Do livro “Histórias vividas em prosa”, de Marifelix Saldanha

– NÃO POSSO DIZER ADEUS –
As folhas desfalcadas pela sinuosidade da ventania voavam preguiçosamente, como as penas leves e brancas dos pássaros, que acidentalmente se enganchavam nos galhos e
dispersavam as coloridas penugens. Levemente uma folha seca roçou nas minhas pestanas e com delicadeza a devolvi à natureza.
Uma borboleta cor de bonina, deteve-se para me retirar da minha total insensibilidade às retratadas minúcias imprescindíveis, à beleza da vida.
Levantei o olhar a passos leves, como se devagar subisse os degraus de uma escada. Tentei de maneira amigável desculpar-me com as ternas oferendas que se nos dá o
ambiente versátil e surreal dos campos sortidos de velhas árvores.
Árvores, mães oculares de grandes histórias e de copas e troncos já curvados pelo desgaste dos anos.
Aos poucos, entreguei-me à quietude impregnada daquele lugar.
Dentro de mim havia uma demanda de cantigas similares, acontecidas em tempos de outrora. Sentia-as plenamente e percebia até mesmo a sua cor. Era um tom verde
e que inseria no meu apetite um gosto a limão. E fazia-me degustar uma limonada que cheirava a cravo envolvido no mel.
Um som tocava serenamente os meus ouvidos, e aquela música fazia-me bem à alma.
Porque sim, era-me devido ser presenteada com “Fallaste Corazón”, ao som da Brasilian Tropical Orchestra.
Senti-me leve, pura, nada tinha a oferecer. Senti-me nua, vazia, apenas restava a minha alma que soluçava desconsoladamente um choro convulsivo.
O meu espírito mergulhava nas águas mansas de um rio imaginário.
Rio em estado arquejante e febril, de tanto escutar e ocultar confissões queixosas e tristes de sonhos interrompidos, talvez pela presença marcante do destino.
Sobre o tronco de uma árvore, caída no chão, sentei-me, e cada parte do meu corpo repelia o azul sistêmico no ar, pois ele confundia-me com aquilo que é, ou deverá ser.
Eis-me, portanto, confusa, mais emotiva que racional.
Pensei: “Será pois, o momento certo?”
Não, não estou ainda preparada para me ir embora.
Por isso:
Ainda Não Posso Dizer ADEUS!

(Do livro “Histórias vividas em prosa”, de Marifelix Saldanha)

Sobre Marifelix Saldanha

Graduada em Letras - Português e Literatura da Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás. A autora dedicou-se durante muito tempo ao ensino do Português e da Literatura Brasileira e Portuguesa. Marifelix é brasileira, maranhense e escritora. PUBLICAÇÕES: Livro – A META É CHEGAR (uma versão filosófica sobre a síndrome do pânico em forma de poesias) – publicado em Brasília-DF-Brasil, em 1994, Editora Pegasus. Livro – HISTÓRIAS VIVIDAS EM PROSA (narra fatos do cotidiano de algumas cidades da Europa de forma leve e despretensiosa) - publicado em Lisboa-Portugal, em 2011, Editora Sítio do Livro. Livro – UM AMOR LILÁS (um pequeno romance em que o contexto gira em torno de uma divagação sobre o amor que buscamos como sendo destino ou uma simples coincidência) lançado na Bienal do Rio de Janeiro - Brasil, em 2014, Editora All Print. Livro – CONTOS E REFLEXÕES (relata em forma de contos introspectivos angústias intermitentes e momentos de esperança. Pequenas histórias exploram pensamentos, sentimentos e divagações ao longo de um processo de autoconhecimento e de superação diária) - publicado em Brasília-DF-Brasil, em 2017, Editora All Print. Livro – COMO LIDAR COM A DEPRESSÃO? (O livro “Como lidar com a Depressão?” está direcionado não tão somente para os que sofrem desse mal, mas também, a todas as pessoas que convivem com os depressivos. Este livro busca abordar formas de como o depressivo pode lidar com a presença constante da doença, sem entregar-se ao desespero, sabendo refletir com equilíbrio as suas crises e o seu estado físico e emocional face às mesmas, investigando, ainda, as razões introspectivas que o levam ao sofrimento pânico ou ao estado impotente e desolador, tão próprios da doença em todas as suas dimensões.) - publicado em São Paulo - Brasil, em 2020, Editora Chiado Books (disponibilizado para venda no Brasil e em Portugal). Além de livros, publicou também contos, crônicas e poemas sobre temas variados em jornais do Centro-Oeste.
Esta entrada foi publicada em Sem categoria. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.