«Terras de São Cosme» (V)

5.º CAPÍTULO

Quando, em um dos primeiros dias soalhei­ros de Primavera, intentei deambular pelos singelos caminhos da aldeia até à Mata da Pregueira, terra que pega com a ribeira local, não esperava, a priori, que lá viesse a encontrar Teresinha. Sim, de facto, não a houvera eu visto desde aquele rendez-vous na casa do Snr. Amora. Porém, a sua imagem, qual estampa belíssima, ficara indelevelmente gravada na minha recordação.

Lá estava ela, com efeito, no seu «arreçaio», como dizia seu simpático progenitor. Ali, mirando as águas frias e revoltas, que volteavam ruidosa­mente, correndo desde os altos da serra até estas terras de São Cosme. Parecia absorta em tal entre­tém, a nada mais ligando, tudo postergando, para apenas contemplar a natureza na sua expressão mais vera. E que belo aspecto lhe conferia essa contemplação! Como ficava ainda mais bonita!

Com todas as cautelas, acerquei-me de Teresinha e imitei-lhe o gesto: pus-me, igualmente, a contemplar as águas. Fiz com que o meu espírito absorvesse aquela simpleza da natura, aquela autenticidade diafanamente envolta em obviedades. Sim, era mister que mudasse a minha forma de olhar, que cambiasse os olhos correntes pelos olhos da Verdade, que afastasse a ideia preconcebida e desse guarida, em minha alma, à ideia real, àquela que traduz o ser, impoluta e liberta do roço social que, de ordinário, agrilhoa o pensar e nos cons­trange a dar um indiferente accessit ao padrão que a generalidade – essa assombrosa e sempiterna­mente impessoal generalidade! – nos impõe acriti­camente. Busquei, em suma, ser eu mesmo, na minha formatação original, arremessando, por momentos, para uma outra, longínqua, galáxia todo o acúmulo de influências mutatórias que o mundo organizado nos lança em inarredável catadupa. Assim estava fazendo Teresinha, e assim procurei eu fazer, a ela me irmanando, numa conjugação de sensibilidades que, no momento, nos uniu.

Mas o momento passou, esvaiu-se como ave que voa fugazmente por sobre os beirais, e torná­mos à convencional e constritora realidade. Nós, que, durante breves instantes, fôramos, sem quási nos apercebermos, seres espiritualmente únicos, tornávamos a assumir os rôles que a sociedade nos impunha. Voltou-se para mim, olhou-me de guisa ligeiramente desalentada, e perguntou:

– Também por aqui, Snr. Dr. Alberto? Con­templando as águas?

Eu, (re)caindo na minha consciência quoti­diana e (re)assumindo os ditames societários e seus decorrentes estatutos, cumprimentei-a respeitosa­mente e lhe disse:

– Pois é como vê, minha estimada Teresi­nha. Também eu partilho o gosto pela contempla­ção, mormente quando se nos oferece à vista tão rara beleza…

Ela corou. Tentou dissimular a atrapalhação que aquela minha frase ambígua e ambivalente lhe causara. Com voz maviosa, mais uma vez me questionou:

– Não acha que as grandes cidades têm mais encantos do que esta simples Natureza? Que fascí­nio pode achar em uma pequena povoação como esta, cujo ritmo é marcado pelo bater do coração da Terra? O que o faz permanecer aqui?

Tal interrogação, profunda e assim inopina­damente formulada, deixou-me positivamente embatucado. A custo, e sempre timidamente, pude retorquir-lhe:

– As cidades não contêm o verdadeiro encanto das obras puras e simples, que só aqui, neste Éden terreal, se podem achar…

E peguei-lhe na mão, que apertei nas minhas fervorosamente. Teresinha atrapalhou-se muito, estremeceu, tentou soltá-la. Ao mesmo tempo, ia-me dizendo:

– Por favor, por favor… Não nos é permi­tido sonhar tão alto… A vida nos obriga a encarrei­rar em outros rumos… Compreenda…

Perante tal argumento, e dissipada que estava, de forma quási definitiva, a minha senti­mentalidade momentânea, só pude aduzir mais um argumento, e de maneira mais chã:

– Mas não vê que eu gosto de si, Teresinha?

Ela, sempre contida, sempre conformada – ou procurando conformar-se, sem, porém, nunca o lograr inteiramente… – com o fatum que os outros – a generalidade, uma vez mais, e suas convenções! – nos impõem a todo o momento, disse-me assim:

– Eu sei, meu amigo, e, creia-me, tal senti­mento é absolutamente recíproco. Porém, meu casamento está marcado, meu pai determina que assim seja, e não há volta a dar-lhe…

Levantou-se, com uma dignidade augusta. Eu segui-lhe o exemplo. Ela continuou a falar:

– Mas, apesar de todos estes condicionalis­mos da vida, não se esqueça de mim. Siga o seu trilho, encontre alguém com que possa ser feliz. Porém, lembre-se de que eu sempre o conservarei na lembrança. Sempre…

De seguida, tirou um dos anéis que trazia, e deu-mo:

– Guarde este anel. É o meu preferido. Sei que consigo estará em boas mãos, e não poderia, aliás, encontrar pessoa que mais o estimasse. Con­sidere-o como uma parte de mim, que lhe dou de todo o coração…

Eu recolhi a jóia na minha mão, apertando-a febrilmente, como preciosidade que era. Teresinha disse-me adeus, sumiu-se em menos de nada, e eu ali fiquei, junto à ribeira, ouvindo o murmúrio das águas, que levavam o meu destino por um caminho, um qualquer caminho, que só elas sabiam qual seria…

(continua)

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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