«Terras de São Cosme» (XI)

11.º CAPÍTULO

Quando cheguei a casa, acompanhado do tal criado de meu tio de que falava atrás, todos se achavam em alvoroço. O sucedido no «povo de lá» cor­rera célere para as bandas da Tapada, trazido por gente que presenciara a cena final da tragédia. A Carolina estava nervosíssima, vendo-me todo ensanguen­tado. A Maria de Jesus e a Antónia correram a pro­videnciar tudo aquilo que o médico ia pedindo. O Quinzinho estranhou a azáfama, mas não ligou muito, entretido que estava a brincar com o gato da casa. Pensava, certamente, que eram cousas de gente grande, dos adultos, que lhe não diziam res­peito. Meu tio apresentava um misto de preocupa­ção e de reprovação. Afinal, eu incumprira o seu prudente conselho, fizera pouco caso das suas pala­vras. Porém, ele também era sabedor de que fora eu a salvar o Snr. Amora da investida torpe do Eduardo da Luz.

Após haver recebido o necessário trata­mento – disse o clínico que eu me achava bastante molestado, mas sem consequências de maior –, meu tio quis prosear comigo. Pediu a todos que se retirassem do quarto, até mesmo a Carolina, que mostrou muita relutância em fazê-lo. Acto contí­nuo, disse-me:

– Pois, meu sobrinho, foste de uma impru­dência sem par! Eu bem te avisei! E tu não me deste ouvidos! O Eduardo da Luz poderia ter-te matado!

Eu retorqui, ainda meio combalido e con­fuso com toda a sucessão de acontecimentos:

– Mas, meu tio, eu precisava de… Eu tinha de ver Teresinha… Teresinha…

Não pude continuar. A emoção provocada pelo falecimento de Teresinha, desse anjo a quem a terra penalizara injusta e injustificadamente, até aí mais ou menos recalcada em meu espírito, emergiu em ampla torrente. Chorei, chorei muito o passamento daquela santa mulher! Meu tio tentou confortar-me:

– Sossega, Alberto, sossega! A Teresinha morreu como uma santa! Padeceu amargamente no seu caminho de espinhos, no seu vale de lágrimas, e ascendeu aos Céus como uma justa, um anjo, sempre buscando a paz! Sabes, Deus reserva estas almas a tais destinos. São raras, essas pessoas, bem raras!… Sofrem muito, é certo, mas são verdadeiros exemplos. Ela é uma autêntica santa, Alberto!

Também emocionado, meu tio suspendeu, por instantes, o seu discurso, mas logo aditou:

– Agora, meu sobrinho, recompõe-te. Ora, ora pela alma dessa cândida moça que agora rumou para junto de Deus. Outra cousa: não dês desgostos a tua mulher. Ela não o merece…

Após isto, saiu. Poucos minutos transcorri­dos, veio a Carolina, sentinela alerta postada à minha cabeceira, de onde nunca veio a sair até eu me encontrar restabelecido. Era, afinal, também, uma boa alma…

 

No dia seguinte ao de todos estes sucessos, realizou-se o funeral de Teresinha. Eu insisti em marcar presença, posto que assaz débil, havendo necessitado, a todo o momento, do firme amparo de minha esposa. Toda a gente de nossa casa compa­receu, como prova da alta estima que desde sempre pautara a convivência entre as famílias Figueira e Amora.

Senti-me triste, muito triste, ao presenciar as exéquias daquela a quem devotara a mais suprema afeição. A alma dilacerara-se-me, estava tolhida ante tão violento embate. Porém, sentia impender sobre mim o peso da verdade e do acerto das pala­vras que me dirigira meu tio, na véspera. Por certo eu devotara incondicional afeição a Teresinha. Por certo o destino nos unira, em incindível conexão. Porém, eu, que tão crítico fora dos moldes predefi­nidos que a societas, não raro, nos impõe, com um autoritarismo e um acriticismo avassaladores, não podia deixar de observar certos ditames, ditames que, aliás, não eram apenas sociais, mas morais. A consciência impunha-mos, eles constelavam o vir­tual caminho do meu futuro, o «caminho certo» que eu deveria seguir. E o mais fundamental desses princípios era o respeito e a afeição que eu deveria dedicar à Carolina, minha esposa sempre dilecta e que tão boa vinha sendo para mim. Companheira silenciosa de todas as horas, auxiliadora em todos os maus momentos, compartilhadora das alegrias, deveria, efectivamente, beneficiar de todo o meu respeito, da minha maior amizade e afecto. E assim pensei fazer. Teresinha fora o meu ideal, mas era importante emendar o meu rumo, ainda que a não esquecesse nunca…

A missa foi triste, melancólica, nem poderia ter sido de outra maneira. O povo de São Cosme sou­bera dos padecimentos por que a defunta passara nos últimos anos de sua vida, e também se entriste­cera deveras com tão desventurada sorte. O Snr. Amora continuava choroso e abatido, sempre con­fortado por uma senhora, que se me afigurava de meia-idade. Perguntei a meu tio de quem se tratava. Fiquei sabendo ser ela criada do pai de Teresinha, em cuja casa servia havia nove anos.

Mas a missa foi triste, melancólica, dizia, posto que sempre tremeluzindo um ténue fogacho de esperança. O cele­brante, o Rev.º P.e Agostinho, idoso sacerdote, forte, corpulento, mas de uma bonomia sem par, fez um lapidar elogio daquela tão exemplar mulher, que ascendia aos Céus como perenal modelo de virtude. Sim, sabia o P.e Agostinho interpretar, como pou­cos clérigos, os sentimentos mais fundos que povoam as nobres almas da espé­cie humana. As suas palavras calaram fundo nos corações de todos – mormente no meu… –. Era um pórtico de luz que se abria diante de nós, uma réstia de chama que resplandece e nos guia rumo à Ver­dade e à Fé. Por momentos, senti rebrilhar no meu peito esse sentimento. Mirei, com devoção, o belo Cristo que faz pender sua bênção sobre os altares de talha dourada. Lancei os olhos às piedosas ima­gens de São Cosme e São Damião, que velavam por aquela terra. Dirigi-lhes uma prece. E fiquei em paz. Em paz, comigo, com os outros, com a alma de Teresinha, que senti estar, lá de cima, irradiando sua aura protectora sobre a Humanidade!

Após o enterro, buscámos, eu, minha esposa, meu tio e a Maria de Jesus, confortar o pobre Snr. Amora. Não saíra da igreja desde a vés­pera, contristado que estava pela morte de sua dilecta descendente. A sua criada – Maria do Carmo, de seu nome, como vim a saber depois – recolheu a casa, enquanto ele nos acompanhou à residência de meu tio. Convidámo-lo a estar uns instantes connosco, e o pobre homem, naturalmente carecido de um amplo afago amigo, buscante de um amplexo que lhe minorasse a sangrenta chaga que o passamento de Teresinha causara em sua alma, acedeu à nossa invitação.

Encontrávamo-nos já transpondo o terreiro contíguo à igreja quando deparámos com uma figura andrajosa e repugnante. Não lográmos, prima facie, destrinçar-lhe com exactidão a fisio­nomia, nem, tão-pouco, a identidade. Porém, a uma observação mais cuidada, tudo isso se nos desve­lou, e ainda mal! Tratava-se do Eduardo da Luz! Canalha sem nome! Estava ali, curvado, de olhar esgazeado, modos sandios, quási parecendo um demente. Volteava a cabeça para cá e para lá, em esgares inconstantes e irracionais. Quando nos viu, lançou um olhar cha­mejante e desapareceu, correndo a bom correr. Não mais o vimos. Dois dias depois, viria a ser achado defunto perto do Largo da Vila, no «povo de lá». Nin­guém jamais soube o que lhe sucedera. Deitaram-no à vala comum.

 

(continua)

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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