Breve apontamento sobre o Dia Mundial do Livro

Assinalou-se, em 23 do mês corrente, o Dia Mundial do Livro. E, a propósito de tal efeméride, seja-nos permitida, posto que com alguma indisfarçada extemporaneidade, uma singela nótula reflexiva.

Na verdade, a relevância e pertinência das considerações que, em torno de tal assunto, possamos expender é por demais evidente. Diríamos mesmo, sem grandes cuidados de cair em exagero, que o livro é, por mérito próprio, a mor marca fundante da nossa civilização.

Foi gigantesca conquista (rectius, criação) humana, a da escrita! Marco perpetuamente admirável, e que, afinal, permitiu à espécie de que fazemos parte alcançar a sua maior aspiração: a eternidade. Pela escrita, pela consignação simbólica do seu pensar, o ser humano logrou perpetuar-se ad aeternum, coisa que, de outro modo, não seria pensável. A actividade redactiva, imbuída da sua intrínseca pessoalidade, é, podemos afirmá-lo, o testemunho mais profundo que um homem pode deixar no mundo.

E quem não quer, de facto, legar a outrem o seu testemunho? Salvo raras excepções, quási todos almejamos, neste nosso diuturno périplo pelos caminhos da existência terrena, fundar a nossa marca distintiva, aquilo que fomos capazes de idear, de sintetizar, de cristalizar a partir do nosso percurso. Repetimos (com risco, embora, de cair em uma dispensável lapalissade…) algo que todos intuímos: cada indivíduo é único, singular e irrepetível. Ora, se é assim, e se, como cremos, toda a vida humana, ainda que a mais cravejada de abrolhos, faz algum sentido, e se de cada um de nós é possível extrair algum contributo, muito pessoal, para uma melhor e mais nítida intelecção do sentido último da existência e do mundo (tarefa, esta última, sempiternamente constituenda…), perfila-se de inteira conveniência (mais: de absoluta importância) a positivação da natural súmula dessa experiência ontológica em um suporte que a perpetue, que a mostre aos vindouros, para que estes, fundados em experiência passada, possam, por sua vez, redigir a página que lhes está destinada no sempre inacabado livro da Humanidade.

Livro – eis a palavra-chave que subjaz a tudo quanto vimos de dizer. O livro é, de entre os múltiplos suportes da experiência e do saber humanos, o que, porventura, melhor logrou, ao longo das veredas alcantiladas (permita-se-nos a linguagem levemente vítor-huguesca) da História, desempenhar a função primeira de transmitir informações e conhecimentos, de ensinar, de formar, de indicar caminhos, de fornecer bases de sustentação de posteriores desbravamentos científicos e culturais. O livro recolhe a precipitação do saber acumulado, multissecularmente, pelo Homem, e vai curando da sua transmissão, geração após geração, com todos os aditamentos e reformulações a que, por virtude das melhores compreensões fenomenológicas sempre possibilitadas pelo correr dos tempos e ínsitas ao natural carácter deveniente da espécie humana, se haja de proceder.

Louvemo-nos, uma vez mais, no exemplo das gerações precedentes. Certamente nos será de fácil rememoração o cuidado com que nossos antepassados manuseavam um livro, e os conselhos que, em idêntico sentido, recebíamos, quando ainda petizes e em idade pouco apta a perceber, com a nitidez que, a posteriori, se impõe, a razão de ser destas coisas. O livro era tido em alta conta: era objecto de valor, quási de veneração. Mas era, também, um amigo, um bom amigo, professor e conselheiro, farol guiando o leitor nos trilhos do porvir.

O encanto de que, por estas e muitas outras razões, um livro se reveste justifica o sentimento prazenteiro que, invariavelmente, o sujeito experimenta sempre que folheia uma publicação impressa. O toque das folhas de papel, os caracteres ordenadamente dispostos, o caudal de conhecimentos ali contidos, convidando à sua exploração… E, se a livros de antanho nos reportarmos, destrinçaremos as folhas amarelecidas, o canto da página meticulosamente dobrado por quem o leu antes de nós (o que, não raro, nos leva a interrogarmo-nos sobre quem teria sido o prévio leitor, e qual a sua intenção ao salientar determinada passagem do texto), a assinatura manuscrita, em esbelto cursivo, de um nosso venerável avoengo…

De tudo isto nos permitimos concluir que o livro foi, e será sempre, uma marca característica da nossa cultura, da nossa identidade civilizacional. Como tudo e todos, também ele devém, também ele se modifica, também ele se adapta às constantes vagas da História. Mas, como, igualmente, em nós sucede, a essência, a raiz, recolhendo sempre pequenas impressões dessas novas vivências, não se aparta nunca da sua matriz definidora e verdadeiramente ímpar e singular.

 

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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