«Terras de São Cosme» (IX)

9.º CAPÍTULO

Escusado será dizer que, quando me viu sangrando da cabeça, e após as explicações simpa­ticamente prestadas pelo pastor que me acompa­nhara (chamava-se ele Duarte dos Santos, mais conhecido por Tio Duarte da Fonte, vim depois a saber), meu tio acusou incontida irritação. Quis saber quem me fizera tal serviço. Iria apresentar queixa. E resmungava:

– Eu bem te disse! Para que foste tu ao «povo de lá»? És um irresponsável! Mas quem te fez isso? Quem? Não vou deixar esta cobardia passar impune!

À míngua, porém, de provas que identifi­cassem o autor do crime, tudo isto se quedou em nada. Também a Maria de Jesus se alvoroçou com o meu estado, indo prontamente buscar toalhas e uma bacia cheia de água. A Carolina ficou nervo­síssima, exigiu que se chamasse o médico da vila. Meu tio já tinha mandado um criado chamá-lo.

O Dr. Guimarães – sim, era o mesmo médico de há dez anos, mas, agora, mais rotundo e encanecido do que dantes – examinou o meu feri­mento e disse que não havia motivo para cuidados. Não fora nada de grave. Meu tio suspirou de alívio. A Maria de Jesus manteve-se ligeiramente duvi­dosa. Minha mulher, ainda impressionada pelo que me sucedera, não cessava de perguntar ao clínico:

– Tem a certeza, senhor doutor? Meu marido está bem? Veja lá… Ai, meu Deus, porque foi isto suceder?

O facultativo sossegou-a e, desejando-me breve restabelecimento, tornou à vila. Eu recolhi-me ao quarto, para descansar. À Maria de Jesus e à Carolina, apenas disse que fora dar um passeio para lá da ribeira. Só meu tio parecia entrever a verdade. Momentos depois, estava eu estirado no meu leito, com minha esposa sentada em uma cadeira, qual zelosa enfer­meira, quando o meu honorável parente me foi dizer:

– Quanto te achares melhor, vem ter comigo à salinha. Preciso de falar contigo sobre uns assuntos aqui das terras…

A Carolina não deixou de estranhar aquela solicitação de meu tio, mas tomou-a por plausível. Porém, eu percebi bem que a mesma encerrava, implicitamente, o propósito de tratar de um outro assunto, bem diverso, e que se revestia de tanta importância para mim…

Algumas horas depois, ia caindo serena a tarde, dispus-me a sair do leito e a ir falar com meu tio. Minha mulher não encontrou assisada a intenção; pensava, ademais, que a prosa com o Snr. Figueira poderia esperar. Mas eu não conse­guia conter a ânsia que o assunto sobre que a mesma, decerto, se debruçaria em mim obrava. Convidei a Carolina a ir verificar a feitura da ceia, junto da Maria de Jesus e da Antónia, e fui ter com meu tio.

A «salinha» a que este se referira era a sala onde, costumeiramente, se recebiam as visitas naquela casa. Divisão assaz ampla, onde, ao centro, pontificava uma mesa redonda, sobre cuja camilha rendada se achava deposto um vasinho de flores. A cada canto do aposento, estavam floreiras susten­tando mais espécimes vegetais. Por sobre cada uma delas, pendiam, da parede de alva cal, dois quadros, mostrando ao visitante alguns lavores manuais da avó Maria do Céu, esposa do avô Luís. Sim, que minha avó fora senhora de alto talento para traba­lhos tais, além de primorosa cozinheira, cuja receita de cavacas foi, durante muito tempo, recordada saudosamente pelos estômagos que ainda tiveram a honra de testemunhá-la (eu já a não saboreei na sua versão original, mas numa aproximação – de grande mérito, ainda assim – efectuada pela Maria de Jesus)…

Mas tal sala era, igualmente, escritório de meu tio, porquanto, numa das extremidades, estava postada uma secretária de pinho maciço, móvel augusto, de tampo largo e duas gavetas, com um belíssimo tinteiro ao centro, e invaria­velmente coberto por toda a espécie de papéis. A cadeira respectiva era, igualmente, uma bela peça de mobiliário. Ali perto, ainda se achava um vene­rável cadeirão, pintado de verde, onde o dono da casa soía repousar breves instantes cada vez que vinha, caminhando, da vila, ou sempre que fazia mais longa jornada pelas propriedades. Só falta apontar que, por sobre a mesa de trabalho de meu tio, estava dependurado um retrato de seu pai – e meu avô, como já frisei – Luís. Era uma bela pin­tura, representando aquele meu antepassado já no início da sua velhice, mas ostentando, ainda, uma pose digna de todo o respeito. Ar sério, olhar sin­cero, bigode bem aprumado, trajando com elegân­cia. «Um exemplo», nos dizeres de seus filhos.

E foi, portanto, nesse compartimento que fui recebido. Bati à pesada porta que apartava a «sali­nha» do remanescente da casa. Entrei. Meu tio esperava-me, sentado no seu cadeirão verde, anali­sando uns papéis.

– Senta-te, Alberto, instala-te confortavel­mente – disse-me ele, apontando uma das várias cadeiras ali presentes.

– Bom… – prosseguiu. – Dize-me, Alberto, com sinceridade, e não tomes por insulto esta minha pergunta: consideras-te um homem decente?

Eu, que já havia descortinado o objecto do diálogo, tremi ante a questão que me estava sendo colocada. Titubeante, articulei:

– Sim, suponho que sim…

Meu tio volveu, sempre com um ar muito sereno, compassivo:

– Sim… Muito bem… Então, julgarás, decerto, que é próprio de um homem decente, com­prometido para com sua mulher a respeitá-la e a estimá-la acima de tudo… Bem, julgarás que é próprio de um homem decente visitar outras mulhe­res, igualmente comprometidas? E, sobretudo, numa aldeia como esta, em que a intriga corre célere? Julgas isto decente?

Eu não soube como responder. Nem preci­sei, naquele instante, porque a objurgatória iria prosseguir:

– Eu bem desconfiei, há já dez anos, de que se passara algo entre ti e a filha do Amora. Mas ela estava de casamento marcado… Com um patife, bem sei, que a trata como um farrapo desprezível… Ah, grandíssimo canalha, esse Eduardo! Mas, ainda assim, ela está comprometida, à luz da religião e, mormente, da sociedade! A religião condena os desvios à regra, mas hás-de ter perfeita consciência de que Deus sabe perdoar os que se arrependem de havê-lo feito; porém, a sociedade não perdoa! E se um sujeito cai em desgraça na sociedade, fica per­petuamente marcado por um indelével ferrete, que o perseguirá em toda a sua vida futura. Positiva­mente, é condenado a viver um inferno na terra! E agora, Alberto, francamente!… Tu tens uma mulher! A Carolina é, segundo me parece, uma boa moça, delicada, atenciosa, cordata. Tens de amá-la, de respeitá-la! Deves-lhe isso, é um sacratíssimo dever! Bem sei que as paixões têm o que se lhe diga… Mesmo eu, já de idade e logo fui enfeitiçado pela Maria de Jesus, a minha fiel criada, cá em casa há tantos anos e a quem eu, durante vário tempo, tratei com tamanha indiferença!… Também percebo que te preocupes com aquela desventurada moça, tão virtuosa e condenada a morrer amargamente sob o infame jugo de um criminoso… Mas tens outros deveres a cumprir!

Eu embatuquei com todo este discurso de meu tio. Ficámos ambos calados por um momento, matutando em tudo isto, em toda esta complexa realidade da vida, até que eu não aguentei mais. Exteriorizei tudo o que me ia na alma, chorando, chorando por mim, chorando pela Carolina, cho­rando, mais do que tudo, pela Teresinha!

– Ah, meu tio – disse então, ainda solu­çando –, como a vida é cruel! A minha pobre Tere­sinha, subjugada ante aquele patife! E eu sem nada poder fazer!

Meu tio ergueu-se e deu-me uma fraternal palmadinha no ombro. Observou-me:

– Bem sei, meu sobrinho, bem sei. Custa-te muito a aguentar essa monstruosidade, ainda por cima praticada contra um ser que tu amas acima de tudo! Mas repara, tens de te conformar. Infeliz­mente, nada podemos fazer em prol da Teresinha. É-me penoso dizê-lo, mas aquela pobre alma desventu­rada está perdida; o mal que a minou é fortíssimo, e a falência de tratamentos e, sobretudo, de afectos vai-a guiando nos caminhos da morte… Quiçá não será, para ela, a morte uma libertação, uma alforria do sofrimento de que vem padecendo há tantos anos?

Eu enervei-me com tais palavras desassom­bradas de meu tio, mas ele logo me acalmou:

– Sossega, Alberto, acalma-te. Nada mais podemos fazer por Teresinha senão rezar… E eu aconselho-te: não voltes a tentar visitá-la. O Eduardo despreza-a; não obstante, não quererá, decerto, alimentar a ideia de estar sendo, vir­tualmente, traído… E olha que ele pode estar des­confiando, e é violento… Além disso, não magoes tua esposa. Ela é bondosa, não o merece…

Eu levantei-me, então, da cadeira. Instinti­vamente, abracei meu tio. Tudo o que ele me dizia estava certo. Mas não podia eu esquecer Teresinha, nem abdicar de, pelo menos, mais uma tentativa de visitá-la…

 

(continua)

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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