Um conto inédito: «A esmola» (Parte I)

Aquando da publicação da minha antologia de contos Retratos Dispersos, dois textos houve que decidi, então, excluir do âmbito de tal obra, por se me não terem afigurado merecedores de honras de consagração em forma impressa. Porém, e porque me penaliza sobremaneira a ideia de escrever algo que nunca virá a ser lido, decidi dar nova oportunidade a essas experiências literárias, posto que, como disse, o seu resultado me não satisfaça inteiramente. Um desses contos tem por título «A esmola», e é a sua primeira parte que, agora, aqui deixo consignada:

Joaquim da Cruz era operário. Sim, operário, um dos muitos que formavam a massa informe de trabalhadores de uma reputada fábrica de conservas, algures em uma cidade marítima da nossa terra.

Nem sempre se dedicara àquele mester, o nosso Joaquim. Nascera nas altaneiras serranias, em que os montes se alevantam imperiosos, os pinheiros cobrem a paisagem, as águas cintilam e se espraiam pacientemente pelos córregos singelos. Sua família abraçara, desde tempos imemoriais, a lavoura. Vida dura, vida ingrata, vida escrava, a do campo! Naquele clã, que, por cada geração, se multiplicava imensamente, parecia existir uma força incógnita e férrea que destinava a priori todos os seus elementos a abraçar aquele modo de vida. Nenhum buscara outro ofício. Nascia-se, crescia-se e, quando se já podia fazer alguma coisa, ia-se amanhar a terra.

Foram progenitores de Joaquim o Snr. Duarte do Rosário e a Snr.ª Alexandrina Alves, mais conhecida, na sua terra natal, pelo epíteto de «Tia Alexandrina do Magalhães», em uma clara alusão a seu saudoso pai, o «Tio Magalhães». Nunca o povo a tratara por «Tia Alexandrina do Duarte». Nanja! Muito pelo contrário, o Snr. Duarte é que, não raro, era chamado de «Duarte da Alexandrina»… Bem sabia o vulgo quem verdadeiramente mandava naquela casa!

Duarte e Alexandrina tiveram sete filhos. Sete filhos, número de bom augúrio, ou talvez não… Dois faleceram ainda muito novos, com a tísica, que os não poupou. Os restantes foram destinados, quási maquinalmente, como se fora corolário natural da sua proveniência familiar e geográfica, à agricultura. Cultivavam terras aforadas, em que, quando o fim do mês batia à porta, lá ia a parte de leão para o senhorio, ficando os foreiros com as migalhas da pobreza… Havia algumas honrosas excepções à regra, é certo: alguns senhorios eram assaz justos e complacentes, tratando com muita justiça quem para eles trabalhava. Mas contavam-se pelos dedos esses exemplares proprietários. A grande maioria assim não era, e nesse número se contava o patrão deste casal: o Snr. Rodrigues, que se comprazia em passar largas temporadas em Lisboa e em passear-se pela povoação com uns modos afidalgados que lhe não eram conaturais. Tinha um não sei quê de truanesco, de caricatural. Tipificava excelentemente uma sociedade que quer parecer o que não é, e que, ao tentar fazê-lo, exagera, cai no erro, não parece bem. Enfim…

Bom, dizíamos que os cinco filhos sobreviventes do «Duarte da Alexandrina» e da «Tia Alexandrina do Magalhães» se dedicaram às coisas agrícolas. Não, não foram cinco. Foram quatro. Houve uma voz dissonante que se ergueu impetuosamente, uma ovelha negra e rebelde neste rebanho que não admitia outro ofício que não fosse aquele. Essa voz foi a de Joaquim da Cruz.

Franzino, não muito forte, de aspecto doentio, mas com alguma aptidão para o trabalho braçal, Joaquim sentiu impender sobre si o dever de dar novo curso à epopeia da sua família. Não se conformava com um cenário sucessivamente repetido, geração após geração. Ouvira testemunhos de pessoas que haviam optado por rumos distintos, que haviam elegido a grande cidade como poiso de habitação e trabalho, e que, pelas notícias – nem sempre fidedignas, no entanto… – chegadas dessas terras de longe, haviam logrado uma vida assaz superior. Não faltava até quem, distorcendo bastamente essas novas – cujo portador era sempre incógnito… – dissesse que a cidade tinha coisas e loisas de pasmar. Falavam em edifícios altos, em carros modernos, em tascas com bom vinho – sim, que não aquela zurrapa do Narciso do Passal! -, em um sem-número de maravilhas consteladoras dos mais doirados sonhos de qualquer homem.

Isto foi ele remoendo na sua cabeça, dia após dia, noite após noite… Quando vinha da extenuante jorna e se sentava à mesa, numa periclitante cadeira, a fim de tomar o caldo, não comia… Ficava longo tempo a matutar, a matutar… Sua mãe, a venerável «Tia Alexandrina do Magalhães», logo dizia:

– Ah, meu filho, que ensandeceste! Pois ficas-te aí, que nem parvo, a olhar para as moscas? Come mas é o caldo, senão esfria!

E ele comia. Comia e continuava ruminando maquinalmente aquelas ideias. Congeminava cenários venturosos. Começaria como operário, ascenderia célere no seio da empresa, lograria, quiçá, um bom ordenado. Até poderia conseguir um automóvel! Sim, era mister arranjar a trouxa e partir de uma vez!

Quando, finalmente, Joaquim tomou coragem e expôs o seu brilhante plano a seus pais, foi como se houvera caído o mundo na pequena casa daquela família! O «Duarte da Alexandrina» lamentava-se, levava as mãos ao céu, perguntava a Deus por que sorte haviam de ter tido um filho assim. A «Tia Alexandrina do Magalhães» prestes o esbofeteou.

Perante tal desdita, outra saída não restou ao pobre rapaz que não fosse uma fuga furtiva, na calada da noite. Ei-lo, de sacola ao ombro, onde reunira os poucos pertences que lhe eram adstritos e algum dinheiro arranjado – migalhitas, apenas… –, rumo à cidade grande.

Ao cabo de alguns dias de caminhada, e de mil peripécias entretanto vividas, lobrigou o viandante certa cidade litorânea, de próspera indústria. Foi tentar sua sorte.

De início, tudo se lhe afigurou grande: os prédios, os jardins, os mercados, os carros que circulavam nas estradas, a multidão que, em turbamulta, ocupava os passeios. Ao longe, estava o mar. O mar! Nunca o houvera ele visto! E que bonito era o mar! Tão límpido, tão cristalino, tão harmonioso! As ondas descreviam movimentos donairosos, conferindo encanto àquele cenário. Mais além, o céu azul! O sol, irradiando sua energia sobre a terra! Por contraposição, as fábricas, as grandes fábricas! Gigantes mecanizados, labutando em um descomunal esforço, soltavam para o espaço grossas fumaradas, algumas de alvo aspecto, outras negras como a negra vida!

O novel povoador daquela metrópole sem nome desconhecia tudo. Ah, que diferença, que diferença face à sua pequena aldeia, por entre os montes! Aí, todos se falavam, posto que, em alguns casos, não fossem cógnitos uns dos outros. Mesmo assim! Davam a salvação. Podiam não saber que aquele era o Joaquim e aquela era a Amélia, mas não recusavam os bons-dias. Era um resquício, quási esbatido, de confiança e respeito pelo semelhante. Na cidade, nada disso havia! Os transeuntes passavam e andavam, pouco lhes pesando na consciência o facto de haverem ignorado um magote de pessoas, de homens, homens como eles, e a que lançavam o mais fundo desprezo!

Tentou Joaquim pedir, por obséquio, o endereço de uma pensão, onde se pudesse acoitar. Pois ninguém lha prestou! Todos se recusavam a dirigir-lhe a palavra! Tinham mais que fazer! E foi ele, tombando aqui e acolá, que topou com um estabelecimento desse género, ao cabo de uma ruazinha estreita. A dona da pensão era uma matrona carrancuda, de gesto austeríssimo. O nosso personagem perguntou-lhe se tinha quartos. Ela contrapôs-lhe uma outra pergunta:

– Tem com que pague?

Joaquim, o pobre Joaquim, depôs-lhe, sobre o tampo do balcão da recepção, um molhinho de notas, quási todas as que trouxera consigo, e que compunham o seu mísero pecúlio. D. Anunciação (tal era a graça da patroa) contou, com um dedinho sôfrego, aquela resma de papel-moeda, e, constatando que, para entrada, não estava mau de todo, deu ao seu mais recente hóspede a chave do pior quarto da casa. Era um autêntico tugúrio, pequeno, sem janelas, apenas com um leito de ferro e uma mesinha onde o caruncho lavrava desde longa data. Mas, para um modesto homem da aldeia, estava bastante razoável, pensou ela. Ele pensou o mesmo. Acendeu a vela e desembrulhou a trouxa. Arrumou os parcos pertences com método. Deitou-se e divagou.

(continua)

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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