Texto de “Ganância (Publicado no Sitio do Livro)

E Vito auto-criticava-se por, afinal de contas, ser tão tardia a sua descoberta dos meandros e dos esquemas que motivavam os comportamentos mentais das pessoas com quem (gostasse ou não), andava a conviver de há largos anos até à data presente; é que afinal não existiam motivos que justificassem este ou aquele comportamento, esta ou aquela reacção, um determinado estado de derrota ou de humorismo. As coisas não tinham uma razão de ser objectiva, coerente. Se lhes faltasse o peixe habitual na mesa, as causas eram atribuídas a tudo menos a uma acção premeditada que tivesse por causa maior apenas e unicamente o lucro, mas se lhes fosse interdita a prova de um determinado tipo de vinho, aqui d’el-rei, que fomos nós com as nossas mãos que o plantámos, colhemos e transportámos; aos poucos a luz estava a germinar no espírito de Cícero, uma luz ténue no seu despontar, depois cada vez mais e mais intensa, como se uma voz sem som lhe gritasse dentro da cabeça: “De tão esperto que te julgas saíste-me um grande burro!”, e ele (de raciocínio em raciocínio) percebia agora, esperava que não tardiamente, que aos empregadores daquele país, naturais ou estrangeiros que fossem, de tudo lhes era permitido, apenas (como de há muitos séculos atrás) lhes era expressamente vedado pagar às pessoas conforme as suas necessidades, mesmo que tal se justificasse pela qualidade e quantidade da produção.
Vito passou em revista todas as noticias de que se recordava (as escritas e as relatadas nos canais televisivos), e que, de algum modo, estavam ligadas à vida da economia do país; uma fábrica que não paga salários, trezentos trabalhadores com vencimentos em atraso que vão ficar sem emprego,discursos de todos os quadrantes, milhares de horas de conversação em mesas redondas ou em mesas quadradas, presidentes de Câmaras Municipais que fazem diligências, sindicatos que denunciam situações fraudulentas, mas os trabalhadores vão continuar sem emprego, é uma fatalidade feita de fados e de destinos tristes. A empresa empregadora declarou falência. Os credores dos valores das matérias–primas repartem entre si os restos da riqueza visível, e a mão-de-obra fica com os seus braços de trabalho, como é evidente,não lhes foi retirado o seu ganha-pão, como é justo a todos os títulos, das morais vigentes em quase todas as sensibilidadesdo leque patético das políticas. O facto relevante que acaba calando todas as bocas é que a empresa (ou muitas empresas) ficou descapitalizada, e sem capital não é possível pagar salários.Porque se descapitalizou a empresa? É irrelevante! O acto concreto, objectivo, a verdade que conduziu à descapitalização torna-se secundária, porque, sendo a empresa empregadora uma sociedade anónima de responsabilidade limitada, os accionistas (que não têm que ser especialistas do oficio da empresa, só lhes é pedido que disponham de dinheiro) apostaram numa administração que falhou os seus propósitos; em última instância, se um impenitente teimoso se decidira vasculhar por baixo da poeira dos arquivos das empresas falidas, ou deslocadas de um para outro concelho, por razõesde estratégia, por causas várias, por motivos de conveniência dos negócios, porque a nova sede fica mais próxima da residência do administrador principal (também temos de admitir tão inusitado caso no vasto leque das suposições),a causa mais provável encontrada invariavelmente esbarra em maleitas que são externas ao país: a crise internacional, o custo do petróleo (o que justifica o aumento sistemático do preço da energia eléctrica), o gás natural, a falta de produtividade, e tudo isto é, como sempre foi, a consequência das más práticas que nos chegam de fora (dentro das fronteiras do país só existem homens santos ao leme da governação).Sem uma energia acessível, sem um gás natural acessível, as nossas empresas não são concorrenciais; se a todo este triste rosário acrescentarmos o estranho facto de nos movermos no mundo sempre ao contrário dos ponteiros do relógio, se o países que nos compram os nossos produtos entram em crise nós não saímos da crise porque não conseguimos escoar a nossa produção, se os nossos parceiros comerciais não estão em crise nós não temos a nossa produção capacitada porque é a nossa vez de estarmos em crise (estas coisas das crises têm que tocar a todos) e, que diabo, nós, não tendo a pretensão de sermos o centro do mundo, não devemos esquecer que somos parte que está integrada no mundo.

Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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