Uma pequena experiência poética: «Pensamento»

Partilho, hoje, com os nossos estimados leitores esta pequena incursão por mim efectuada, há já algum tempo, nos domínios do texto poético, onde a poucas experiências me permiti ainda, porque mais ocupado em cultivar a narrativa em prosa. Porém, certos dias de maior inspiração são sempre susceptíveis de levar-nos a tentar novos caminhos. Se consegui fazê-lo razoavelmente ou não, a crítica o dirá.

 

«Pensamento»

À luz mortiça da candeia,

Fitando o papel alvacento,

Bailam-me sonhos na ideia,

Vagueia meu pensamento.

Vislumbro um sonho irreal,

Floresta de viço exuberante,

Ténue visão, afinal,

De realidade assaz distante.

Mas continuo percorrendo sem cessar

As veredas desse idílico mundo,

Ao cabo do qual venho a achar

Cintilações dum olhar profundo.

Vulto de beleza etérea,

Vivo louvor à formosura,

De gesto rosado, tez cérea,

Sorriso benévolo, de candura.

Quem seria tal anfitriã

Daquele Éden isolado?

Por certo admirável guardiã

De tão belo tesouro sagrado.

E pelos caminhos fui seguindo

Minha simpática companheira,

Até que estacou, sorrindo,

Ante cristalina ribeira.

Contemplando as águas serenas,

Tomando certo ar de tristeza,

Me contou, então, suas penas,

Em relato de grande singeleza.

Seu amor houvera partido,

Para a guerra fora pelejar;

Saindo duma contenda ferido,

Perecera em noite de luar.

Ficara a formosa donzela

No mundo desprovida de amor;

Caiu o desgosto em sua face bela,

Seu coração tolhido de dor.

Preces instantes a Deus dirigiu

Para que o sofrimento lhe aplacasse;

Prestes Ele a ouviu,

Providenciou para que em paz ficasse.

Fez-lhe Deus mercê daquele paraíso,

Onde está ela agora morando.

De seu amado vê ela o sorriso

Nas águas que correm, cantando.

Tudo ali evoca com saudade

Memórias ternas do passado,

Duma doce felicidade

Passada junto do seu amado.

E em isto ela me contando,

Em sua face pungente lágrima caindo,

Me disse estar já chegando

O momento em que o sonho é findo.

Tornei à minha existência;

Sobre o papel, uma poesia inacabada;

Recobrei minha consciência,

Evolara-se o sonho em nada.

Mas minh’alma diz, lá no fundo,

Que não é o sonho acabado.

Poderá a gente sonhar, neste mundo,

Ter um amor a nosso lado?

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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