O fim da História?

Tal é a interrogação que nos assoma à ideia quando atentamos no que a seguir vai descrito.

Efectivamente, e a darmos atenção a certos rumores que, com insistência, aqui e ali vão pululando, foi o 1.º de Dezembro último o derradeiro (perdoe-se-nos este quási pleonasmo) que mereceu o estatuto de feriado nacional.

Se assim se confirmar, mal estaremos.

Em boa verdade, não podemos deixar de antolhar a possível supressão de tal feriado como uma punhalada – e bem profunda e mortífera! – que se estará fazendo na memória colectiva do nosso povo.

É sabido que a névoa do tempo tudo faz olvidar, e que, modernamente, muitos cidadãos se vão esquecendo de marcos fundantes da nossa História. Ouve-se dizer: «já foi há muitos anos»; «isso já lá vai»; «isso já não interessa nada». São respostas desta índole que devem fazer preocupar qualquer pessoa minimamente conscienciosa.

Pois são efemérides como o 1.º de Dezembro que constituem a nossa identidade enquanto país livre e verdadeiramente autodeterminado. O movimento dos conjurados de 1640 foi um grito de libertação, o coroamento de uma luta aturada contra a opressão. Constituiu-se, enfim, como uma perenal página de liberdade e de justiça.

Perante este facto, de per si insofismável, pergunta-se, muito legitimamente: será lícito, do ponto de vista cívico e moral, abolir as comemorações, em tempo côngruo, de uma data tão marcante?

Respondemos, por nossa banda: não.

Tal abolição, a concretizar-se, será mais um triste sinal dos tempos nebulosos que vão correndo. Será a confirmação de que a História vai perdendo sentido para muitas pessoas, de que o passado do seu país pouco ou nada lhes diz. E isso é preocupante, muito preocupante!

Numa altura em que, com alguma justeza, se apela à união dos portugueses no sentido de ultrapassar uma crise de dimensões ainda não completamente cógnitas, é alarmante que, por outro lado, se vá condenando irremediavelmente a História ao seu sepultamento em cova fundíssima. O caminho não é este! O caminho certo é o diametralmente oposto: promover a divulgação do significado histórico e cívico de datas como esta, difundir o conhecimento dos mais importantes feitos do passado colectivo, fomentando, por essa via, um sentimento sadio, nunca exacerbado, de identidade nacional e de civismo e apego à liberdade e à justiça, valores que impregnaram amplamente os sucessos de 1640.

Valem estes fundamentos, mutatis mutandis, para o 5 de Outubro, de cujo «apagamento» do calendário se tem já, também, falado.

E nem se diga que tal modificação não acarretará qualquer prejuízo, com a deslocação das comemorações para o domingo subsequente à data em que se assinalariam os feriados. É evidente a falência de um tal argumento. Basta que reflictamos sobre se alguém gostaria de comemorar o seu aniversário uma semana ou um mês depois da data em que o mesmo se completa. Perde-se, quási por completo, o simbolismo e a pertinência da comemoração.

Não é pela extinção de feriados tão simbólicos que a situação melhorará. Ao invés disso, dever-se-ia promover um adequado incentivo ao esforço colectivo, com a fundamental premissa de este ser devidamente recompensado. Para isso, muito contribuiriam o conhecimento e a divulgação dos feitos maiores da nossa História, que os tivemos, e que muito nos devem orgulhar, servindo de inspiração para a construção das vigas sobre que assentará o porvir. Mas parece que assim se não fará. E um país que não constrói sólidas bases fundadas na experiência passada conhece um presente muito alquebrado, e um futuro tristemente incerto e penoso.

 

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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Uma resposta a O fim da História?

  1. jsola02 diz:

    Meu caro: é preferivel passar temporáriamente um feriado para um fim de semana completamente inócuo em termos produtivos, proceder na data certa às comemorações oficiais, e, mais tarde, quando a economia o permitir, recuperar o feriado, colocá-lo de novo na data correcta, do que simplesmente o anular. Depois todos os feriados são importantes; não existem cidadãos de primeira e cidadãos de segunda, e assim também sucede com os feriados. Eu não sou religioso e respeito os feriados religiosos; é que outros são aquilo que eu não sou, e têm pleno direito a serem como são. Quanto á recuperação de Portugal só e apenas depende do Povo. É a cabeça do Povo, são a força das mãos do Povo, é o seu sentir, a sua inteligência colectiva, a sua Intuição, a sua Alma que podem banir deste País, expulsar desta terra, os tipos que, nomeados ministros num periodo em que a nossa Indepêndencia treme, chegam de lambreta ao ministério e saem à noite ao volante de um automóvel de alta cilindrada e topo de gama, ou as tipas, (no meu parecer fedelhas ainda, com os coeiros agarrados ao rabo), que exigem que o sacrificado Povo lhes pague avião entre Paris e Lisboa, possivelmente não apenas de manhã e à noite, mas, talvez também para irem almoçar a casa… É tudo isto e muito mais, como cortar rendimentos a quem já não se pode defender, recusar assistência médica a doentes nos hospitais públicos, tentar calar os que tentam dizer as Verdades ,com baboseiras sem nexo. O Portugal de todos nós foi-se e já não existe; talvez que esperou tempo de mais pelo D Sebastião, o Rei prepotente e estupido que na verdade não passava de um tipo mediocre, um ditador de meia tijela! Se queremos Portugal, temos bom remédio: recorrer às armas e Reconstrui-lo a partir do zero!

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