do grande escritor e dramaturgo Luís de Sttau Monteiro, no papel de D. Maria Antónia em Cinzas (1992-93), crismada Margareth Gordon em Verão Quente(1993-94), como Rita Navarro em Roseira Brava(1996) e, finalmente, com uma magistral e brilhantíssima despedida em Vidas de Sal (1996-97), no papel da protagonista, Eugénia Reis.

Pecaria por incompletude esta sucinta referência que à carreira de Mariana Rey Monteiro fazemos se não aludíssemos, posto que tenuemente, à sua participação também no cinema, em películas assinadas por Augusto Fraga, Paulo Rocha e Lauro António.

As linhas que aqui deixamos, sabemo-lo bem, não exprimem a grandeza e imensidão do percurso artístico e do exemplo de vida de Mariana Rey Monteiro. Nem a tanto poderíamos almejar. As palavras são largamente insuficientes para prestar a merecida e devida homenagem a esta grande Actriz e Senhora que agora recordamos, e que há dois anos do público se apartou. Referência maior de profissionalismo, talento e amplíssima dedicação à arte da representação, pessoa de superior elegância e nobilíssimo carácter, ficará perenemente inscrita no livro de ouro dos actores portugueses. Assim apomos, pois, o derradeiro ponto a estas fugidias e modestas palavras de tributo, de um tributo muito sincero, que leva consigo a nossa incontida admiração pessoal, e a mais viva saudade e veneração ante figura tão notável da cultura portuguesa do último século.

 

[P. S.: Permita-se-nos o ensejo para rememorar outra ilustre figura da cultura pátria, infaustamente desaparecida. Aludimos, claramente, a Manuel António Pina, nome distinto das nossas letras, ontem falecido. À sua memória prestamos, identicamente, sincero preito de homenagem.]

 

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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