Tríptico poético

O que hoje publicamos é uma reminiscência de experiências poéticas que há já largo tempo fomos efectuando. Porém, em boa verdade, os três poemetos que de seguida se apresentam terão sido, porventura, o resultado mais fruste e decepcionante desse impenitente e vão afã de cultivar (imperfeitamente, como se verá…) a nobre arte poética, que, decerto, não encontra em nós trovador capaz de a dignificar na exacta medida do seu fulgor. Pensamos, ao reler estas descoordenadas garatujas com considerável distância temporal relativamente ao momento em que as esboçámos, que talvez nunca as devêssemos ter materializado. São, portanto, velhos pecados… literários, a que a nossa rude pena um dia se permitiu, e que cuidávamos haverem já levado um tranquilizador sumiço, juntamente com outros papéis inúteis de que, de tempos a tempos, vamos aliviando as nossas gavetas. Mas eis que viemos a encontrar, com grande estupefacção, o manuscrito em que se achava este tão modesto «tríptico». Afinal, ainda nos não tínhamos livrado desta obra que nos não orgulha particularmente… Assim, pensámos em outra forma de expiar esta nossa ousadia literária: em vez de condená-la ao esquecimento, vamos exibi-la perante o público, e este aferirá, no seu superior entendimento, qual a qualidade dos textos que ora se transcrevem. 

 

INDIFERENÇA

 

Vã indiferença,

Estulta vaidade,

Ai de quem pensa

Sem nenhuma bondade!

 

 

Altivez inútil,

Importância presumida,

Por qualquer motivo fútil,

A fronte bem erguida!

 

 

É proceder sem nobreza,

De quem constrói castelos no ar

Mas nada deve à firmeza!

 

 

De que serve tamanha indiferença,

Se sempre um amparo buscamos

Quando nos acomete a doença?

 

—————————————————

 

O TEU SORRISO

 

Noite fria, invernosa,

Em meu quarto solidão;

Minh’alma reclama, chorosa,

A divina bênção do teu perdão.

 

 

Pela treva vou campeando,

Em solidão buscando a luz;

Por teu sorriso ansiando,

Sobraço, estóico, minha cruz.

 

 

Teu sorriso alegre, de menina,

É, para mim, perenal lembrança,

De quando passeavas, ladina,

Alma plena de esperança.

 

 

Se me Deus desse a ventura

De poder viver esse teu sorriso,

Teria um fim esta tortura,

Chegaria às portas do Paraíso!

 

 

Estou perdido do meu caminho,

Pela tristeza assolado;

Meu Deus, estou sozinho,

Ponde meu amor a meu lado!

 

————————————————–

 

DÚVIDA

 

A porta do meu amor

É um enigma complexo:

Ou de lá vem mau humor,

Ou um doce amplexo!

 

 

Tem temperamento complicado,

A minha querida menina:

Ou me trata como malvado,

Ou carinhos me destina!

 

 

É uma renovada incerteza

O proceder daquela alma:

Ou me presenteia com frieza,

Ou é só doçura e calma!

 

 

As razões de ser assim

Quisera eu perceber;

Infelizmente para mim,

Não logrei compreender!

 

 

Mas nada disso releva

Quando, em havendo um ensejo,

Toda ela se enleva,

Ofertando-me um beijo!

 

[N. B.: Aditamos uma breve nótula, posto que a despropósito da temática a que este artigo subjaz, apenas para assinalar, como compete, o 102.º aniversário da Revolução Republicana, que hoje se comemora, não obstante a paisagem enevoada e soturna que vai matizando o nosso quotidiano, e que em muito contrasta com os valores que enformaram os sucessos de 5 de Outubro de 1910. Ademais, será este ano, em princípio, o último em que a data histórica a que aludimos merecerá as honras – justificadíssimas – de feriado nacional. Igual sorte terão o 1.º de Dezembro, de tão alto significado libertador e patriótico, e o 1.º de Novembro e o Corpo de Deus, que tão representativos e importantes são para a comunidade católica portuguesa. Triste facto – vd., aliás, novamente o quanto sobre o assunto escrevemos há quase um ano, no nosso artigo «O fim da História?», nesta mesma sede publicado, em 3 de Dezembro de 2011 -, que muito nos consterna. Infelizmente, vão-se divisando cada vez mais razões para invocar a consabida expressão de Cícero: O tempora! O mores!]

 

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

 

 

 

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2 respostas a Tríptico poético

  1. Peço desculpa pelo atrevimento mas, vendo que havia alguma preocupação formal nesta sua poesia dos tempos idos, o último poema sugeriu-me um pequenino trabalho de “burilação” mental e ficou perfeito, na redondilha maior… vou exemplificar, garantindo que as alterações serão ínfimas

    A porta do meu amor
    é um enigma complexo:
    ou de lá vem mau humor
    ou VIRÁ um doce amplexo

    TEMPERAMENTO complicado
    TEM minha querida menina:
    ou me TRATA DE malvado,
    ou carinhos me destina

    QUE renovada incerteza
    No proceder daquel`alma:
    ORA M`OFERECE FRIEZA,
    ora é só doçura e calma

    as razões de ser assim
    QUEM MAS DERA conhecer;;
    infelizmente pr`a mim
    não logrei compreender

    mas nada disso releva
    quando, em havendo um ensejo,
    toda TERNA ela se enleva
    para OFERTAR-ME O SEU beijo!

    Não costumo ser atrevida a este ponto e peço desculpa, mas surgiu-me naturalmente, eu achei este poema muito terno e foi pedida uma opinião… 🙂
    Apaguem isto depois de lerem, por favor.
    Agradaram-me estes poemas de juventude… e recordo que acredito nunca ter feito um poema dedicado a um namorado… tudo, menos o amor homem/mulher – e se eu fui muito prematuramente apaixonada! – me inspirava poesia… realmente devo ser um tanto ou quanto estranha…

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