«Terras de São Cosme» (X)

10.º CAPÍTULO

Havia corrido uma semana desde a minha visita a Teresinha quando intentei repetir tal acto. Necessitava de vê-la, nem que fosse essa a vez der­radeira em que o fizesse.

Foi por um dia meio enevoado, mas que prometia sol lá mais para a tarde – afinal, como diziam abundantemente por ali, «dia de nevoeiro é dia de soalheiro»… Quando cheguei à sala de jan­tar, embelezada por um venerável relógio de pên­dulo, vetusta herança de meu avô Luís, já se lá achavam meu tio, a Maria de Jesus, o Quinzinho (tal era o epíteto que dávamos ao pequeno de meu tio) e a Carolina, que madrugara. A Antónia ia e vinha da cozinha, em uma afanosa lide de ace­pipes, pratos e talheres, mas aproveitando alguns intervalos para petiscar. Havia dias, como aquele, em que a Maria de Jesus quási se abstinha de trabalhar, comprazendo-se em fazer sua meia, junto à janela da «salinha». Pobre irmã Antónia, que, de tal guisa, se via compelida a sobraçar o hercúleo fardo das tarefas da residência da família Figueira! Debalde se queixava ela, sol­tando frases desdenhosas, dirigidas a sua mana: «Pois, agora és rica, estás toda vaidosa, não fazes nada! Os outros que trabalhem!». A Maria de Jesus fazia ouvidos de mercador a estas farpas tão certei­ras, e meu tio Joaquim também lhes não ligava importância, «ficando naquilo que lhe parecia», como se dizia naquela terra.

Dejejuei em menos de nada e apressei-me a sair. Disse que ia passear pelo ar fresco da manhã, que ia até ao Cimo do Povo. A Maria de Jesus aconselhou-me a que tomasse cuidado com a aragem matinal, que me poderia constipar. Meu tio preveniu-me de que não tornasse ao «povo de lá», podia dar-se o caso de ser atingido por nova pedrada. Ouvindo isto, a Carolina toda se alvoroçou. Eu sosseguei-os. Não, não transporia a ribeira!

Ah, com quanta inverdade eu falei isso! Que grande mentira! Precisamente o oposto daquilo que vim a fazer. De passo estugado, sempre mirando a ribeira, sempre tendo presente o objectivo daquela jornada, encaminhei-me para o «povo de lá». Andava fixo na meta que havia definido: a casa de Teresi­nha (ou, talvez melhor dizendo, a sua cela, o cár­cere onde a iam, lentamente, condenando à morte!). Não prestava atenção às pessoas, à realidade envol­vente, ao espectáculo da natureza quotidiana. Não, nada disso relevava para mim, naquele momento. Às saudações dirigidas por quem me conhecia (e mesmo por quem me não conhecia, pois que, em aldeias como aquela, é usual toda a gente saudar-se – «dar a salvação», como se dizia por ali – sem se conhecer de nenhuma banda) respondia maquinal­mente, quási como um autómato, preordenado a dar sempre as mesmas respostas às mesmas perguntas, a desempenhar um papel de completa passividade no seio da vida societária. O meu cérebro não podia estar a importar-se com tais questões naquele momento; só uma cousa, uma única, mas a mais importante de todas quantas o mundo comporta, dominava as suas circunvoluções, monopolizava a sua actividade… Traduzia-se perfeitamente em um nome: Teresinha!

E assim alcancei o meu destino, em pouco tempo de caminhada. Porém, mal avistei a casa do Eduardo da Luz, vi uma cena que me sobressaltou, e me despertou do transe em que, desde a saída da Tapada, me achava.

Diante da porta da residência onde defi­nhava a minha pobre Teresinha, discutiam acalora­damente dois homens. Um deles, ainda não velho, mas envelhecido pelos maus hábitos e pela devas­sidão. Outro, idoso, encanecido, curvado, com a tristeza engastada indelevelmente no semblante desfigurado. O primeiro era o Eduardo. O segundo reconheci ser o Snr. Amora.

O Eduardo falava com o seu sogro de forma absolutamente imprópria. Aproximando-me um pouco mais, e aproveitando umas arvorezitas que se ali achavam para ocultar, por momentos, a minha figura, logrei captar um naco desse diálogo:

– Vossemecê é um néscio! Um néscio! E a sua filha é uma ordinária! Ora, ponha-se daqui para fora, antes que eu o derrube! – vociferava, de maneira infame, o Eduardo.

– Ah, Eduardo, como tem vossemecê cora­gem para me falar assim? A mim, que o sustentei a pão-de-ló, que paguei os seus caprichos, os seus vícios, apenas porque julguei que, ainda assim, daria um bom marido para minha filha! Mas como me enganei! Vossemecê é um canalha, um assas­sino, que causou a doença de minha querida filha e, pelo que vejo, pretende prosseguir até ao fim a sua obra pérfida! Quer matá-la! Julga que eu ignoro que vossemecê, não raro, lhe não dá os remédios que eu trago da botica? Pois cuida que eu não sei que vossemecê se recusa a prestar-lhe os cuidados básicos? A criada que eu tenho mandado vir aqui, todos os dias, contou-me tudo. Vossemecê, as mais das vezes, nem permite que ela entre nesta casa, apenas para melhor poder cumprir o seu plano hediondo. Seu bandido! E eu – maldito seja este meu feitio! –, sempre com medo de si, há tanto tempo sem ver minha filha! Porque vossemecê ameaça maltratá-la, se eu a vir! Mas porque a não posso ver? – dizia, com amargura, o pobre pai de Teresinha.

Eduardo respondeu com desdém:

– Não quero cá choradeiras nem queixas! Ninguém põe a vista naquela ordinária. Ela há-de morrer, de morrer como um cão, porque nunca me quis! Ordinária! Já deixei entrar, no outro dia, aquele badameco do sobrinho do Figueira. Tam­bém o corri! A princípio, nem liguei muito à visita. Apanhou-me bem-disposto, o farsante! Mas depois compreendi: ele e a ordinária da sua filha já tinham andado enovelados! Aquele patifório! Se ele puser um pé que seja aqui, mato-o!

Perante estas últimas frases, proferidas com ímpeto, estremeci de raiva. O Snr. Amora disse, então, ao seu pérfido genro:

– Ah, Eduardo, como teria sido melhor para Teresinha se houvesse casado com o sobrinho do meu amigo Figueira… Conheci-o há muitos anos. Um bom rapaz! Contaram-me do seu regresso, há poucos dias, mas desconhecia que ele já tivesse vindo visitar Teresinha! É um homem de carácter, que não um desgraçado, um criminoso como vossemecê, seu grande patife! Patife!!!

Ao pronunciar estas palavras, o Snr. Amora ficou muito trémulo, quási apopléctico. Não menos exaltado se achava o Eduardo, por certo já ébrio, contanto fosse ainda cedo. Curvando-se ligeira­mente, agarrou em um pau deposto no chão e, soerguendo-o acima da cabeça, ia arremessá-lo ao pobre velho, ameaçando vilmente:

– Agora vai pagar por tudo aquilo que me disse, seu velho idiota!

O Snr. Amora tremia ainda mais febril­mente, tentando desviar-se da pancada iminente. Aí, não me pude conter. Saltei do meu improvisado esconderijo e apanhei o canalha de surpresa. O Eduardo da Luz voltou-se, boquiaberto. Aprovei­tando desse seu estado de quiescência momentânea, desferi-lhe um potente soco, que o prostrou. O pai de Teresinha, por um desses inexplicáveis acasos, reconheceu-me quási instantanea­mente. Gritou:

– Fuja, Snr. Dr. Alberto! Fuja! Este bandido é perigoso! Ele está doudo!

E, com efeito, estava bastante transtornado, o Eduardo, muito para além do habitual. Pôs-se de pé rapidamente, e deu-me uma punhada tão forte que ainda cambaleei. O Snr. Amora clamava por auxílio. Eu logrei recompor-me e pontapear o meu adversário. Toda a raiva contida no meu íntimo, todo o despeito recalcado até então, todo o sofri­mento que eu sentia pelo estado em que aquela mísera criatura colocara Teresinha emergiram naquele momento, dando-me forças muito superio­res às que soía eu ter.

A contenda recrudescia. Eu estava banhado em sangue, o Eduardo não se achava muito melhor. Íamos esgotando a derradeira vis naquele duelo quási titânico, naquele torneio de vida ou morte. O Snr. Amora continuava bradando, bradando forte­mente, mas ninguém ali acorria. Certamente se arreceavam de intervir. O Eduardo dizia:

– Hás-de pagar caro! Hás-de pagar caro!

O velho Amora já não sabia o que fazer. Estava nervosíssimo, caíam-lhe grossas bagas de suor pelo rosto enrugado. Eu e o meu contendor estávamos quási exangues, apenas à espera de ver qual o primeiro a cair, a soçobrar. Foi então que, à porta da casa do Eduardo, assomou Teresinha. Sim, Teresinha! Vinha pálida, tremendo imensa­mente sob o seu alvo roupão. Com voz débil, supli­cou:

– Pelo amor de Deus, parem! Parem! Eduardo, não faças isso! Não enlameies mais o teu nome! Tem um bocadinho de dignidade e pára!

O Eduardo da Luz, prestes a desfalecer, mas sempre recalcitrante, ainda se voltou para ela, dizendo, com escárnio:

– Olha, sua ordinária, olha o que eu faço a este idiota por quem tu sempre suspiraste! Vou dar cabo dele mesmo à tua frente!

A imagem de Teresinha, funérea, cadavé­rica, numa derradeira súplica pela paz, o sofrimento plangente do Snr. Amora, imensamente aumentado por aquela visão do triste estado em que sua dilecta filha se achava, e o odioso procedimento do Eduardo fizeram-me ter coragem para lhe desferir um golpe final, perante o qual ele caiu no chão, inanimado. Teresinha estava aterrada. Dirigiu-se a mim, tentou abraçar-me, pronunciou, numa voz que mais não era do que um mero sussurro:

– Alberto!… Alberto!…

E também ela desmaiou. Eu e o Snr. Amora tentámos socorrê-la, mas era demasiado tarde! Aquela alma cândida já estava seguindo os rumos do Céu!

Indizível foi a dor que eu senti então. Embora tivesse o corpo em chagas, muitíssimo mais me doeu a alma, traspassada que fora por gládio tão fundo e cruel! O Snr. Amora agarrava-se ao cadáver da filha, carpindo rios. O Eduardo conti­nuava desmaiado. Só aí algum povo acorreu àquele sítio. Gerou-se burburinho, correu gente a buscar pronto auxílio. Em diminutos instantes, a turba­multa postada de roda daquele espectáculo medo­nho, em que eu, desgraçadamente, também fora imiscuído, era enorme! Chamaram o médico da vila. Teresinha, após rápida análise e confir­mação do óbito, seguiu para a igreja. O Eduardo foi recolhido a sua casa. Eu quis confortar o Snr. Amora, mas um criado de meu tio, que também ali fora, instou a que igualmente me recolhesse. E assim fiz.

 

(continua)

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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