As guitarras de Coimbra estão de luto – faleceu o Dr. Luiz Goes

Foi hoje dia infausto para o Fado de Coimbra. As suas guitarras, fazendo ouvir mais sentidamente o bater do coração que lhes é tão característico, choram o falecimento de um dos mais distintos cultores da canção da Lusa Atenas. Trata-se do Dr. Luiz Goes.

O universo coimbrão perdeu, de facto, uma das suas estrelas que, ao longo dos tempos, mais fulgiram. É bem sabido que o Dr. Luiz Goes, médico de profissão, foi, durante décadas, um cantor de excepção, um inspirado compositor, um incansável divulgador do Fado de Coimbra. A sua voz maviosa, a sua interpretação sentida e cuidada, a excelência do seu repertório foram, indubitavelmente, marcas que assinalaram bem a sua carreira.

Neste momento de dor e pesar, acorrem-nos à lembrança aquelas primeiras interpretações gravadas em disco, em meados dos anos 50: a Dobadoira, a Carta, o Fado da Despedida. Recordamos, também, saudosamente o célebre disco do «Quinteto de Coimbra», com a guitarra vibrante e expressiva de António Portugal, o qual constituiu um notável marco na história da música portuguesa, com assinalável repercussão no estrangeiro. E ainda revisitamos as inesquecíveis baladas, musicalmente admiráveis e com altíssimo nível poético, de que, felizmente, ficam diversos registos fonográficos, para que aos vindouros seja possível apreciar o talento do Dr. Luiz Goes.

Após a geração de Hilário e Manassés, após a «primeira década de oiro», de Menano, Bettencourt e Paradela de Oliveira, a «segunda década de oiro», em que também pontificam nomes históricos e inesquecíveis como os dos Drs. Machado Soares, Fernando Rolim e Augusto Camacho Vieira, encontrou, sem dúvida, na figura do Dr. Luiz Goes um dos seus mais destacados representantes (recorde-se que, aliás, era o Dr. Luiz Goes sobrinho de outro dos grandes vultos da «primeira década de oiro» – o Dr. Armando Goes).

Com o desaparecimento deste insigne nome, Coimbra e o seu Fado ficam mais pobres. Calou a sua voz um dos mais melodiosos trovadores que as águas cristalinas do Mondego já ouviram. E enlutado e pesaroso fica, igualmente, o nosso espírito de estudante de Coimbra. Rematamos esta breve nótula de póstuma homenagem com os primeiros versos do Fado Hilário, verdadeiro ex-líbris da canção coimbrã, de que também o Dr. Luiz Goes foi um magistral intérprete:

A minha capa velhinha

É da cor da noite escura,

Nela quero amortalhar-me

Quando for para a sepultura.

 

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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