Um conto inédito: «A esmola» (Parte III)

(continuação da Parte II, ontem publicada, e conclusão do escrito)

Entrou-se, assim, na época da bonança. Joaquim viveu razoavelmente, complementando o diminuto vencimento de operário com umas gratificações que lhe ia o Snr. Doutor dando, pela sua fidelidade. A Júlia teve dois meninos. Iam ficando bonitos e crescidos, eles! De vez em quando, visitava os sogros. Gente boa, gente amiga. Velhos que já haviam labutado muito na vida, e que nada mais queriam a não ser paz e sossego, e uma palavra amiga. Em certas alturas, Joaquim pensava: seus pais como estariam? Pensava. Mas nunca achou resposta. Nem sequer teve coragem para voltar à aldeia. Era um passado distante, mas tão distante, que se já nem fazia lembrar. Quando, embora raramente, a Júlia puxava o assunto, vá de espetar duas bofetadas na esposa, para lhe recordar que aquele era tema proscrito. E ela calava-se.

E ganhava manias, o Joaquim! Já não queria frequentar a tasca de outros tempos. Pavoneava-se em cafés de nível um pouco mais elevado. Mandava talhar uns fatos ao alfaiate. Não eram fazendas de grande qualidade, mas davam para mostrar figura. Aos domingos, ia passear com a mulher e a filharada (e, por vezes, com os sogros também). De cabeça bem erguida, incrivelmente jactante, lá ia ele, o camponês de outrora, de dedos enfiados nos bolsos do colete. Quando se lembrava, vá de mostrar as manápulas, onde reluziam incontáveis anéis, com e sem pedra. Era um nababo! Na fábrica, o patrão tratava-o com afabilidade. Seus colegas é que lhe não dirigiam palavra. Acoimavam-no de judas, de traidor, de velhaco.

Assim se foi passando o tempo, risonho, prazenteiro, com ceias de Natal bem opíparas e umas idas à praia, até que bateu à porta da fábrica de conservas certa senhora. Era a crise. Falava-se de crise para tudo. Era a crise das subsistências, era a crise da banca, era a crise social, era a crise geral! Os operários andavam apreensivos. Já sabiam no que aquela conversa da crise iria resultar. Mas mantiveram-se expectantes.

Pouco tempo depois, numa manhã de nevoeiro cerrado, chegou o Snr. Doutor à fábrica, taciturno, mais do que soía ser. Arengou uma série de coisas. A redução dos lucros, a necessidade de reestruturar a produção, a racionalização de serviços e mais argumentos correlatos. Depois, nomeou uns quantos empregados e mandou-lhes que passassem no escritório, a fim de receberem o montante a que ainda tinham direito, após o que deveriam arrumar as botas. Estavam despedidos.

Pois chegara a crise à fábrica, e em grande força! Nos dias subsequentes, continuou o patrão a mandar gente para a rua. Dizia que o dinheiro não chegava, que as pessoas não compravam os produtos, não havia outro remédio… Joaquim, embora apreensivo, manteve-se quieto, na sua simplicidade. Até que o azar também lhe bateu à porta. Ao fim de mais uma jornada de trabalho, o Snr. Doutor, no modo costumado, foi ter com ele:

– Ó Joaquim! Anda cá, homem! Tenho de falar contigo!

Lá foi o Joaquim, fiel servo, sempre pressuroso.

– Que deseja Vossência?

O Snr. Doutor lhe disse, então:

– Ouve, Joaquim, tu és um grande amigo, uma pessoa a quem eu, enfim, devo muito! Mas não posso ter-te cá, homem! A vida está má! Tens de te ir embora! Eu dou-te aí uns contos de réis, não muitos, claro, mas que podem servir para arranjares a tua vida…

Joaquim ficou aterrado. Ir embora! Ser despedido! Nunca tal pensara! Não, nada disso! Ele, que tão bem servira o patrão, ser escorraçado do seu ganha-pão! E o automóvel? E a praia? E a cabeça erguida? Mas a decisão era inflexível. E, com a resignação própria dos fracos, Joaquim aceitou a miserável indemnização proposta pelo Snr. Doutor e saiu.

Foi como se um fosso houvera sido cavado na sua vida. Não logrou arranjar trabalho. A crise andava minando tudo. Faltava o pão para pôr na mesa. As crianças passavam fome. Os seus fatos, outrora tão augustos, andavam rotos e sebentos. Nem tinha sequer uns cobres para ir ao café, nem mesmo à tasca! Fora derrotado!

A Júlia cansou-se da situação. É bem sabido que, em casa onde o pão escasseia, o conflito germina e frutifica. Houve grandes discussões no seio do casal, até que a mulher resolveu pegar nos meninos e ir para junto de seus pais. Quanto ao sustento, logo se veria. Qualquer coisa serviria. Mais tarde, viria a retomar o seu antigo posto de criada externa, na residência dos viscondes. Ver-se-ia aflitíssima para criar os filhos, mas logrou fazê-lo. E com que sacrifício!

Joaquim, e Joaquim? Viu-se só. Desempregado e sem dinheiro, teve de abandonar a casa onde residia. Vagueou pelas ruas. Vegetou na miséria. Converteu-se em andrajoso pedinte, que rogava a caridade de uma esmola. Alguns seus antigos colegas conseguiram encontrar trabalho. Quando por ele passavam, cuspiam-lhe em cima. Chamavam-lhe bufo, troca-tintas. Desprezavam-no.

Num desses dias de penúria, foi Joaquim até um dos cafés da cidade. Estavam lá figuras abastadas, conversando. Talvez lograsse algum dinheirito com que matasse a fome, cada vez mais penosa de suportar. Acercou-se de uma mesa. Reconheceu alguns dos indivíduos que se lá achavam. Um deles era o Snr. Doutor. Tentando encontrar algum resto da amizade de antanho, interpelou-o:

– Snr. Doutor, Snr. Doutor! Faça-me a caridade de uma esmolinha!…

O Snr. Doutor mirou Joaquim com asco. Até lhe disse, com mau modo:

– O que quer você daqui?

– Uma esmolinha, Snr. Doutor. Eu tenho muita fome…

O Snr. Doutor, com expressão enfastiada, meteu a mão ao bolso do casaco e de lá tirou qualquer coisa. Depositou a dádiva na mão do indigente esfaimado, dizendo-lhe:

– Tome. Banqueteie-se.

Joaquim mirou, incrédulo, aquilo que lhe fora dado. Uma castanha! Uma castanha! Os convivas do Snr. Doutor riram a bom rir desta pilhéria. O mendigo fugiu, desesperado.

Foi o golpe final na fraca têmpera daquele pobre homem, que viera da sua aldeia por entre montes, com uma trouxa plena de esperanças, e que provara o gosto da derrota. Abatido, deixou-se cair numa esquina. Pouco tempo depois, estava morto. Sua mulher ainda foi chamada a reconhecer o cadáver. Muito embora se houvessem separado, não deixou Júlia de ter um pouco de piedade cristã, fazendo o enterro do desventurado marido. No mesmo dia, falecia o Snr. Doutor, vítima de apoplexia.

FIM

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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