Caminhos de futuro… sem passado? – Reflexão

Não pôde deixar de colher a nossa melhor atenção uma das últimas crónicas de Baptista-Bastos, inserta no Diário de Notícias de 22 de Agosto p. p.do, sob o título «Os nossos velhos».

Na verdade, encimada por este singelo designativo, expôs ali o respeitável Autor toda uma pertinente reflexão sobre um tema que, podendo antolhar-se circunscrito a um singular aspecto da vida hodierna, é, afinal, bem mais lato e notável.

Assim, e partindo de alguns traços reflexivos presentes no artigo a que fazemos menção, tentaremos juntar a nossa voz à dilucidação de uma problemática que a todos atinge e para que urge achar soluções adequadas. Não nos arreceamos de, virtualmente, estar a meter fouce em seara alheia; pelo contrário, cremos que o assunto sobre que deixaremos breves linhas de apontamento se impõe, pela sua premência, a qualquer cidadão.

É verdade insofismável, e cógnita de qualquer espectador do quotidiano minimamente atento, que se assiste, nos nossos dias, a uma assombrosa desvalorização da população idosa. Não pretendemos generalizar (seria estultícia fazê-lo); não podemos, no entanto, deixar de observar que a verificação de tal fenómeno se vai repetindo muitas vezes, demasiadas vezes até, o que nos deixa assaz apreensivos.

No artigo que nos serve de mote, alude o Autor àqueles primitivos povos que, assistindo ao envelhecimento de alguns dos seus elementos, os postergavam (e por diversas formas o faziam, chegando à insensibilidade gritante dos celtas, que raiava claramente a inumanidade), porque insusceptíveis, devido à idade avançada e às decrescidas capacidades, de contribuir produtivamente para a sustentação do grupo. Poder-nos-á impressionar que assim fosse, mas não deveremos surpreender-nos: em épocas tais, a mundivisão humana era, evidentemente, mais limitada e rude, centrando-se, essencialmente, na luta pela sobrevivência, em prol da qual se prescindia de eventuais abrolhos que a coarctassem.

O que já nos deverá surpreender (embora parecendo não impressionar muitas pessoas de hoje em dia) é o facto de, actualmente, se assistir, mutatis mutandis, a idêntico cenário: o idoso é, não raro, somente considerado tendo por base a sua contribuição para a sustentação económica de outrem; quando não satisfaz tal finalidade, é postergado. E assistimos ao seu isolamento propositado, à sua estiolação induzida, ao seu definhar programado por terceiros.

Perdoe-se-nos, desde já, a crueza da linguagem, mas cremos que não haverá mais suaves matizes com que possamos atenuar o negrume desta paisagem. E ressalvamos, igualmente, que a questão versanda se não reduz a isto. Prossigamos, pois.

Para uma adequada consideração global do problema que inere à presente reflexão, haveremos de trazer à luz da nossa análise um outro elemento de monta: o carácter competitivo, quase «frenético» da sociedade moderna. Seria falaz argumento dizer que jamais existiu sociedade tão competitiva como a dos nossos dias (nas épocas anteriores, também essa competitividade se verificava, evidentemente, mas sob diversa aparência e outras, distintas manifestações). Será, sem embargo, acertado dizer que talvez nunca como hoje se assistiu a uma junção de tal matiz de competitividade com aqueloutro da valorização pessoal – que, em si mesma, nada tem de negativo, salvo quando, hipertrofiada, raia o individualismo impenitente. E é este o punctum crucis: o indivíduo espraia e esgota o seu tempo de vida com trabalho, esforço, pugna quotidiana, sempre mirando alcandores que deseja ter para si, sempre insatisfeito, sempre intentando alcançar mais e melhor. Repetimos: isto nada tem de mal. A prejudicialidade da questão reside, unicamente, em certo empolamento que disto fez a mentalidade hodierna. Aparece-nos, então, defronte o reverso da medalha: o indivíduo olvida a dimensão humana, inconsidera notória parte das suas vivências no seio da societas, quase que se automatiza, vivendo, exclusivamente, em função de… produtividade.

Não deixa, pois, de ser naturalmente irónico: ab initio, vivia-se em uma sociedade que almejava, mormente, a produção, a fim de lograr a sua sobrevivência; pensou-se que a evolução da espécie seria de molde a aliviar o Homem de parte desse hercúleo fardo – a verdade, no entanto, é que ele aí está, ainda hoje, e mais vivo e pujante do que nunca! Grande parte da nossa vida é, afinal, mensurada por padrões de produtividade. E o resto?

Isto que vimos de afirmar tem clara conexão com a temática a que o presente escrito subjaz. Os periódicos enxameiam-se, de quando em quando, de notícias dando conta do abandono de idosos em hospitais ou lares, com o fundamento de que os respectivos familiares carecem de meios para deles cuidar, ou lhes falece, simplesmente, o tempo bastante para tanto…

Um cenário deste jaez é claramente irrazoável em uma sociedade que pretenda afirmar-se como desenvolvida. Não temos a veleidade de assacar culpas a este ou àquele indivíduo: pensamos, na nossa modesta impostação das coisas, que o «calcanhar de Aquiles» reside, afinal, na sociedade em si, e na sua organização actual, que, se bem virmos (e basta que a vejamos com a clarividência própria da experiência de todos os dias), vai assentando sobre barrotes cada vez mais frágeis.

Já de há muito que vimos afirmando: sem um adequado conhecimento do passado não é possível uma capaz intelecção do presente, e muito menos uma cuidada estruturação do futuro. Inconsiderar a importância altíssima dos idosos para a sustentação da sociedade é, não apenas um acto inumano e insensível, mas também desvalorizar todo o acervo de conhecimento ancestral que os mesmos consigo transportam. É, no fundo, querer lançar frágeis naus nos mares que dão acesso ao futuro, as quais, sem o lastro de conhecimentos prévios que lhes acrisole a resistência, naufragam dramaticamente ante qualquer Adamastor que lhes surja no caminho.

Pretendemos, com tudo isto, afirmar algo de simples entendimento: a sociedade carece de todos, e, em grande medida, dos idosos. Está amplamente demonstrado, por exemplo, o elevado benefício que os mesmos podem ter na educação das gerações mais novas. Para além disso, as condições da vida actual prestam-se a que, de uma forma geral, a população idosa possa manifestar mais prolongados níveis de operacionalidade. Não nos referimos, com isto, à polémica questão da idade de reforma (sobre que não iremos expender aqui, frisando, no entanto, que deveria presidir à sua consideração uma avaliação rigorosa do desgaste físico-intelectual que cada profissão acarreta, o que nem sempre se faz); aludimos, sim, ao facto de a cessação da actividade profissional não significar, forçosamente, paragem. O indivíduo precisa de sentir-se activo, necessário, útil. Carece de exercícios e actividades que continuem a apelar às suas potencialidades intelectuais. Não será, pois, benéfico coarctar aos idosos a possibilidade de sentir-se activos. Pelo contrário. Deverão ser encorajados, na exacta medida das suas capacidades, a exercitar-se, a efectuar algumas tarefas que lhes sejam agradáveis e, concomitantemente, se revistam de alguma utilidade.

Há uma expressão popular que se afigura interessantíssima: quando alguém, interpelado sobre a sua situação, sobre o seu bem-estar, a sua vida, não deseja desvelar muito da sua intimidade, responde, simplesmente, que «vai andando». É exactamente isso que é preciso: «ir andando», pois que significa que ainda vai havendo caminho para trilhar, ainda vai havendo vida. E é essa, também, a melhor dádiva que podemos dar aos idosos: apoiá-los, auxiliá-los, ajudá-los a «ir andando», de uma forma activa e interventiva, para que, participando energicamente no funcionamento da nossa sociedade, possam fazer com que também esta «vá andando» melhor, mais sincronizada e menos díspar. Para tanto, clama-se por uma reforma de mentalidades, de valores, pelo retorno a uma humanização que tem vindo a esboroar-se. Antolha-se útil e premente essa modificação. Dêmos tempo ao tempo, esperando que o porvir dissipe as nuvens que turvam o nosso céu e nos traga alguma réstia de claridade irradiante…

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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