«Terras de São Cosme» (III)

3.º CAPÍTULO

Cerca de um mês transcorrido sobre o epi­sódio do Chão da Ribeira, instou meu tio Joaquim para que o acompanhasse à vila. Ia ao tabelião, a fim de assinar a escritura de compra e venda de uma sorte de terra sita aos Carvalhais.

Saímos bem cedo. O tempo não era muito agradável, mas o frio cruel já era parcialmente dis­sipado por um tímido sol que, no entanto, a poucas ousadias se permitia ainda… Não, não chegara, decididamente, a época do calor. Ademais, soía o povo dizer que este «só vem com o da capa ver­melha». Aludia tal circunlóquio, bastamente usado por aquelas bandas, à figura de São João, cuja festa se celebra nos finais de Junho. Só então o santo nos dá o benefício do clima estival…

Bom, saímos bem cedo, dizia. Meu tio ia à frente, sobraçando a sua costumeira pasta preta, plena de papelada. Eu, vendo-me acossado pelas frígidas temperaturas, seguia encolhido no meu grosso varino, o qual, mesmo assim, me não dava conchego bastante. E dessa maneira fizemos os três quilómetros e meio que separam São Cosme da vila. Meu bom tio ia falando, dissertando sobre cousas agrícolas, opinando acerca de certa literatura, contando, até, anedotas… Sim, toda a gente o conhecia como admirável piadista, e pessoa de muito boa disposição. De quando em quando, interrompia o seu discurso, ou para cumprimentar algum conhecido, ou para me elucidar sobre alguns locais de interesse:

– Vês, Alberto, ali aquela propriedade per­tence ao Snr. Visconde. A casa dele é lá para o fundo. Boa casa, e muito bonita… Esta courela aqui é do Snr. Guerreiro. Bom tipo, anda recolhido no Brasil há uma data de anos! Nunca mais soube­mos nada dele… Olha, a prima Amélia – sim, aquela que vive em São Paulo, de quem te falei há tempos, que casou com o Fernan­dinho Seabra, o comerciante… –, essa é que me falou dele, uma vez, já lá vai muito tempo… Pare­cia que o Guerreiro lá andava no negócio do café… Não sei se seria verdade…

E assim fomos. A vila de Santa Cruz não era, propriamente, uma grande metrópole, mas atingia, naquela região, uma dimensão respeitável. Além disso, possuía inúmeras fábricas têxteis, onde labutava uma larga geração de operários. Era um sector em expansão. Haviam sido os judeus, em tempos, a dar um notável contributo para o seu fomento, com o aproveitamento da força hídrica para fazer mover a maquinaria. Tão grande ajuda eles deram – mas tão malquistos foram pela gente da terra! Desde que se introduziu o vapor, tem-se assistido à modernização dos equi­pamentos. Emprega-se menos pessoal e produz-se mais…

No centro da vila, havia, ainda, um Largo do Castelo. Só restava mesmo o nome… Um pouco adiante, topávamos com o Beco do Pelourinho, do qual, igualmente, já nenhum vestígio existia. Por essas bandas se achavam os Paços do Concelho. Na Praça D. Manuel I, o imponente solar dos Corrêa de Menezes marcava presença, quási fronteiro à paróquia. A pouca distância dali, achava-se um antigo colégio de jesuítas, nobre instituição setecentista que, não obstante, veio a leccionar por poucos anos, tendo sido encerrada às ordens de Pombal…

Dirigimo-nos, então, ao escritório do tabelião, o Snr. Dr. Pina Abrantes. Bacharel em Direito, pela mesma Faculdade que eu cursava, era ele uma figura quási truanesca. Baixinho, rotundo, de alta prosápia, falava arrevesadamente e empregava uma multiplicidade de latinismos – via de regra, incor­recta e impropriamente utilizados –, apenas com o fito de aparentar ser intelectual de elevada cra­veira… Quando meu tio me apresentou, logo o Dr. Abrantes exultou:

– Oh, mas que honra ter, perante mim, um digníssimo colega! Oh! Deo gratias! Alea jacta est!

Ficava, assim, citando expressões latinas de cor, com uma impropriedade clara, uma inoportu­nidade aberrante e uma ignorância clamorosa do que elas queriam significar. Eu, que sempre postu­lei, como um dos ideais fundantes da boa convi­vência social, o «estar de bem com todos», não fiz caso daquilo e até lhe teci encómios:

– Muito bem, Snr. Dr. Pina Abrantes! Tenho a subida honra de constatar ser V. Ex.ª um latinista de elevadíssimo coturno, e dum talento oratório como já não há. Um novo Cícero, se me permite…

O tabelião não coube em si de satisfeito. Sor­riu tão fundamente, e com tanto agrado, que eu quási me arrependi de estar sendo tão hipócrita para com ele… Junto de mim, meu tio fazia um grande esforço para se não rir, ante tal picaresco espectá­culo.

Conversámos mais alguns instantes com o nosso latinista encartado, naquele escritoriozinho pequeno e mal arejado, quando chegou o outro outorgante do acto que se viria a celebrar. Era o Snr. Amora, igualmente pro­prietário, conterrâneo e velho amigo de meu tio, e que lhe iria vender os Carvalhais.

Este António Amora – assim se chamava ele – era, também, abastado. Vivia no centro de São Cosme, numa casa junto à igreja. Não era alto, mas apresentava-se cuidadamente, e com um aspecto assaz distinto. Casado, tinha uma única filha, cujos esponsais já se achavam acertados com o Eduardo da Luz, jovem herdeiro de pequenos proprietários de Moimenta.

Ao chegar à porta do escritório, o Snr. Amora saudou efusivamente meu tio e o Dr. Abrantes. Como ainda me não conhecia, ficou-me mirando pasmadamente, até que meu tio lhe disse:

– É meu sobrinho Alberto, que me veio visitar. É estudante de Direito, em Coim­bra.

Esta última frase originou uma subida reve­rência na figura do Snr. Amora, que me cumpri­mentou com todas as mesuras devidas a alguém de elevada condição. Seguidamente, e uma vez chega­das as testemunhas – um comerciante e um operá­rio, conhecidos de ambos os outorgantes –, deu-se início ao acto. O tabelião lavrou rapidamente o documento, após o que passou à sua leitura e expli­cação. Por fim, todos apuseram as suas assinaturas, umas mais bem desenhadas do que outras. Em todo o caso, a firma do Dr. Abrantes sobrepujava, em dimensão e volteados, as dos demais signatários. Imensa, complicada, muito floreada, fazia jus à sua ingénita jactância.

Assim ficava meu tio proprietário dos Carvalhais. Cumpridas que estavam todas as formalidades, incluindo o pagamento da sisa à Fazenda, despedimo-nos, não sem antes, porém, o garboso Dr. Abrantes me exibir o seu diploma, cuja escrita em latim, por ele lida, se me afigurou mil vezes pior do que as macarrónicas rezas da Maria de Jesus…

(continua)

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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