Uma palavra de homenagem ao Senhor Professor José Hermano Saraiva, no dia da sua condecoração com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique

Neste dia simbólico, em que pagamos renovado óbolo a Luso, e em que, do mesmo passo, recordamos o poeta inspirado pelas Tágides, trovador inigualável da singular epopeia portucalense, cujo fado também passou, afinal, pela Diáspora, pelo desbravamento de distantes paragens, como o vieram a fazer tantos outros nossos compatrícios a quem, igualmente, esta data é, por direito, consagrada. Neste dia simbólico, dizemos, cabe sempre uma natural comemoração do sentimento de portugalidade que, maugrado a época infausta que vai tolhendo a esperança no porvir, é sempre chamado à colação pelas frágeis cordas do coração, que invariavelmente tangem de apego profundo à terra de nascença. Ocorre, ainda, relancear os olhos pelo conjunto de personalidades que é de praxe serem distinguidas nesta data, porque dia azado para o reconhecimento de quem, de várias formas, contribuiu para o progresso do país. Neste sentido, permita-se-nos realçar, salva a vénia devida às demais entidades de que neste excurso não curaremos, a figura do Senhor Professor José Hermano Saraiva, hoje distinguido com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, a quem, infelizmente, a doença não possibilitou estar presente nas cerimónias solenes do Dia de Portugal.

Foi esta condecoração, na verdade, um acto de elementar justiça, um reconhecimento de muito relevantes serviços prestados ao país, pois que de alta monta se perfilou o contributo do Senhor Professor José Hermano Saraiva à historiografia nacional do último século.

Já de há muito vimos dizendo que as gerações hodiernas acusam assombrosa ausência de conhecimentos históricos, ignorando a existência de marcas fundantes do passado nacional e internacional. Nem sequer nos referimos à obnubilação de datas, de cognomes de monarcas, etc. Aludimos – o que é ainda mais preocupante – à falta, que se pressente amiúde, de uma estruturação pessoal da evolução sinóptica do país e do mundo. De facto, urge, a qualquer cidadão de mediana craveira, conhecer os quadros elementares do devir histórico, não só de Portugal, como dos demais pares na cena internacional, pois que só assim se alcançará satisfatória compreensão dos matizes com que, actualmente, a realidade se colora a nossos olhos. Sem conhecer o passado, não se afigura possível uma conforme intelecção do presente. E, sem esta, a estruturação do futuro manqueja, caminha sem norte por veredas esconsas, ao cabo das quais nem uma centelha esperançosa tremeluz. Numa palavra: só é pensável construir o presente e começar de assentar os alicerces do porvir se se perceber como aqui chegámos, porque somos como somos, e de que guisa poderemos, virtualmente, evoluir.

Queremos, com tudo isto, afirmar que o conhecimento – por mais elementar que seja, posto que necessariamente sólido e coerente – da História é absolutamente fundamental à formação de qualquer cidadão activo e interventivo no seio da societas em que se insere. É imperioso levar a História ao público, difundir o conhecimento de antanho, auxiliá-lo na percepção mais acurada da realidade. E foi, precisamente, a esse trabalho hercúleo, mas de altíssimo mérito, que o Senhor Professor José Hermano Saraiva consagrou grande parte da sua vida.

Quem não rememora, gostosamente, programas televisivos como O Tempo e a Alma, Gente de Paz, Horizontes da Memória ou A Alma e a Gente? Peregrinando pelo país e por paragens do estrangeiro, trazia o Senhor Professor José Hermano Saraiva à consideração dos telespectadores, cativados pela limpidez da sua exposição ática e plena de sapiência, todo um manancial de saber, de cultura, que desbravava, efectivamente, sempre renovados «horizontes» à «alma» de uma «gente» que requestava mais conhecimento da realidade histórica, e que escutava, atentamente, as excelsas prelecções de tão talentoso Mestre. Estávamos, indubitavelmente, perante um Professor, que muito bem desempenhava o seu mester – como, ademais, o fez também no ensino oficial, durante largo tempo, colhendo justificados encómios de seus antigos discípulos.

Mas em muitas outras áreas se destacou o génio activo e empreendedor do Senhor Professor José Hermano Saraiva. Exerceu múltiplas funções públicas, com o mais alto sentido de responsabilidade e empenho. Foi advogado renomado, havendo cultivado superlativo prestígio profissional.

Da sua vasta obra, ressalta à vista, claramente, o contributo legado à investigação historiográfica, onde pontificam inovadoras e bem fundadas interpretações de momentos capitais da nossa História, bem como toda uma reelaborada consideração da vida e obra de Camões. De resto, bastar-nos-ia apenas citar um dos seus livros mais célebres – a História Concisa de Portugal, texto de consulta imprescindível a quem quiser almejar uma nítida visão de conjunto da História Nacional. E não ignoramos, por outra banda, a sua produção jurídica, onde descobrimos títulos de tanto mérito como O problema do contrato, bem como o recente O que é o Direito?, por onde, segundo cremos, perpassa uma pertinente consideração do jurista (maxime, do julgador), não como mero subsuntor, como simples elaborador de silogismos ferreamente apegados à textualidade da norma dada, mas como vero aplicador do Direito, que parte da norma para alcançar, considerando a mais ampla extensão do sistema jurídico em que se insere, a solução que se perfila mais adequada ao caso decidendo (paradigma que, achando algum arrimo no nosso Código Civil de 1966, e tendo vindo a ser também cultivado, ao longo dos últimos anos, por vária doutrina, se reconhece ser, quiçá, o mais conforme à realidade dos nossos dias, conferindo ao jurista-julgador um activo papel na construção do Direito).

Releve-se-nos toda a fraqueza do nosso estilo, que é manifestamente claudicante para exaltar os méritos do Senhor Professor José Hermano Saraiva, hoje condecorado, no Dia de Portugal, desse Portugal cuja História tão notavelmente ajudou a divulgar e em que, por mérito próprio, conquistou o seu lugar. Fique, pois, o nosso humilde, mas sincero, preito de homenagem.

 

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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Uma resposta a Uma palavra de homenagem ao Senhor Professor José Hermano Saraiva, no dia da sua condecoração com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique

  1. jsola02 diz:

    Excelente texto e mais do que justa homenagem a um mestre que soube divulgar a nossa História de maneira tão magistral. O senhor professor José Hermano Saraiva fica para sempre gravado na nossa memória como um grande vulto deste nosso tão triste tempo. OBRIGADO PELO TEXTO!

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