«Terras de São Cosme» (XII)

12.º CAPÍTULO

Mal chegámos a casa, meu tio convidou o Snr. Amora a entrar para a «salinha». Indicou-lhe uma confortável cadeira. Meu tio sentou-se no seu habitual cadeirão verde. Eu e Carolina igualmente nos instalámos. A Maria de Jesus dirigiu-se à cozi­nha, onde se já achava a Antónia, a fim de confec­cionar um pequeno aperitivo.

Faço um parêntesis apenas para mencionar que a cozinha da casa de meu tio era uma divisão singular. Toda a residência se achava já caiada, à excepção de tal compartimento, que mantinha uma traça antiga. Paredes de pedra, o tecto em telha-vã, uma lareira, precioso garante do aquecimento doméstico no tempo frio, e o indispensável fogão de lenha. Dali provinham os excelsos acepipes que o elevado talento das manas Maria de Jesus e Antónia sabia preparar!

Agora sim, tornando à narrativa: o Snr. Amora estava com um facies assaz macilento, onde fundas rugas se cavavam, dir-se-ia que resultantes das muitas lágrimas carpidas. Imergira em um pro­fundíssimo desânimo, de que seria penoso retirá-lo. Meu tio tentou fazê-lo, puxando a conversa:

– Então, meu amigo, quer uma chávena de chá?

O convidado não retorquiu logo. Ajeitou-se na cadeira, circunvagou os olhos pela vistosa sala de visitas de meu tio e começou de dizer:

– Ah, meu bom amigo Figueira, aceite os meus agradecimentos! O meu bom amigo dá altas provas da sua estima com esta simpatia para comigo. Mas também devo agradecer a seu sobri­nho.

E, virando-se para mim:

– O Snr. Dr. Alberto defrontou com cora­gem e tenacidade aquele bandido… Salvou-me a vida… Pena é que minha filha não haja tido a mesma sorte… Ah, meu Deus, meu Deus! Podia Ele ter-me levado, que já nada valho, e deixar cá a minha filha!

Recomeçou a chorar. Procurámos confortá-lo, mas foi inútil. Por momentos, o Snr. Amora tornava a cair na sua imensa tristeza, ainda tão mal recalcada. Chorou muito, repetindo com insistên­cia:

– Minha filha!… Minha filha!…

Este estado de pranto apenas logrou dissi­par-se – não totalmente, é certo – quando a Maria de Jesus nos brindou com uma bandeja sobre que havia deposto um bonito bule, contendo chá de erva-cidreira. Acompanhavam tal bebida uns boli­nhos de manteiga, de uma configuração interes­sante, pois que, antes de ir a massa a cozer, faziam-se uns enfeites sobre a mesma, com os dentes de um garfo. Poisada a dita bandeja, incitámos o Snr. Amora a servir-se à vontade. Ele não reagiu, mas, paulatinamente, lá acedeu à nossa proposta, pri­meiro tirando um bolinho, depois sorvendo um gole de chá.

Encetámos conversa, no intuito de animá-lo conforme fosse possível. Meu tio dissertou sobre o estado das terras e algumas novidades da vida mundana da vila. A Maria de Jesus ia desfiando o extenso rol dos seus queixumes – era o tempo, eram as dores, era a canseira… A Antónia, que, entretanto, a nós se juntara, falava de receitas culi­nárias. A Carolina falava da sua vida em Coimbra – sim, que minha mulher apreciava sumamente o convívio social e os passeios pela urbe… – e dos encantos que ela encontrava na cidade do Mon­dego. Eu ia trazendo a lume um ou outro aspecto de política. O Quinzinho não intervinha directamente, entretendo-se, como de costume, a brincar com o gato. E o Snr. Amora ia escutando. Escutava e aquiescia. Escutava e apreciava a conversação, mas pouco falava. Porém, ao cabo de algum tempo, pousando a sua chávena sobre a mesa, e tomando um ar grave, soltou uma estrondosa revelação:

– Meus amigos, todos têm sido muito bons para comigo, e julgo assistir-me o direito – e, quiçá, o dever – de contar-vos algo. Um segredo antigo, e que tenho trazido bem aferrolhado. Mas é chegada a hora de expô-lo. Eu… Eu tenho mais duas filhas…

Ficámos boquiabertos, ante esta novidade completamente inesperada. Meu tio surpreendeu-se mais do que todos nós. De facto, o Snr. Amora sempre fora seu amigo muito próximo, e nunca lhe houvera transmitido algo semelhante.

– Pois é verdade!… – prosseguiu. – Tenho duas filhas mais. Eu… A minha criada, a Maria do Carmo, vem-me acompanhando há nove anos, pra­ticamente desde a morte de minha esposa, que Deus haja. Bom, eu precisava de companhia, de apoio, e a Maria do Carmo foi tão benévola, tão simpática… Teve duas filhas minhas. Houve quem desconfiasse, mas a maior parte do povo não o sabe. Ademais, a Maria do Carmo é criada externa; dei-lhe, para viver permanentemente, outra casa minha. Lá tem criado os nossos dois rebentos. E que belas são! Ah, meu Deus! Apartei-me da minha querida Teresinha, mas ainda pude ter a alegria de deixar algo de bom neste mundo!

Havendo terminado o seu monólogo, o Snr. Amora chorou. Chorou de tristeza, pelo faleci­mento de Teresinha, chorou de alegria, por suas duas filhinhas, chorou, no fundo, de consolo. Nem tudo estava perdido!

Pouco depois, quis ele mostrar-nos as suas herdeiras. Não as conhecíamos nós, nem mesmo meu tio, porquanto as meninas pouco saíam, por­ventura para melhor ocultar o segredo que envolvia a sua nascença (porém, dali por algum tempo, já o mesmo era voz corrente em toda a aldeia, talvez pela publicidade que logo a Antónia lhe veio a dar…). Eram, efectivamente, duas bonitas meninas, uma de oito e outra de seis anos, de feições muito similares às do Snr. Amora, e o último consolo daquele alquebrado proprietário…

 

(continua)

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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