«Terras de São Cosme» (VIII)

8.º CAPÍTULO

– Mas que quer vossemecê daqui? Vem ver aquela ordinária?

Assim se me dirigiu o Eduardo da Luz, após abrir a porta da sua residência e eu me haver apresentado. Retorqui-lhe, de facies alterado e fazendo um esforço sobre-humano para lhe não partir a cara de imediato:

– Vim visitar a Snr.ª D. Teresa. Soube por meu tio que ela se acha enferma…

O outro, sempre arrogante e desagradável, apresentando um aspecto desleixado e repugnante, respondeu:

– Enferma, ela? Essa é boa! Uma fingidora, é o que ela é! Mas vá, se quer, entre.

Entrei. A casa de Eduardo e Teresinha era lúgubre, sinistra. Com poucas divisões, tomava uma claríssima aparência de abandono, de desordem. Via-se que há muito não beneficiava de uma cui­dada limpeza. Dizia o povo que o Eduardo havia perdido os poucos dinheiros que tinha em apostas duvidosas. Vivia em absoluta penúria, contando os parcos tostões que ainda ia tendo para comprar o suficiente para não morrer de fome (ou melhor, de sede, que, segundo parecia, ele gas­tava quási tudo em bagaço…). O médico e os remédios para Teresinha eram custeados pelo velho Amora, que se via cada vez mais desesperançado.

Entrei no quarto da doente. Era, também, uma pequena divisão, sem janelas, sem luz, que não convidava, decerto, à recuperação. Sentia-se uma atmosfera pesada, onde se mesclavam aromas múltiplos e complexos, miscelânea de fumo de candeeiro com mezinhas inomináveis e remédios de duvidosa eficácia. Num leito exíguo, carcomido das térmitas, jazia Teresinha.

Oh, meu Deus, como ela estava! Uma som­bra pálida daquilo que fora! Desaparecera a bela e airosa jovem que eu conhecera havia dez anos, e ficara uma respeitável senhora, prematuramente envelhecida e com ar cansado, que tremia convul­sivamente e suava em bica. Respirava ofegante­mente, quási nos estertores. A seu lado, uma criada, enviada por seu pai, velava por ela.

Quando relanceou o olhar para mim, pare­ceu-me distinguir-lhe uma chama mortiça, a mesma que, tantos anos antes, eu notara. A um sinal do Eduardo, a criada retirou-se, e ele também, não sem antes dizer:

– Fique aí com ela, a aturar-lhe os desvarios. Vou fumar.

E cerrou a porta.

Não pude esperar mais. Corri para junto da enferma, tomei-lhe as mãos ambas, frias e descar­nadas, e beijei-lhas com ternura. Teresinha come­çou de mirar-me com algum espanto; porém, em menos de nada, logo me reconheceu, posto que houvesse passado largo tempo desde o nosso último encontro. Sorriu, então, e ia dizendo, em voz surda e pausada:

– Alberto!… O meu Alberto!…

Disse-lhe que se não emocionasse, que tivesse calma. Ela, então, pediu-me que lhe desse um pouco de água. Estava febril, e a sede fatigava-a. Fui buscar uma jarrinha que ali estava deposta, sobre a mesa-de-cabeceira, derramei algum líquido num copo e dei-lho. Bebeu com sofreguidão. Eu mirava-lhe o ar decrépito, horrivelmente transfor­mado por uma convivência infernal e por um sofrimento inexprimível, obra infamante e hedionda do crápula do Eduardo da Luz! Ah, des­prezível carrasco, verdugo sem nome, execrável criminoso!

Após ingerir a água que lhe eu houvera dado, Teresinha sentiu como que uma melhoria momentânea. Passou a respirar mais compassada­mente, afigurou-se-me até que o puro líquido tivera o condão de restituir alguma cor ao seu rosto terri­velmente empalidecido. No entanto, foi apenas impressão minha. Ela continuava exactamente da mesma maneira, dominada por um mal que a outro caminho não conduz que não ao da morte.

Trémula, nervosa, ofegante, com um ar que dava pena, Teresinha agarrou minhas mãos com as poucas forças que lhe restavam, e dirigiu-me um doce e lânguido olhar, tão doce como aqueles que lhe eu conhecera noutros tempos, nos tempos do nosso platónico idílio. Tentou falar, e me disse, com voz muito sumida, mas de belo timbre:

– Meu querido Alberto, dou graças ao bom Deus por haveres regressado! Oh, quanto sofri, quanto padeci por te não ver, por te não ter comigo! Oh!

E irrompeu em pungente pranto. As lágri­mas, puras, cristalinas, sulcavam-lhe as fauces macilentas e desfiguradas pela doença. Tentei acalmá-la. Mostrei-lhe, até, o anel, o anel que me ela oferecera aquando da nossa separação, e que eu, desde então, trazia sempre comigo, no bolso do casaco. Emocionou-se. Envolvi-a em sincero abraço, mas ela ainda mais carpia. Carpia sua des­graça.

– Ah, meu amor – continuou –, que grande erro, que grande erro cometi eu! Porque me não opus à ideia de meu pai? Porque casei com este… carrasco? Porquê?

Ao pronunciar estas palavras, tinha convul­sões. Agitava-se. Eu intervim, valendo-me, quási insensivelmente, de argumentos que, uma década antes, ouvira à própria Teresinha, no nosso coló­quio junto à ribeira:

– Calma, minha Teresinha. Calma, minha querida. É bem certo, nós não podemos subverter a ordem de cousas que a sociedade nos impõe. Só temos um direito: o de cumprir os papéis que nos destinam, o de obedecer. É triste dizê-lo, mas é a verdade! Que podemos nós fazer contra isso? Nada! Tudo o que tentamos não tem qualquer êxito! Há um não sei quê… uma espécie de força irresistível que nos impele para certos rumos. A vida ensinou-nos isso, e ensinou-nos da forma mais amarga…

Interrompi o meu discurso, por sentir imi­nente uma lágrima. Mas rapidamente recobrei força e prossegui:

– Mas acredita, Teresinha, isto não quer dizer que os sentimentos se não mantenham. Eles perduram. Eu continuo a nutrir por ti o mesmo afecto que construí há dez anos. Não mais te esqueci. E, posto que já casado, não me sais da memória…

Senti que não deveria ter dito aquilo. Não deveria ter-lhe declarado a minha condição marital. Mas nada podia já fazer, a palavra interdita fora pronunciada, e de forma bem clara. Ainda assim, Teresinha não se admirou. Só me disse:

– Já casaste, Alberto? Pois, eu já o esperava. Afinal, é a sociedade que no-lo manda… Não suponhas que te quero mal por isso. Não é uma traição, e, caso o fosse, eu haveria sido, afinal, a primeira a praticá-la… Não poderia ter sido de outro modo; o que interessa verdadeiramente é o facto de este tão forte e belo sentimento, que há anos nos une, se manter intacto, puro… E isso me dá força bastante para lutar. Tenho a morte na gar­ganta, mas parto feliz, parto levando a tua imagem, parto…

Um acesso inopinado de tosse pôs termo às suas bonitas palavras, que tão delicadamente tange­ram as mais sensíveis cordas do meu coração. Não tive mais argumentos. Afaguei a sua face pálida e adoentada, em que depus um terno beijo.

Acto contínuo, senti um barulho sonorís­simo na sala contígua ao quarto. Logo depois, a porta do aposento em que Teresinha definhava abriu-se de supetão. Era o Eduardo, com maus modos, que me vinha indicar:

– Mas que prosas são essas, tão demoradas? Deixe lá a mulher dormir e vá à sua vida! Deixe-a lá com a doudice dela… Pode ser que hoje me livre desse espantalho! Irra, que nunca mais chega a hora!

Tais declarações, tão abjectas e secas, e, além disso, vindas da boca hedionda daquele canalha, encolerizaram-me. Enrubesci de raiva, e teria desferido um golpe mortal naquele ser despre­zível, não fosse o facto de Teresinha, que se aper­cebera das minhas intenções, ter, discretamente, agarrado fortemente a minha mão, como que supli­cando que nada fizesse. Abstive-me de espancar o Eduardo, mas não pude conter o meu ímpeto de fúria. Peguei no chapéu pressurosamente e saí, não sem relancear os olhos à enferma, que me fitava com adoração.

No caminho de retorno ao «povo de cá», o meu cérebro fervilhou em um misto de sentimen­tos. Nas suas circunvoluções, colidiam amor e ódio, tristeza e raiva, e, sobretudo, uma sensação tão pungente de impotência e de desalento que eu quási não tive forças para arrostar com a dura estrada.

Andava eu em tal confusão mental quando, quási chegado à ponte que liga as duas metades da aldeia, e que sobrejaz à ribeira local, fui atin­gido, de forma inopinada, por uma pedra. O objecto embateu fortemente contra o meu crânio, de tal modo que me quedei no chão. Levei a mão às fon­tes. Estava sangrando.

Refeito da surpresa, mas ainda incapaz de me erguer, reparei no autor do ataque: um rapazito, ainda praticamente imberbe, que corria, qual gazela, para o âmago das matas próximas. Tentei levantar-me, a fim de lograr detê-lo, mas não pude. Um viandante que por ali andava é que me deu a mão, e me auxiliou na caminhada. De início, fê-lo com certo mau modo, pois que me não conhecia. Perguntou-me quem era, se era da aldeia ou não. Disse-lhe que não, que vinha de Coimbra, que era o sobrinho do Snr. Figueira. Mal pronunciei o res­peitado nome de meu tio, o desconfiado camponês tornou-se logo diligente auxiliador, havendo-me dirigido cumprimentos de elevada deferência e amparando-me na caminhada até à Tapada. Quando lhe perguntei se sabia qual a razão daquela inespe­rada agressão, qual o possível motivo que condu­zira à mesma, ele me explicou:

– Saiba Vossoria que há uma grande contenda entre os povos daqui. É costume atirar­mos pedras uns aos outros, de cada vez que passa­mos a ponte para o outro lado. Com certeza, o rapazito não conhecia Vossoria, tomou-o por um dos do «povo de cá» e atirou-lhe com a pedra. Bem, ele tinha razão, Vossoria é do «povo de cá», mas foi muito mal feito… E sendo sobrinho do Snr. Figueira… Não, não era de se fazer uma cousa destas a Vossoria! Eu sei cá, sei lá, mas… Não, não, muito mal feito! Eu sei cá, sei lá…

E eu ouvi, com a paciência que me era pos­sível, tal gentil explicação, bastamente polvi­lhada por aquela notável expressão – «eu sei cá, sei lá». Senti, pois, na pele, e de forma indelével, a rivalidade entre o «povo de cá» e o «povo de lá». Mas o cerne do meu pensamento continuava devotado a Teresinha…

(continua)

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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