«Terras de São Cosme» (I)

À memória de meus antepassados… de «Terras de São Cosme».

1.º CAPÍTULO

Era em 1870.

Janeiro. Mês frio e seco por excelência, nestas paragens da serra altaneira. Estamos não muito longe do seu ponto culminante, e o frio corta-nos as fauces, que se enrubescem. O vento fustiga as árvores e os animais. Há dias, caiu um nevão. Os caminhos ainda estão plenos de neve, e as terras têm de ficar aguardando tempos de melhor augúrio.

Nas pequenas ruas de São Cosme, pouca gente se vê. Todos estão em casa, tentando encon­trar agasalho bastante com que façam frente ao frio inclemente. Apenas o Joaquim da Marcela se aventura a dar uns passos cá fora. Traja a sua samarra nova, que a comprou na romaria do Senhor da Agonia, no Verão passado. Teve de poupar uns bons cobres para lograr tal brinde, mas diz que foi dinheiro bem gasto. Anda ali que nem um fidalgo, ele! Deve querer comparar-se ao Snr. Figueira… Sim, que este, sempre que vai à vila tratar dos negócios, veste-se de forma imacu­lada, fazendo-se, invariavelmente, acompanhar de uma pasta preta, onde reúne os documentos que lhe serão precisos.

O Joaquim da Marcela é foreiro de uma das terras do Snr. Figueira, sita à Regada. São terras boas, onde há milho em quantidade abun­dante. A Tia Josefina Forneira costuma a dizer mui­tas vezes:

– Aquelas terras até davam de comer a toda a gente aqui da aldeia…

Mas não se podem queixar do Snr. Figueira. Proprietário abastado, representante de família antiga e respeitada na paróquia de São Cosme, ele paga bem aos trabalhadores e é generoso. Dá fartas esmolas aos pobres. Todos lhe têm grande venera­ção.

De resto, posso atestar pessoalmente o que digo, pois que o Snr. Figueira era meu tio… Farto da boémia estudantil de Coimbra, que havia cultivado largamente desde que transpusera a augusta Porta Férrea da velha Academia, formei a resolução de visitar este irmão mais novo de meu pai, único parente nosso que ainda vivia no berço serrano. Em boa verdade, eu nem sequer o conhecia muito bem. Apenas o havia visto umas duas vezes, lá por nossa casa de Lisboa. Rememoro claramente uma delas. Era ainda petiz. Brincava no chão de tábuas, jogando pequenos berlindes. Meu pai suspendeu-me a partida para me dizer:

– Cumprimenta teu tio Joaquim, que ontem chegou da Beira.

E eu, pequenito, fiquei a olhar, pasmado, a figura daquele homem alto e forte, de aspecto circunspecto mas, ao mesmo tempo, jovial, que me estendeu a sua mão ampla. Deu-me um shake-hands sincero, esboçou um sorriso e logo passou à sala de jantar. Era pes­soa muito simpática e loquaz. Possuía um apreciá­vel sentido de humor.

Pois meu pai, desesperando-se pelas minhas andanças na cidade do Mondego, que me fizeram, na altura, atrasar os estudos de Direito, propôs-me que fosse passar uns tempos à serra, para visitar o bom tio Joaquim Figueira e, enfim, para ganhar algum tino, ao contactar com uma realidade tão diferente da que havia vivido na capital do Reino e em Coimbra. Afigurou-se-me plausível o alvitre. E lá estava eu, jovem estudante, de pouco mais de vinte anos, desterrado naquela pequena aldeia, postada no cerne da imponente serrania…

Meu tio ficou muito satisfeito quando rece­beu a nova da minha vinda, contanto que reprovasse a minha estúrdia em Coimbra. Mas ele sabia ser com­placente. Mandou a criada, a Maria de Jesus, prepa­rar-me o melhor quarto da casa. A gentil senhora, que contava obra de trinta anos de idade, arrumou a minha indumentária no pesado guarda-fato e colocou veneráveis peças de linho na cama – herança já remota de nossas pren­dadas antepassadas, que dominavam todo o pro­cesso de feitura de tais peças. E lá estava eu, em terras de São Cosme, aldeia fragmentada em duas metades por uma ribeira, marco separador do «povo de cá» e do «povo de lá».

Na verdade, estes dois «povos» tinham suas quezílias. Os de cá gabavam-se de ser a cabeça da paróquia, até porque tinham a igreja matriz em seus domínios. Os de lá ripostavam, dizendo que aquela metade já fora vila, em tempos arcaicos. Até lá tinham um Largo da Vila – ora, se existia tal cousa, era porque houvera vila… Tratavam o «povo de cá» por «quinta», o que fazia acirrar os ânimos deste lado da ribeira…

A casa de meu tio achava-se na Tapada, local onde, de resto, se não viam muito mais habitações. Ali, estávamos rodeados de matas. Era um sossego. A Maria de Jesus até dizia muitas vezes à Antónia, sua mana e colega de serviço:

– Ai, Antónia, isto é uma paz! Quási dá para andar em combinação lá fora, que ninguém nota… Parece uma quinta…

Bem, era pouco verosímil que algum dia a Maria de Jesus se lembrasse de andar em combinação pelas ruas, ainda que fosse só ali na Tapada… Nunca vi, em toda a minha existência (que vai já longa!), mulher tão beata! Vivia imersa em ladainhas e pedidos de perdão a Deus. Rezava muito, num latim mais macarrónico do que o de alguns meus colegas de curso. Apesar disso, meu tio gostava dela. Nunca pensou em dispensá-la.

E era assim que se processava a vida na casa do Snr. Figueira. Este passava os seus dias, ou na vila, onde tinha, amiúde, de tratar de negócios, ou nas suas propriedades, a falar ao pessoal da lavoura. Gostava muito de prosear com os seus conterrâneos, e estes tinham sempre grande satisfação em poder palestrar com ele. Era um tipo singular, meu tio…

Bom, e lá estava eu na rua, no Cimo do Povo. Era o centro de São Cosme, com um punhado de casas e a igreja. E ali avistei o Joaquim da Marcela, tentando andar por entre a neve. Cumprimentei-o:

– Deus Nosso Senhor lhe dê muito bons dias, Joaquim.

O meu interlocutor, baixinho e risonho, res­pondeu-me fraternalmente:

– Que Deus o abençoe, senhor doutor.

– Então, saindo à rua com esta invernia?

– Oh, senhor doutor, tenho de ir dar de comer ao porco, que ele, depois, é que nos há-de dar de comer a nós! Vou ali à loja, p’ra modo de lhe arranjar a vianda.

– Mas o tempo vai bem rigoroso, hem?

– Ah, quisesse Deus que nos chegasse um diazinho de soalheiro… Ou até de chuva, vá, mas bem bonda a neve que já caiu!

E ficava a mirar o céu, com ar pressagiador. De supetão, vá de perguntar-me:

– Então e o senhor doutor, o que anda fazendo por estas bandas?

Respondi-lhe com placidez:

– Olhe, vim apanhar ar, mesmo tendo caído este nevão. Meu tio disse-me que ficasse em casa, mas gosto de ver esta paisagem. Lá por Lisboa e por Coimbra não se vê disto…

O Joaquim da Marcela fez uma carantonha, reprovando o meu passeio em tempo hibernal. E rematou com isto:

– A gente da cidade lá tem umas manias esquisitas… Bom, vou à minha vida. Deus o aben­çoe, senhor doutor.

– Fique com Ele, Joaquim.

E continuei caminhando. O Adro, largo contíguo à igreja, estava deserto. Toda a gente se havia recolhido a suas habitações. Cheirava a lenha queimada, e o fumo das lareiras subia, em turbi­lhão, para o céu. Junto à paróquia, naquele largozi­nho fronteiro, pontificava uma augusta carvalha, agora despida da sua costumeira folhagem. Dessas imediações vi vir a Carma do Manel da Cruz. Moça jovem, ainda, e muito desembaraçada. Contudo, uma inelutável mancha de tristeza lhe tomava todo o gesto, conferindo-lhe um semblante sofrido. De facto, vivia amargurada. O marido, o tal Manel da Cruz que lhe emprestava o nome, fora degredado para a África havia dois anos. Numa contenda de taberna, desentendera-se com um cantoneiro de Vila Nova e assestara-lhe uma navalhada nas tripas, que o prostrara. Nem o seu arrependi­mento ulterior nem, tão-pouco, a sua tenra idade amoleceram o coração do juiz. Degredo em Angola. Não mais se soubera do seu paradeiro.

E vinha apressada, a Carma. Caminhava lesta, de pés descalços sobre a neve gélida. Dei-lhe os bons dias. Ela retorquiu:

– Bons dias também para Vossoria. Como vai Vossoria, mai-los seus? Deus Nosso Senhor os abençoe. Vou-me recolher a casa, que esta invernia até afugenta as almas!

Continuei andando, mas um arrepio de frio me fez tomar o caminho de retorno à residência de meu tio. Quando lá cheguei, tossia convulsiva­mente. A Maria de Jesus logo se afligiu:

– Ai, que o menino Albertinho vem consti­pado! Eu logo o preveni de que não saísse à rua. E com esta neve, valha-me Deus!

Aconselhou – quási ordenou, pois que os seus conselhos mais se nos afiguravam inexoráveis ditames… – que me deitasse, e, pouco tempo corrido, foi levar-me um chá de hortelã-da-negra, fumegante, e uns biscoitinhos.

– Agora, veja lá se descansa, menino. Ai, credo, que doudice sair com um tempo destes!

Meu tio surgiu pouco depois. Perguntou-me se estava melhor. Eu respondi-lhe com um inopi­nado ataque de tosse. Perante isso, apenas acres­centou:

– Vejo que já aí tens com que te entreter… Bem, repousa um pouco e aproveita para cultivar o espírito. Lê os Sermões, que tão bem fazem à nossa retórica…

E depôs, na minha mesa-de-cabeceira, um exemplar de Vieira, autor que ele apreciava suma­mente. De seguida, retirou-se. Ia à cozinha, avaliar em que ponto estavam os preparos do almoço.

(continua)

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Sem categoria. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s