«Terras de São Cosme» (XIII)

13.º CAPÍTULO

Um mês volvido sobre o passamento de Teresinha, arribou, enfim, a hora de eu e a Carolina abandonarmos São Cosme. Eu tinha assuntos a tratar em Coimbra, afazeres profissionais que por mim clamavam com insistência. Quanto a minha esposa, essa, não obstante haver-se, entretanto, afeiçoado deveras àquela encantadora povoação serrana, sentia falta da convivência da sociedade citadina, dos seus passeios e dos con­vites para tomar chá nas residências de pessoas amigas. Tivemos de partir. Porém, não o fizemos sem um último passeio pela aldeia.

Escolhemos tomar o rumo do Chão da Ribeira. Queríamos mirar, uma derradeira vez, aquelas ter­ras de cultivo, em que as gentes labutavam sem cessar. Pelos caminhos de terra, passavam homens calejados, de sacho ao ombro, camisa desfraldada, dizendo, à nossa passagem: «Deus Nosso Senhor dê muito bons dias a Vossorias!». Vinham moças ladinas, trazendo cântaros de água à cabeça, cheios na Fonte de D. Pedro. Andavam pastores, guiando seus rebanhos de ovelhas. Via-se a pequenada a brincar, brin­cadeiras simples, e ingénuas, e cândidas. Viam-se os pomares de figueiras, de limoeiros, de pesse­gueiros, de cerejeiras. Viam-se os pinheiros ao longe, a derramar, com suas copagens imponentes, preciosa sombra. Via-se a vida no seu mais puro esplendor.

Também fomos ao Cimo do Povo. As casinhas pequenas, de pedra granítica, amontoavam-se em pequeno molho. As portinhas de madeira, os anda­res térreos onde se guardavam os animais e o vinho, os telhados singelos. Mirávamos a igreja, bela como estampa venerável, consagrada aos san­tos médicos, São Cosme e São Damião. A velha carvalha, estóica resistente do passado, impendia sobre o templo, conferindo a este recanto um não sei quê de santidade, de paz e de luz. Ali perto, em campa rasa, jazia Teresinha.

E ainda vimos o «povo de lá». As rivalidades dos dois povos eram célebres, mas como descurar a beleza destoutra metade da aldeia? Sob a bênção do Mártir São Sebastião, corria serena, laboriosa e próspera a vida do outro lado da ribeira. Nos campos de além, pascia, serenamente, o gado. Junto às águas, moíam-se os cereais, naqueles moinhos tão característicos, a fim de produzir alimento para as muitas bocas que o requestavam. Também fazendo uso da força hídrica, estavam laborando pequenas fábricas de cardação e fiação de lã, onde os tecelões davam provas da sua admirável arte.

E a ribeira? Ah, córrego admirável, de água tão límpida e cristalina como não há! Toda a pureza e verdade do mundo, que só naquela serra se acham, se cristalizam nas águas correntes, naquelas que lá de cima vêm, trazendo sua bênção, trazendo seu cla­mor de redenção. Este é o verdadeiro Paraíso na Terra, o supremo encanto da Humanidade!

Sentámo-nos, eu e a Carolina, junto da ribeira, no exacto local onde, dez anos antes, havia eu proseado com Teresinha. Minha esposa ficou mirando com fixidez o voltear das águas, e eu tam­bém me deixei enlear nessa distracção. Logo de seguida, perguntou-me:

– Alberto, dize-me, com sinceridade: aquela moça que faleceu não te era indiferente, pois não?

Eu embatuquei, sem saber o que dizer. A Carolina descobrira o meu único segredo. Único, de facto, mas muito profundo e melindroso. Quem lhe teria contado? Meu tio? Não, não poderia ter sido. A Maria de Jesus? Não, não sabia de nada, e, mesmo que tivesse suposto qualquer cousa, não se me afigurava capaz de confidenciar algo tão grave a minha esposa. Talvez a Carolina houvesse adivinhado, com a sua decantada intuição. Sim, não é fácil ocultar o que quer que seja a uma mulher perspicaz. Se as palavras nos não denunciam, denunciam-nos os actos, os gestos, os silêncios, tudo! Mas eu não sabia como responder. Vieram-me à memória os conselhos de meu tio. Não, eu não queria melindrar a Carolina. Eu gostava dela deveras. A afeição que nutrira por Teresinha não tivera par, é certo, mas não queria isso dizer que não tivesse amor por minha mulher, contanto que de maneira diversa. Assim, apenas disse:

– De facto, Carolina, de facto! Não me era indiferente. Como podemos ignorar alguém que sofre as agruras da vida com tanta resignação, tão santamente? São caracteres tais que merecem a nossa mais acrisolada admiração. E nesse número de veneráveis espíritos, de sublimes exemplos de virtude, também tu te contas, minha adorada Carolina!

A Carolina nada mais disse. Decerto já per­cebera tudo. Agarrou-me a mão com ternura, como que exprimindo, silenciosamente, aquilo que as palavras não eram capazes de exprimir. E assim ficámos, contemplando as águas, sob a bênção do radioso sol…

No dia seguinte, partimos, com despedidas sentidas. Meu tio Figueira, a Maria de Jesus, a Antónia, o Quinzinho formavam uma família sin­gular! Todos choraram a nossa partida. Também o Snr. Amora veio apresentar os seus cumprimentos. Chamando-me à parte, ofereceu-me uma pequena jóia. Perguntei-lhe de que se tratava.

– É um medalhão. Pertencia a minha filha. Quero que fique com ele. Sei que o estimará melhor do que ninguém.

Agradeci-lhe imensamente a lembrança, com um aperto de mão comovido. O venerável ancião fitava-me com olhos lacrimantes. Dissemos um último adeus e partimos. Adeus! Adeus!

 

(conclui na próxima semana)

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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