Um conto inédito: «A esmola» (Parte II)

(continuação da Parte I, ontem publicada)

No dia imediato, de barba feita e pequeno-almoço tomado, foi Joaquim a uma das fábricas de conservas. Havia-lhe constado, por nacos de conversa apanhados ao acaso na sua ainda curta permanência na grande cidade, que eram precisos braços para o labor. Assim, apresentou-se bem cedo, à hora da entrada do pessoal. Os outros operários, envergando os seus fatos de ganga, miraram com estranheza aquele zé-ninguém que se ali perfilava. Quem seria ele, o campónio?

Joaquim deixou entrar toda a gente. Entrou também. Lá dentro, ficou pasmado. Uma grande área coberta, pouco arejada, quási tão escura como o seu quarto na pensão. Máquinas em grande quantidade, gente que trabalhava duramente. Era aquilo a vida da fábrica! Ao tomar contacto com tal realidade, pensou para consigo que pouco diferia aquilo da labuta do campo. Talvez fosse o trabalho do operário até mais fatigante. Bem, a necessidade a tudo obriga. Vamos lá falar com quem manda aqui.

E quem mandava ali? Por ímpeto, dirigiu-se a um sujeito que mirava a maquinaria e lançava ríspidas reprimendas aos trabalhadores. Estava de fato claro e gravata, fumando um venerável cachimbo. Deveria ser o patrão. Acercando-se dele, vá de perguntar-lhe, no seu estilo brejeiro:

– Deus Nosso Senhor dê muito bons dias a Vossência. Desculpe-me o incómodo, mas eu queria perguntar a Vossência se é aqui que aceitam pessoal para o trabalho. É que eu venho da aldeia, e Vossência sabe: tenho de trabalhar, p´ra modo de ganhar o meu. Um homem tem de pôr pão na mesa, não é assim?

O senhor do cachimbo, soltando uma baforada que fez tossir Joaquim, retrucou, com aspereza:

– Mas quem é você? Quer trabalhar?

Joaquim, meio atrapalhado, disse:

– Pois eu queria, sim senhor…

– Então, pode começar. Vista a sua farda e vá ali até àquelas máquinas. O pessoal lá lhe diz o que há-de fazer.

O nosso personagem não percebeu lá muito bem, ficando pasmado, a contemplar os gestos snobes do patrão. Este impacientou-se:

– Mas você quer trabalhar ou não, homem?

– Pois queria, sim senhor…

– Então, faça o que eu mando! – berrou-lhe o patrão.

E lá foi. Joaquim da Cruz. Operário. Vestiu o fato de trabalho e foi. Acercou-se da máquina, dos colegas. Estes olharam o caloiro com malícia. Toparam, pelos modos atabalhoados e pelo paleio simplório, ser novato, sem experiência. Vai daí, pregaram-lhe uma série de partidas soezes. Vai para ali! Não, não é para aí! Ah, seu pedaço de asno, não compreendes as ordens mais simples! Faz isto! Não, não é isso! És uma cavalgadura!

Aquele dia, o primeiro dia, parecia não ter fim! Os seus pares riam a bom rir, troçavam do recém-surgido truão. O Snr. Doutor – sim, era de tal guisa que nomeavam o patrão, o do cachimbo fumegante – exasperava-se. Começava a desconfiar do acerto da sua contratação. Afinal, era um campónio, sem conhecimentos de nada! Ah, rapaz, és um incompetente!

À noite, estirando-se no hediondo catre do ascoroso quarto da sua horrível pensão, Joaquim matutou no seu destino. Que grande topada! Que grande topada! Tanto quisera viver na cidade que, agora, vivia lá e sentia-se como num inferno! Ah, razão tinha sua mãe! Sua mãe! Como estaria ela, mai-lo seu pai?

Chorava, então. De saudades. A aldeia, as casinhas de granito, os montes envolvendo as vidas das gentes, a ribeira cantando hinos à natura, a igrejinha alva e a carvalha do adro, as moçoilas vindo da fonte com os cântaros por sobre a cabeça, os pastores guardando as ovelhas, levando-as além, muito além, até aos altos da serra! O coruto do Monte das Faias, que os velhos diziam quási tocar no céu! O «Tio Joaquim da Passarela» cultivando a terra e desfiando na tasca o seu rosário de imprecações contra tudo e todos! Os seus irmãos, entregues à vida da lavoura! E ele, condenado ao degredo, a uma vida ingrata, tanto ou mais do que aquela que lhe estaria destinada na sua aldeia!

Mas os dias foram passando. Joaquim foi aprendendo. Ignorava as pilhérias de alguns colegas recalcitrantes. Se fosse caso disso, esperava-os cá fora, já noite caída, e pregava-lhes uma malha de fazer arrepelar os cabelos! Fez amizades. Não recusava o tinto na taberna próxima, ao fim da jornada de trabalho. Conhecia já a cidade como a palma das mãos. O salário era uma miséria, uns poucos de escuditos, que escorriam por entre os dedos das mãos calosas. Mas davam para o bagaço e para o tabaco. Ah, e para a pensão, para pagar a antipatia da D. Anunciação e a comida sórdida que lhe ela apresentava todos os dias.

Veio um belo dia, um desses dias que têm o condão de transformar a nossa vida por completo, em que Joaquim casou. Casou, sim. Casou com a Júlia, menina prendada, que era criada externa dos senhores viscondes. A cerimónia foi linda. Pobre, mas linda. Os patrões da noiva até foram complacentes para com ela: ofertaram-lhe o fato de saia e casaco (sim, que o vestido era só para as nubentes ricas) e um pão-de-ló para o banquete. Banquete? Umas batatas com bacalhau, uma modesta dose de carne e vinho para todos. O pão-de-ló serviu de bolo. Convidados? A família da noiva e uns colegas de Joaquim. A família dele? Sabe-se lá…

Mas o Snr. Doutor também foi generoso para Joaquim. Notara neste um ingénito carácter submisso e obediente, um servo fiel. Fizera dele seu criado. A um mando do Snr. Doutor, lá ia o Joaquim descarregar camionetas de carga. A uma simples palavrinha do Snr. Doutor, lá ia o Joaquim limpar determinada secção. Outra coisa: Joaquim fizera-se bufo. O patrão sabia, com grande certeza, que havia trabalhadores subversivos no seio da sua massa laboral. Precisava de um espião infiltrado que colhesse tais informações e lhas transmitisse. E quem melhor do que o campónio? Pois. Joaquim, com uma ingenuidade atroz, chegava ao fim do dia com um relatório pormenorizado:

– O Alfredo disse que Vossência era um grande patife, e que havia de ajustar contas com Vossência. O Serafim andou a dizer que Vossência havia de lhas pagar. O Mário…

E assim se processou uma autêntica purga no seio da empresa. Os elementos indesejáveis, captados por Joaquim, foram afastados. De nada adiantaram lamentos, choros, pedidos de clemência, mães exibindo seus filhinhos, coitaditos, que morreriam à necessidade! O Snr. Doutor era inexorável.

E Joaquim passou a ser o fiel cão de guarda do patrão. Os outros colegas já andavam paleando sobre isso. Conversava-se em surdina. Dardejavam-lhe olhares ameaçadores, irados. Até os compinchas do copo na taberna do Fontes se arredavam da sua companhia. Joaquim não percebia lá muito bem o porquê de tudo isso, ainda envolto na sua simplicidade sem par. Em contrapartida, andava feliz. A Júlia ia ter menino lá para Janeiro. E o Snr. Doutor, todo simpático, ia dar-lhe uma casa no bairro operário que a empresa andava construindo. Sempre era melhor do que um quarto de pensão…

(continua)

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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