«Terras de São Cosme» (VI)

6.º CAPÍTULO

Realizou-se o casamento de Teresinha e do Eduardo da Luz nos princípios de Abril. O Snr. Amora andava atarefadíssimo com os preparos da festa, para a qual convidou a melhor sociedade da época, incluindo meu tio Figueira. Eu também fui abrangido por essa invitação, mas prontamente me neguei, justificando-me com uma inopinada indis­posição. O pai da noiva lastimou fundamente que eu não marcasse presença na cerimónia, do que deu conta a meu tio. Este também insistiu:

– Anda lá, Alberto, não faças uma tal des­feita ao Amora! É mister que venhas ao casamento!

Mas eu fui terminante na minha recusa. Pas­sei o dia inteiro no quarto, rabiscando prosa e meditando, meditando em nada, meditando no vazio que aquele sucesso originava em minha vida… A Maria de Jesus chegou a recear pelo meu estado de saúde, e queria chamar o médico. Disse-lhe que o não fizesse.

Por relatos ouvidos a meu tio, no dia seguinte, vim a saber que a cerimónia fora faustosa, com muitos convidados e grande alegria da parte dos pais dos noivos. Também a boda fora apreciá­vel.

– Apenas uma cousa me causou certa estra­nheza – disse meu tio. – É que a noiva não parecia feliz… Estava cabisbaixa, misantrópica… Bem, que Deus lhe traga alegrias, que ela bem merece! É uma moça duma bondade infinda…

Eu ouvi tudo isto com comiseração. Teresi­nha e eu fôramos, afinal, duas almas unidas a que a vida, de forma crua, cortara o cordão umbilical, separando-as sem remédio. A vida, sim, mas não a vida verdadeira – fora a vida ilusória, a vida que vivemos por mando de outrem, a vida que nos impõem viver, que não aquela que nos seria dado, naturalmente, viver…

Obra de duas semanas volvidas, pela manhã de um dia soalheiro mas bastante frio ainda, uma notícia caiu em casa de meu tio como um estrondo: falecera D. Inácia, a esposa do Snr. Amora!

Mas como fora isso, como fora? Meu tio e eu colocávamos repetidamente tal questão à Maria de Jesus, pois que fora ela a portadora da triste nova.

Pois, segundo contara a Assunção Marques, a Snr.ª Inácia sentira-se mal havia duas noites. Queixara-se de dores fundas, de delíquios, tivera febre altíssima. Prestes o Snr. Amora mandara chamar o Dr. Guimarães, clínico da vila. Este não lograra destrinçar o mal, já inextirpável, que assim consumia, de forma terrivelmente ávida, as forças daquela senhora. Mais de um dia volvido, o qual se pautara, invariável e assustadoramente, por inúme­ras indisposições do jaez das primeiras, rogara D. Inácia, assaz enfraquecida e combalida, que a aju­dassem a levantar. Queria ir à janela de sua casa. Sim, à janela, que dali se via, ao longe, a veneranda Ermida de Nossa Senhora dos Mártires, na vizinha paróquia de Vila Nova. Como muitos seus conterrâneos, D. Inácia era devotíssima daquela santa. Fizeram-lhe a vontade, e ali a depuseram, volta para a ermida, mirando o templo, num celestial encontro de Esperança e de Fé. Rezando sempre, baixinho, num quási sussurro, desfiando as contas do rosário, que pareciam não ter fim, a mãe de Teresinha ia soltando os últimos suspiros de vida humana. Ao terminar a oração, estremeceu, e a cabeça pendeu-lhe descendentemente, tal como os ombros. Havia partido, para junto de Deus…

Meu tio ficou logo em grande frenesi. Era mister acorrer a casa do Snr. Amora, confortá-lo minimamente, em hora tão aziaga, dar algumas palavras de consolo àqueles pobres seres que bem delas careciam, pois que haviam sido traspassados por tão lancinante perda! Logo a Maria de Jesus lhe foi arranjar o fato preto. A gravata, essa, não preci­sava ele de mudar – sim, que jamais vi a meu tio gravatas de outra cor que não o preto… Parece-me que nunca logrou quebrar completamente o luto por morte de seu pai – meu avô Luís Figueira, de quem já falei –, o qual havia falecido prematura­mente. Bem sabia ele, pois, a dor de um luto ren­dido a alguém que se estimava deveras, e o quão difí­cil se afigura sempre a superação de um tal triste marco…

Evidentemente que meu tio instou funda­mente para que eu o acompanhasse. «Tens de ir, tens de ir, tens de ir…». E fui. Ganhei coragem e fui. Embora não soubesse bem como encarar Tere­sinha, e me dilacerasse a ideia de vê-la abatida pelo passamento de sua extremosa mãe, entendi ser meu dever comparecer no velório e no enterro.

Não mais, enquanto viva, poderei afastar da lembrança essa imagem de Teresinha, colhida em tão fatídica data! Lá estava ela, em sua casa, perante o caixão que continha o cadáver de sua progenitora. Estava sentada, ante a tumba, mas com uma aparência fria, seca, impassível. Mas só apa­rência… Percebi perfeitamente que a sua alma se achava despedaçada, terrivelmente atingida por aquele funesto sucesso… Dirigi-lhe os meus pêsa­mes, que ela agradeceu, apertando-me a mão. Só aí se me afigurou divisar-lhe uma mortiça chama naquele olhar desalentado.

O Snr. Amora estava inconsolável. Cho­rava, arrepelava-se, carpia com toda a amargura a perda da esposa. Meu tio logo o foi tentar acalmar. Apenas o Eduardo da Luz exibia um aspecto des­contraído. Sempre fumando, sorria, cumprimentava as pessoas que entravam, tinha ditos chistosos, soltava estrídulas gargalhadas. Apresentava uma postura escandalosa. Vê-lo assim, com­portando-se velhacamente, sem qualquer respeito pela sogra defunta e pelo pesar de seu sogro e, mormente, de sua esposa, que tanto sofriam, deu-me asco, raiva. Pobre Teresinha! Quão desventurada fora! O tal rapaz honesto e trabalhador, de que me falara o Snr. Amora, era, afinal, uma criatura abjecta!

Ainda se me dirigiu, o Eduardo. Vinha ofe­recer-me um cigarro:

– Então, sorria! A vida é bela! Quer fumar?

Eu, fazendo um grandíssimo esforço para lhe não assestar dois murros naquelas fauces des­prezíveis, respondi com um monossilábico «não». Pouco depois, despedi-me do Snr. Amora e de Teresinha, que me fitou com olhos lacrimantes. Não, não podia ali continuar. Só meu tio ficou para o funeral.

No dia seguinte, arrumei a minha bagagem, despedi-me de meu tio e da Maria de Jesus e tornei a Coimbra. Meu tio estranhou muito a minha par­tida repentina. Perguntou-me a razão de tal proce­dimento, mas eu só lhe pude responder evasiva­mente. A Maria de Jesus chorou muito «por o menino Albertinho se ir embora». Mas eu tinha de ir. Partia-se-me o coração, ao pensar na infelicidade de Teresinha, daquela criatura angelical que se vira votada a tão negro fado… Algo cobardemente – reconheço-o –, deixei São Cosme e voltei à Universi­dade e aos compêndios. Fugi, posso dizê-lo, e com que amargura o fiz…

(continua)

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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