Do conto e das suas virtualidades enquanto transmissor de mensagens críticas e analíticas tangentes à realidade social (excurso de teoria literária)

Bole o presente escrito com uma questão que – mesmo quase insensivelmente, posto que pressentível – desde há muito se vem acomodando no nosso espírito: a da consideração do conto como um género textual pleno de utilíssimas virtualidades, as quais o alcandoram, sine dubio, às aras da melhor comunicação, ombreando destemidamente – perdoe-se-nos o fraco símile – com a persona dos actores clássicos, porque igualmente difusor, com acendrado quilate de amplitude, da mensagem que lhe subjaz.

E dizemos que de há muito tal problema se vem insinuando, de forma sub-reptícia, no nosso pensar porquanto sempre achámos, enquanto modestos rabiscadores de escritos que podem reconduzir-se à categoria textual versanda (com alguma dose de complacência para com o nosso humilde talento literário…), que a mesma se afigura, a despeito da sua aparência, via de regra, diminuta (quando comparada com composições de outros quadrantes, as quais impõem um enovelamento narrativo de longe mais complexo, formando toda uma delicada urdidura cujas malhas hão-de, por força, apresentar alguma consistência e coerência), como motor capaz de operar, em casos diversos, autênticas revoluções. Numa palavra (e mais prosaica), o conto é capaz, de per si só, de «pôr o dedo» nas chagas da sociedade, suscitando-nos universais exclamações, tão logo naquele momento em que, por sua iniciativa, se esboroa a cansada máscara diáfana e quotidiana da societas aparentemente impoluta e passiva e aos olhos do populus surgem subúrbios esconsos que, no fundo, são de todos cógnitos. Assim, o conto logra ser um exemplar veículo de crítica social – ele põe, à vista de todos, os defeitos, as máculas da generalidade dos socii (entendidos, note-se bem, na presente acepção como seres inter-relacionais imbricados em comunidade organizada que, nesse sentido, são susceptíveis de se nos antolhar como uma unidade sistemática), coisas que todos sabem existir, mas que, na vida diária, ninguém ousa tanger, conservando inexcedível pudicícia quanto aos pecados que, em miríade, enxameiam a Terra… Ora, é bem fácil de compreender que, se algo está mal, se a sociedade não funciona como deveria, se há defeitos que todos reconhecem, mas que, sem embargo, poucos têm coragem de expor com a clarividência própria da simpleza, é mister que se busquem formas de fazê-lo – até porque, normalmente, o desregrado contumaz apenas arrepia caminho quando lhe apontam frontalmente, de dedo em riste, a sua conduta claudicante; se nada lhe observam, persiste, posto que saiba que age mal.

Vimos de expor, portanto, uma ideia que temos por fundamental: a importância do conto – género textual – como veículo de crítica social. Crítica, dizemos, que se não fará, como é óbvio, sem uma prévia análise social. E cabe, neste ponto, dizer então alguma coisa sobre certas particularidades que, a propósito, vêm a lume.

Achamos, na nossa modesta impostação do problema considerando, que o conto se diferença claramente dos seus parentes mais abastados – a novela e o romance – precisamente na medida em que comporta – ou deverá comportar – uma dimensão mais estrita (o que não quer dizer que seja mais redutora, mas, quiçá, mais condensada). Não pensamos ser este género de texto a sede própria para se efectuar, mormente, todo um estudo psicológico-social de determinada acção (complexa) preconcebida, em que, a par de uma acção principal (dominante), teremos outras que da mesma defluem naturalmente (derivadas), brotando da seiva-máter mas, a certo passo, ganhando autonomia e emancipação, apenas experimentando (e nem sempre…) uma reimplantação na sua génese aquando do ocaso. O esquema que segue permitirá, embora com a imperfeição da simplicidade extrema, traduzir a ideia fundamental deste período:

Acção dominante: A conhece B; peripécias (circunstancialidade que vai densificando a narrativa); imbricação de acontecimentos e seu desenovelamento mais ou menos lógico; conclusão.

Acções derivadas: por exemplo, do conhecimento de A com B surge C, irmã deste, que se enamora de D; despontar desta nova acção, fruto do tronco principal da história, e sua autonomização, com a narração circunstancial de tudo por quanto passam C e D; no término, coroamento natural da acção e sua eventual re-ligação (ou não, tudo dependendo da situação concreta) com a acção dominante.

Muito singelamente, isto seria a estrutura típica de um texto novelesco ou romanesco, a que aditaríamos um adequado estudo caracterológico das personagens, mais ou menos densificado, conforme a sua importância no contexto narrativo. Ademais, servir-nos-íamos também desse poderoso meio para, inclusive, esboçar alguma eventual crítica social, no que ombrearíamos, em termos finalísticos, o conto. Parece-nos, contudo, que a estrutura básica deste deverá ser distinta do modelo exposto.

Se bem virmos, o conto apresentará, via de regra, apenas um eixo polarizador da acção, composto por um enredo mais singelo e por um punhado de personagens (a que, neste caso, se não conferirá densidade psicológica de monta, apenas sendo ressalvados os traços mais frisantes dos caracteres exibidos, e isto quase sempre a propósito de marcas inerentes à acção descrita) – sem embargo, no entanto, da enxertia, possível amiúde, de acções fragmentárias ou episódicas, de dimensão extremamente minúscula e, normalmente, com o mero intuito de matizar a narração com cambiantes que atenuem, na medida do possível, o aspecto seco e invariável da acção primordial.

Tem, porém, uma explicação o facto que vimos de descrever. Pois se, no conto, a acção é praticamente una, sem embargo de eventuais (pequenos) desvios a esta norma, também não será menos verdade que a mensagem subjacente à mesma se transmitirá em força plena, constantemente tangida em todos os parágrafos do texto. Acaba por ter-se, assim, aqui uma diferença de perspectiva: a completude pictórico-representativa da psíquico-caracterologia humana e o cuidado enovelamento situacional em acção complexa (novela e, maxime, romance) vs. a acção minimizada subordinada à transmissão amplíssima de uma mensagem aglutinadora e de que pretende consciencializar-se o leitor (conto) – o que não quer, no entanto, dizer que se não subordinem a novela ou o romance a idênticas finalidades, posto que de guisa substancialmente distinta daquilo que com o conto sucede.

O que vimos de afirmar acha, de resto, confortável respaldo em históricas evocações correlatas. Pois não recorreu Cristo, com tanta frequência, a parábolas, que mais não eram, afinal, do que pequenos… contos, em que, tendo por base situações quotidianas cristalizadas em acções de enredo assaz simples, se pretendia transmitir toda uma mensagem subjacente (isto numa interpretação nossa, claramente reducionista, que apenas aqui adoptamos com intuitos pedagógicos)? E que dizer, aliás, da nossa tradição popular-oral, polvilhada bastamente com a canela narrativa de pitorescos contos difundidos intergeracionalmente?

Como é óbvio, grandes autores se serviram do conto como veículo de crítica social, como difusor potente de mensagens acutilantes, certeiras, realistas. Sirvam-nos (posto que nem sempre perseguindo tal finalidade, mas a ela pagando tributo amiudadas vezes) os exemplos de Júlio Dinis (Serões da Província), de Camilo Castelo Branco (mormente as suas Novelas do Minho) e, maxime e magistralmente, de Eça de Queiroz (Contos, recolhidos em edição póstuma).

Pelas razões ditas, não hesitamos em augurar um porvir ridente para o conto, enquanto nobre género textual de que dimanam tamanhas virtualidades – massa informe que a qualquer escritor de boa-vontade se presta a uma adequada modelagem… Hajamos isto em vista, tanto mais num tempo e numa época tão carecentes de críticas incisivas e, ao mesmo tempo, construtivas.

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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3 respostas a Do conto e das suas virtualidades enquanto transmissor de mensagens críticas e analíticas tangentes à realidade social (excurso de teoria literária)

  1. jsola02 diz:

    O conto é, de facto, a maneira mais directa e menos fastidiosa de mostrar as realidades que apequenam o Mundo. A sua descrição é de Excelencia; mas, meu caro, nesta terra onde só se lêm os escritores mortos, e pouco, (esses nossos grandes mestres), que importância tem continuar a escrever, ou sequer, simplesmente pensar nos outros; diga-me, se por um lado é imperioso escrever, até por razão do nosso equilibrio mental, vale a pena mostrar a este mundo o que, de modo simples e modesto, continuamos a fazer?

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    • É pertinente e exacto o seu comentário, e registo-o com muito agrado. Com efeito, embora seja o conto uma forma privilegiada de crítica social, como refiro no apontamento que subscrevo, não deixa de ser verdade que, hodiernamente, considerável parte do público leitor vai cultivando pouco este tipo de textos (ademais, mesmo os Mestres a que alude são, não raro, relegados a um cruel esquecimento…). Penso, como também já fui referindo em outras ocasiões, que a literatura, sob os seus multiformes figurinos, deve servir uma função social – deve ter alguma finalidade imanente, deve aproveitar aos seus leitores e, mais latamente, ao público. Mas é verdade estreme que, muito frequentemente, a reacção que deste provém – talvez melhor dizendo, a receptividade – não será, decerto, muito animadora para os labutadores da arte da escrita – não se traduzirá num coroamento natural e merecido do seu perseverante esforço. Perante isso, o que fazer? Compreendo absolutamente as suas interrogações, as quais igualmente me assolam amiúde, e induzem a certo desânimo. Porém – e talvez com uma réstia de optimismo que pouco fulge… -, penso que tal circunstância é motivo para insistir. Continuar, sim, a escrever, não apenas, como bem refere, para necessário exercício da mente e refrigério da alma, mas também para insistir (repito-o) em certos pontos e ideias que julgamos fundamentais e que se nos afigurem como válidos contributos para a vida em sociedade. Em suma, julgo que deveremos, apesar de tudo, prosseguir – com pouco alento, é certo, mas, em todo o caso, prosseguir. Pode ser que, de tudo quanto se vá dizendo, alguma coisa fique…

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  2. jsola02 diz:

    Obrigado pelas suas palavras! Sabe, todos temos justificados momentos de desalento; mas, tem razão, alguém, (e esse alguem só pode partir do grupo de quem escreve), tem de continuar com esta dificil tarefa! Um abraço!

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