JÁ QUE TANTO SE FALA NA LIBIA…

Enfim, o senhor coronel Kadhafi está apeado do poder para finalmente ter um merecido descanso. Sim, porque ser ditador também deve ter os seus males de vida, que o digam certos chefes de família pelo nosso país fora!
Mas, como tudo na vida, é indispensável uma certa dose de experiência sobre coisas, pessoas, e até países, para se falar com algum conhecimento, ainda que muito modesto. Pessoalmente nunca estive na Líbia, mas tenho conhecimento com gente que por lá andou a ganhar a vida.
Quando um nosso compatriota – chamemos-lhe Amadeu, nome fictício – chegou ao país, (então pertença do senhor coronel,) encontrou uma terra com certa sofisticação, no que respeita à organização e respectivos métodos. Para quem ia para permanecer em trabalho, os passaportes ficavam cativos, à guarda das autoridades de fronteira, e só eram devolvidos na altura do regresso, por motivo de férias ou termo do contrato de trabalho.
O nosso amigo entregou o passaporte a um senhor funcionário público comodamente sentado no chão numa sala de dimensões médias, e com total ausência de móveis. O dito funcionário deu-lhe uma senha com um número, e colocou o passaporte em cima de uma das várias pilhas de passaportes, que estavam espalhadas pelo chão. Bem, quanto a mim, até aqui, tudo bem, é de louvar a simplicidade dos métodos, e acima de tudo a louvável economia que os mesmos representam. Já viram se fosse uma das nossas repartições, as burocracias, os formulários a preencher, o devassar a vida íntima de cada um, o recurso a pessoas especializadas para preenchimento dos formulários, as despesas com que não se contava, o tempo perdido, (e tempo é dinheiro, em especial para quem trabalha), as preocupações, será que o passaporte não se perde na imensidão dos arquivos repletos de prateleiras a abarrotar com passaportes? Por lá não! Que simplicidade nos métodos. E simplicidade significa eficiência, sabiam?
Quando terminou o contrato de trabalho, o nosso amigo Amadeu voltou à sala para resgatar o passaporte, entregou a senha, até esse dia religiosamente guardada e fechada a sete chaves. O funcionário procurou, procurou, tanto e por tanto tempo em todas as pilhas de passaportes que, a páginas tantas, também perdeu a senha, e aí, sem número, bom, nada feito! Como se encontra um passaporte bem arrumado no seu respectivo sitio, sem uma senha com um número de referencia? É evidente que não se encontra!
O nosso amigo Amadeu viveu ano e meio no país enquanto o esforçado funcionário continuou em buscas incansáveis, e como havia terminado o contrato, viveu de esmolas, de cotizações feitas entre todos os europeus que no país trabalhavam para diversas empresas dos seus respectivos países, e isso, essa boa vida inesperada, deu-lhe tempo bastante para conviver com os líbios e entender com detalhe o seu modo de vida, a sua civilização.
A Líbia, segundo ele, era à data um país de gente simples e hospitaleira, educada e gentil para com os estrangeiros. Talvez por razões injustificadas, sentimentos incompreensíveis de inferioridade, por vezes fossem excessivamente simples. Mas os líbios tinham dinheiro suficiente nas algibeiras e nos bancos, Essa era uma realidade que Amadeu encontrou, e que ainda lhe rendeu algum bem-estar.
Uma parte significativa da população dispunha de excelentes carrinhas de caixa aberta onde os chefes da família usavam a cabine para eles e para os filhos varões, e na largueza da caixa a descoberto colocavam os seus pertences, a esposa, as filhas, as galinhas e as cabras, de mistura com outros utensílios. Assim era a boa vida na Líbia. Não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe, (diz o ditado); para se ter liberdade, plena, grandiosa, temos que fazer por vezes dolorosos sacrifícios. Os líbios vão a enfrenta-los de rosto erguido. São gente de coragem. Talvez que as consequências da mudança de regímen não sejam assim de grande monta. Possivelmente menos carrinhas, menos dinheiro. Um preço insignificante.
Pelo que dizem as más-línguas, trinta por cento do petróleo vai para a caridosa França, e julgo que mais quarenta por cento também já têm destino. Coisa pouca para tanta liberdade. Nada que uma motoreta de 50 c.c. não resolva a contento. Na motoreta viajam o chefe da família e os seus filhos varões, os pertences inertes fixam-se na pequena bagageira, os vivos, (a esposa, as filhas, as galinhas e as cabras), deslocam-se a correr ao lado da motoreta!
Bem aja a caridosa Europa, a ONU, a NATO, por tamanha caridade e grandeza…

Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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