«Terras de São Cosme» (VII)

7.º CAPÍTULO

Ia já para riba de dez anos volvidos sobre a minha primeira estada em São Cosme quando formei a resolução de lá tornar. Queria saber novas de meu tio Joaquim, com quem só fugitivamente fora comunicando, por meio de carta.

Mas outra cousa me prendia, ainda, àquela singela povoação serrana. A imagem de Teresinha, a sua recordação indelevelmente vincada em minha alma… É certo que, nesta altura, eu já me havia formado, já trabalhava e já estava, até, casado… Um casamento conveniente a meu pai, que fez bons negócios com o marquês de Rio Verde, pai de minha mulher. Não me podia eu queixar da Caro­lina – sim, é esse o nome de minha esposa –, por­quanto era bastante dedicada e atenciosa. Mas como se me podia exigir que lhe devotasse a mesma afeição incondicional que reservara para Teresinha, a minha bela Teresinha?… Tais afeições só uma vez na vida se têm, e, em estando destinadas, nada as poderá mover em outra direcção…

Tal era a forma de pensar que se me havia profundamente arreigado. Não podia, pois, evitar um reencontro com a serra e com São Cosme. E assim fiz. Preparei grossa bagagem, convenci a Carolina a acompanhar-me (quanta relutância ela houve em fazê-lo, sendo lis­boeta de origem e alimentando infundados preconceitos relativamente ao mundo rural…) e meti pés ao caminho, que este era (e é) longo, longo…

Ao rever a aldeia de nossos antepassados, transcorrida que havia sido uma década sobre a minha primeira e única visita até então efectuada, deparei-me com um cenário quási idêntico àquele que tão pressurosamente quisera, à época, abando­nar. As mesmas casas, as mesmas pessoas, a mesma vida compassada pelos ditames do campo, a mesma naturalidade, a mesma verdade, a mesma essência imutável…

Mal sabia eu, porém, de todas as transfor­mações havidas na residência de meu tio. Fui achá-lo mais velho, mais alegre ainda do que soía ser, vivendo em conúbio com a Maria de Jesus! Sim, era verdade! Havia-se juntado à fiel criada, e já tinha, até, um filho, um gaiato de sete anos, muito traquina e folgazão. A Maria de Jesus, embora cumprindo, como dantes, o serviço doméstico, achava-se muito mais plácida, aquela placidez pró­pria de uma dona de casa. Antónia, arre­medo de cunhada do patrão, também prosseguia o seu ofício de criada de servir, contanto que apre­sentasse uma expressão de altivez que lhe não conhecera dantes, certamente por sua irmã ser a mulher do Snr. Joaquim Figueira…

Assim exibida, perante mim, esta diversa realidade, e uma vez apresentada, a meu tio, minha esposa, tratámos de conversar mais fundamente sobre tantas mutações – das quais, ademais, nunca meu tio me houvera falado nas cartas que escre­vera.

Pois a trama fora bem simples. Meu tio e a Maria de Jesus nutriam, um pelo outro, antiga e sincera afeição. Haviam resistido estoicamente a tal apelo da alma, tendo em vista as conveniências sociais, que sempre acabam por reprovar, em maior ou menor grau, tais situações, até que, em dado momento, já não foi possível dissimular aquilo que era por de mais notável. Juntaram-se de facto, sem celebrar casamento. Assumiram plenamente os seus sentimentos recíprocos, e encetaram vida marital. Tiveram aquele filho, de quem meu tio dizia: «Este é o meu herdeiro!». Afirmava-o com claro orgulho, com a satisfação própria de alguém que verá perdu­rar a sua casa. Joaquim se chamava o petiz, parti­lhando com seu progenitor tão ilustre prenome e, sobretudo, tão hercúleo dever de, futuramente, o não deslustrar.

O nosso conciliábulo assim foi progredindo, entre novidades de pasmar e puríssimas banalida­des, até que a Maria de Jesus tomou a louvável iniciativa de levar a Carolina a ver os demais apo­sentos da casa, deixando-me a sós com meu tio. Acendendo, então, um cigarro, fiz-me resoluto e atirei-lhe a pergunta que sofregamente me bailava na ideia:

– E Teresinha, a filha do Snr. Amora? Como tem passado Teresinha?

Meu tio não deixou de estranhar aquele meu súpito interesse por Teresinha. À uma, porque haviam passado muitos anos desde a minha estada em São Cosme. À outra, porque nunca ele soubera do meu encantamento por aquela moça. Não obstante, soltou uma larga baforada do seu venerável cachimbo, que entretanto estivera preparando, e informou-me, com ar desolado:

– Oh, Alberto, essa pobre moça, essa pobre moça!… Aquele Eduardo da Luz é um patife! O que ele lhe faz, Santo Deus! Derreia-a de pancada! O Amora sofre com aquilo, claro, mas que pode ele fazer? O canalha do genro ameaça-o com não sei que argumentos – nem ele me quis contar, ao certo, quais sejam – e ele, enfim, também é fraco… Fica assim, sem reacção… Para maior desgraça, a pequena – pequena não, enfim, que já é mulher crescida – caiu na cama, com uma fraqueza, e os médicos dizem que já não há esperança… Está quási a finar-se, coitadinha… O Amora está destro­çado…

Estas palavras de meu tio mais me parece­ram lâminas de fino aço, que me iam traspassando o coração. Senti, instintivamente, um ódio mortal ao Eduardo da Luz. Se acaso ele me surgisse à frente, ali, naquele momento, seria capaz de des­fazê-lo sem piedade! Sofria, sofria por Teresinha. Tinha de vê-la, de confortá-la! Comuniquei tal resolução a meu tio.

– Mas isso é uma insensatez! O Eduardo da Luz pode tratar-te pouco bem… Olha que ele é mal-criado! – respondeu meu tio, com ar visivel­mente preocupado.

Eu, porém, insisti. Deixei a Carolina ouvindo as prosas da Maria de Jesus e dirigi-me à casa do Eduardo da Luz, já no «povo de lá». Era aí que Teresinha definhava, presa ao leito da morte…

 

(continua)

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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