«Terras de São Cosme» (IV)

4.º CAPÍTULO

De tal maneira o Snr. Amora simpatizou com a minha pessoa naquele dia na vila que, pouco tempo volvido, fui convidado a tomar chá em sua residência. Uma sua criada, a Ermelinda, veio comunicar tal invitação a casa de meu tio. Este, quando soube, ficou radiante, e logo me per­suadiu:

– É mister aceitares esse simpático convite do Amora. Olha que se trata dum grande proprietá­rio, influente e respeitado. As boas relações que pudermos estabelecer com tais pessoas nunca são de mais…

Assim, outro remédio não tive senão ir. Não me foi difícil lobrigar-lhe a casa, porquanto já por ali havia andado, pelas imediações do Canto, pequena rua contígua à igreja. Não possuía essa casa traços solarengos, mas afigurava-se assaz ampla. Bati à porta. Aguardei uns instantes, até que a Ermelinda veio abrir:

– Ah, é o Snr. Dr. Alberto. Tenha a bondade de entrar. Vou prevenir o Snr. Amora da chegada de Vossoria.

E aquela serviçal já idosa, baixinha e sim­pática, lá me conduziu à sala de visitas. Não muito grande, compunha-se de quatro cadeirões de bom fabrico, com uma mesinha ao centro, sobre que fora colocada uma bela toalha de linho. Aos cantos da divisão, duas floreiras sustentavam vasos de plantas viçosas. Da parede, pendiam alguns quadros deco­rativos e um retrato de alguém, cuja identidade nunca logrei descortinar. Era um indivíduo de meia-idade, mais ou menos, com aspecto carran­cudo e longa barba. Por certo, um venerável ante­passado do meu anfitrião.

O Snr. Amora assomou à porta da salinha quando me eu achava em tais contemplações. Sau­dou-me com satisfação:

– Oh, meu caro amigo, folgo em constatar que V. S.ª houve por bem aceitar o meu convite! Queira fazer a fineza de sentar-se.

Correspondi à delicadeza, deixando-me cair sobre um dos pesados cadeirões. O Snr. Amora fez o mesmo.

– A Ermelinda já nos trará alguns acepipes. Enquanto isso, vou apresentar-lhe minha esposa e a Teresinha, minha filha.

Ao seu chamamento, esposa e filha entra­ram, também, na sala. A primeira, D. Inácia, con­tava suas cinquenta e cinco primaveras. Senhora distinta e elegante, de fino trato e modos contidos. Já Teresinha, vinte anos feitos havia três meses, era uma moça bela, de um natural e fascinante encanto. Afável e bem-humorada, cumprimentou-me com muita simpatia, após o que se sentou junto de sua progenitora. Não esperámos muito pelo chá e pelos bolinhos trazidos pela criada, colocados cuidada­mente em uma bandeja de prata.

– Pois, meu caro amigo – encetou a con­versa o dono da casa –, saiba que minha filha Tere­sinha é uma moça muito prendada. Tem um talento tal para a costura que é cousa de se admirar! Já está de casamento marcado com o Eduardinho da Luz. Bom rapaz, honesto, trabalhador. Podia ser um pouco mais abastado, mas paciência… Julgo que dará um bom gerente do património que há-de caber a minha filha… De resto, olhe, meu amigo, ela está quási sempre aqui metida, em casa… Pouco sai. Tem alturas, porém, em que gosta de ir ver a ribeira, de mirar as águas… É o arreçaio dela…

Havendo notado a minha incompreensão do termo «arreçaio», cujo emprego naquela aldeia era vul­garíssimo, logo a Snr.ª Inácia tratou de elucidar-me:

– Meu marido quer dizer que ir ver as águas da ribeira é a distracção de minha filha.

E, voltando-se para ele:

– Oh, António, francamente, tu nunca hás-de perder a mania de usar essas expressões vulgares!…

O Snr. Amora atrapalhou-se, tanto mais pelo respeito que tributava à minha condição de estudante de Leis, e logo se desculpou:

– Desculpe-me V. S.ª, Snr. Dr. Alberto, mas eu, enfim, não consigo arrenegar completamente as minhas origens… Sim, que meu pai era homem do povo! Fez-se a pulso. Passou de mero camponês a grande proprietário, e com que sacrifícios…

E narrou-me a história de seu pai, um sim­ples arrendatário de terra alheia que, com poupança e estoicismo, lograra juntar alguns dinheiros, com que fora adquirindo boas propriedades. Tanto cam­peou que chegou ao topo, conquistando a coroa de louros da esforçada vitória. Porém, sempre se orgulhara das suas raízes humildes, fazendo pasmar muitos senhores da nobreza quando, em leilões de terras, se apresentava em trajos simples, de campo­nês. Sim, muitos perguntavam: «Quem é ele?». Até o ridicularizavam, cuidando que fosse um zé-qui­tólis. Porém, era sempre dele que partia o mais alto lanço, o qual prontamente cobria, retirando a res­pectiva quantia de um gordo saco de dinheiro com que se fazia acompanhar. Fora, indubitavelmente, uma pessoa notável.

Assim progrediu a conversa. Teresinha nunca falou muito, sempre introvertida, posto que assaz simpática. Ademais, foi a minha visita rema­tada por uma exposição dos seus últimos trabalhos de costura. Eram belos, com efeito, tão belos como aquela alma cândida que se apresentava defronte de mim. Não pude conter o encantamento que me ela suscitou, o que fiz reflectir no longo e profundo aperto de mão que lhe dei à saída, e ao qual ela, segundo me pareceu, correspondeu plenamente.

No caminho de volta a casa de meu tio, não pude deixar de rememorar a imagem de Teresinha. Havia-se fixado nela o meu pensar, e era já difícil demovê-lo…

(continua)

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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