«Terras de São Cosme» (XIV)

14.º CAPÍTULO

E assim desfiei a meada da minha vida. Desde aquela altura, só tornei a São Cosme mais duas vezes. Uma, para prestar uma sentida homenagem a meu tio Figueira, aquando do seu faleci­mento. A outra, há cerca de um mês.

Pois viria meu tio a falecer obra de doze anos após o passamento de Teresinha. Tinha já bastante idade, o Snr. Figueira, mas viveu os últi­mos tempos de vida com amarga infelicidade, minado por enfermidade pouco cógnita, e para a qual ainda se não perfilavam tratamentos satisfató­rios. A Maria de Jesus foi aliviando, como pôde, os padecimentos de seu amo, até que a morte o levou. Deixava seu filho Joaquim – o pequeno Quinzinho, de que falávamos – ainda menor, mas exprimindo, por disposição testamentária, o desejo de que o mesmo fosse emancipado, com vista a poder tomar conta dos negócios e haveres da família. E assim sucedeu. Uns anos depois, faleceria a Antónia, vitimada por uma septicemia, que contraíra de forma inopinada: ao fazer sua renda, ferira um dedo com a agulha. Não ligou à ferida, deixou andar. Daí sobreveio a infecção, que atingiu proporções de tal monta que já não foi possível extirpar. A Maria de Jesus ainda acompanhou seu filho por mais alguns anos, mas a velhice também a levaria ao túmulo.

E o Snr. Amora? Bom, esse, coitado, mor­reu cerca de meio ano após a nossa partida de São Cosme. Ficara muito desgostoso pelo que sucedera a Teresinha, e nem as suas duas outras filhas logra­ram aplacar tal sofrimento. Meu tio ainda me comunicou, na altura, tal circunstância, por carta, mas eu, devido a uma série de complicações e afa­zeres, não pude, a meu pesar, estar presente no funeral do pai de Teresinha. Porém, não olvidei o medalhão que me ele havia dado, e que conservo como preciosa relíquia.

Eu e a Carolina somos felizes pais e, de há uns tempos para cá, encantados avós. Deus conce­deu-nos a suprema bênção de constituir uma famí­lia admirável, que muito nos orgulha.

E uma última nota para o nosso Quinzinho Figueira. Uma vez emancipado, assumiu a direcção do património legado por seu pai. É nau bem difícil de guiar; sem embargo, vem ele procedendo, até hoje, com denodado zelo e empenho. Por apreciáveis enredos do destino, veio a contrair casamento com uma das filhas do Snr. Amora e da Maria do Carmo. Uma bonita moça, de seu nome Maria Leo­cádia. Têm já dois descendentes. Vimo-los na nossa última romagem a terras de São Cosme, há um mês, como já disse.

E a família Figueira terá boa continuidade no seu ramo serrano! Joaquim é um notável admi­nistrador, e vem aumentando consideravelmente as suas posses. Difere um pouco de seu pai, quer no aspecto, quer no carácter: passa a maior parte dos seus dias na vila, convive com a fina-flor da sociedade, conversa longamente com médicos e advogados, frequenta clubs de gente selecta, é um reconhecido dandy. E não duvido de que irá conti­nuar a colher bons frutos. Para além disso, consagrou a união das duas famílias, Figueira e Amora. O Snr. Amora, Deus o haja, desejou, em vida, que tivesse sido eu a fazê-lo. Não o fiz, o destino assim não determinou. Mas os insondáveis mistérios da vida vieram a efectuá-lo, de forma distinta e, a meu ver, mais acertada. Joaquim e Maria Leocádia são os representantes dessas ilustres casas, e hão-de perpetuá-las com nobreza. E sempre preservando suas raízes. Raízes veneráveis, raízes serranas. De terras de São Cosme.

FIM

Janeiro-Agosto de 2011.

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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