Comentário a “Retratos Dispersos” de Diogo F. P. D. Ferreira

Como “trave mestra” da escrita é na verdade assim. Sem dúvidas, sem argumentos. Contudo, não se pode ignorar que falamos de uma actividade que, a par dos vários saberes da Ciência, se debruça sobre o ser mais complexo, mais estranho, que habita este Planeta: o Homem, e, em particular do Homem Escritor, peça rara e difícil de encontrar hoje em dia. Como disse João Lobo Antunes, em todo o mundo, por este conturbado tempo, talvez que se encontrem aí uns meros cinco escritores, daqueles que merecem um E grande e um “Muito obrigado, Mestre.” E porquê? Pergunta difícil esta! Talvez porque o escritor, (a exemplo de os outros seres humanos), na vida, passe por três estágios bem demarcados: Principio, Meio e Fim. No Principio, o escritor descobre-se a si próprio, como Homem e, principalmente, como Homem Social. È por essa altura que se encontra como principiante a escritor, por ser gente que se preocupa com os outros, que os escalpeliza com o estilete do seu raciocínio, que os classifica na medida do possível. O escritor jovem não passa de uma frágil flor que espreita o Sol a medo. Depois vai para o mundo. Na verdade não são as universidades que fazem os escritores, (embora ajudem), são as experiências da vida, os baldões da sorte, o sortilégio do sonho que esbarra na vileza do seu quotidiano. A dona Natália Correia dizia, falando de poetas: Fazem-se na fome da vida; que comam pastéis de bacalhau com copos de vinho pelas tascas de Lisboa; que trabalhem à jorna, que passem frio calcorreando as nossas ruas, que escrevam versos em guardanapos de papel, que corram os jornais a mendigar a publicação de um conto, uma crónica, um artigo. É indubitavelmente as experiências da juventude que marcam quem escreve. Vejam como as crónicas de Baptista Bastos são o reflexo da sua vida.
Mas, quando não existem jornais onde publicar contos, crónicas ou artigos, quando os críticos já não lêem, quando não andam por aí Editores em busca de talentos, quando as Editoras se venderam ao estrangeiro, quiçá ao desbarato, enfim, quando as novas gentes, ou não lêem, nem jornais, ou não trazem nos bolsos dinheiro que chegue para os livros, quando um copo de cerveja tomado num bar ou num parque permite a um miúdo de treze anos engatar e engravidar uma miúda da mesma idade, quando, por fim, já não somos mais do que uma sombra de nós, para que queremos continuar a ser gente?
Afinal não passamos de marionetas articuladas por cordas puxadas pelos novos donos do Mundo…

Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
Esta entrada foi publicada em Sem categoria. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.