«Terras de São Cosme» (II)

2.º CAPÍTULO

Uma semana volvida, e estando eu quási com­pletamente restabelecido, acompanhei meu tio numa visita ao Chão da Ribeira. Cabia este nome a uma das propriedades que a família Figueira detinha. O tempo apresentava-se mais «amoroso», como ali diziam, e os trabalhadores lá anda­vam de roda da cultivação.

Meu tio dava compridas passadas no cami­nho de terra batida. Trajando um fato preto, sobre que vestira grossa samarra de lã, a fim de aplacar as iras do clima impiedoso, entrou na sua propriedade quási como se fora um antigo senhor feudal. Pers­crutava os mais ínfimos recantos daquele prédio rústico, inspeccionando, cuidadamente, toda a cul­tivação. De seguida, dirigiu-se a um dos trabalha­dores:

– Bons dias, ó Adelino. Então, como vai isto?

O outro, de fauces macilentas e ar exte­nuado, ajeitando na cabeça o chapéu gasto, retor­quiu:

– Deus Nosso Senhor dê muito bons dias a Vossoria, Snr. Figueira. Saiba Vossoria que estas lides cá vão andando como Deus quer. Lá se vai fazendo alguma cousa de jeito, mas o tempo não vai de feição…

Meu tio ouviu, com inexcedível atenção, a fala daquele homem rude e sincero, e disse-lhe:

– Pois, Adelino, tem vossemecê razão. Isto vai mal. Deus permita que hajamos algumas melho­ras, senão, temo que este ano fique a colheita pre­judicada… Tenhamos fé!

E meu tio deu ao Adelino uma pancadinha fraternal no ombro, avançando um pouco mais na inspecção da sua propriedade. Ao mesmo tempo, dizia-me:

– Repara, Alberto, que esta terra foi com­prada por teu trisavô a um sujeito do Vale Novo – o Snr. Costa. Homem rico, e cujas propriedades abran­giam quási tudo o que a vista alcançava entre a vila de Santa Cruz e Freixial! Bom, esse senhor era ami­císsimo de meu bisavô João, e este – que era, igualmente, muito abastado – propôs-lhe a compra do Chão da Ribeira. Logo viu que, enfim, a terra era boa… Sim, que meu bisavô João tinha um grande tino negocial!

E acrescentava que me haveria de mostrar uma carta escrita pelo seu bisavô – meu trisavô – João. Um homem singular, de uma agudeza de espírito apreciável… João Baptista de Carvalho Salvador Figueira, assim se chamara ele. Casara com a trisavó Hermínia – «uma santa senhora», nos dizeres de meu tio –, e desse enlace provieram meu bisavô António Figueira e seu mano Sebastião, o qual se radicou no Brasil, «já se não sabe por que razão». Mas, ainda segundo meu tio, tinha a nossa família alguma parentela no Rio de Janeiro. E dizia-me o nome de diversas primas – «a prima Aurora, a prima Deolinda, a prima Constança, …» –, num não mais acabar de nomes e de parentescos esbatidos pelo tempo. Tudo isso para voltar, em um remate final, à memória de seu bisavô João – «um homem admirável, exemplar!» –. E mais uma vez prometia exibir-me uma missiva escrita por esse meu antepassado.

Devo confessar que meu tio Joaquim pos­suía, de facto, um ingénito talento narrativo. Era o vero guardião da memória comum da família – sim, que nem meu pai sabia tanto da sua ascendência –, e, mal apanhava um virtual ouvinte a jeito, vá de expor-lhe as proezas de várias gerações de Figuei­ras… Eu não o censurava por isso. Pelo contrário, admirava-o, e gabava-lhe a paciência de querer descortinar tantas marcas do passado do clã. Con­sumia horas e horas a analisar antiga papelada da casa, com um sentido perscrutador notavelmente afilado, tomando notas em resmas de almaço. Outras histórias e informações, ouvira-as a seu pai – meu avô Luís –, o qual, segundo consta, alimen­tava igual interesse pelas cousas do passado. Assim, enquanto meu pai, ainda petiz, se entretinha a brin­car pelos campos, meu tio Joaquim passava incon­táveis serões junto de seu progenitor, escutando e decorando os fastos de nossa família…

Bom, e assim íamos quando meu tio parou junto de uma miudita, que também já fazia algum trabalho agrícola. Na verdade, aquela criança era ainda bastante pequena, mas ali andava, laborando com afã, indo buscar forças quási sobre-humanas, atendendo à sua pouca idade, para dar conta de tão pesadas tarefas. Meu tio ordenou-lhe que suspen­desse a labuta, após o que olhou à sua volta e chamou, em voz tonitruante:

– Ó Purificação, anda cá!

Do outro lado da propriedade, vinha, res­pondendo à chamada, uma matrona, algo desen­gonçada, mas muito forte. Limpando as mãos com um lenço não muito asseado, saudou seu patrão e perguntou:

– Que deseja Vossoria, Snr. Figueira?

Meu tio, afivelando uma máscara de incon­tida severidade que eu ainda lhe não conhecera, questionou:

– Mas que preparos são estes? Então tu pões tua filha a trabalhar aqui, sabendo ser ela tão doente e de tão pouca idade?

A outra embatucou. Contrita, ia a responder, mas meu tio cortou-lhe a palavra.

– Isto é uma crueldade, mulher! Por certo há trabalho para se fazer, e não é ele escasso, como bem sabes. Todos os braços são bem-vindos. Mas tua filha não tem saúde nem forças para se sujeitar a esta labuta infernal! Que infeliz ideia te passou pela cabeça, mulher?

A pequenita postara-se ao lado de sua mãe, encolhida e de olhos fitos no chão. A Purificação, nervosa pela inesperada objurgatória, só logrou dizer:

– Perdoe-me, Snr. Figueira, mas eu achei que ela deveria habituar-se a isto…

Meu tio não se acalmou com este argu­mento. Qual! Ainda mais se enfureceu:

– O quê? Habituar-se a esta vida? Ó mulher, que andas douda! Então tu queres sacrificar tua filha, acabando com a pouca saúde que lhe resta? Não sabes que ela não pode fazer estes trabalhos? Porventura eu obrigo-te a procederes assim? Dize! Obrigo-te a que procedas assim?

A camponesa respondeu:

– Não, Vossoria não me obrigou a nada, eu é que achei que fosse bom para a minha Maria…

Mais plácido, meu tio tornou:

– Bom para ela é fazer um trabalho mais leve, mais apropriado. Olha, que ela seja uma exemplar dona de casa, é o que tens de desejar. Tira-a já daqui, e não voltes a fazê-la trabalhar nos campos. Vai ter com meu primo Narciso. Ele está precisando de uma criada, e tua filha poderia servir perfeitamente nesse ofício. Ela sabe cozinhar?

– Sabe, sim, Snr. Figueira.

– Bom, então eu vou falar a meu primo, e depois te direi alguma cousa. Agora, leva tua filha a casa, e podes continuar a trabalhar.

Ia já meu bom tio a voltar costas quando a Purificação o deteve, com os olhos marejados de lágrimas:

– Bem-haja, Snr. Figueira! Vossoria não sabe a alegria que eu sinto ao pensar que a minha Maria poderá ter um bom trabalho, ainda para mais na casa do Snr. Narcisinho, que é tão gentil pessoa…

Ele apenas acrescentou:

– Não me agradeças, Purificação. Vê lá mas é se cuidas dessa pequena, que tanto merece o teu amparo e carinho…

E saímos do Chão da Ribeira, ante a estupefac­ção dos demais trabalhadores e o choro comovido da Purificação, que abraçava enternecidamente sua filha. Descobrira eu que, por detrás da aparente severidade de meu tio Joaquim, se ocultava, afinal, uma santa alma…

(continua)

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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