Sobre o 5 de Outubro e «O Morgado Republicano»

Passam hoje cento e um anos sobre a revolução republicana de 1910, a qual, para além de haver produzido a modificação do regímen político em Portugal, trouxe consigo um sem-número de mutações a todos os níveis.

Na verdade, com o 5 de Outubro, o país viu alterada a rota da sua História, ante a dissolução de uma Monarquia plurissecular e o advento de uma República que se anunciava promissora e idealista. Novos projectos, ideias de mudança, sonhos, utopias, tudo isso povoou largamente o pensar republicano que presidiu à revolução.

Um longo caminho foi percorrido pelos apoiantes do ideal republicano até ao almejado clímax dos seus esforços. Incontáveis abrolhos lhes cobriam os caminhos, e a vitória pareceu, por diversas vezes, mera ilusão. Mas, afinal, veio a confirmar-se como realidade bem presente, constantemente se afirmando até aos nossos dias.

Também se afigura inegável o importante papel desempenhado pelo mais directo fruto da revolução de 5 de Outubro – a Primeira República, evidentemente –. Maugrado a turbulência própria de um período pós-revolucionário, em que, no horizonte pautado por negras nuvens de incerteza, apenas uma luzinha ténue de redenção alguns podiam divisar, nobres vultos houve que, com assombrosa coerência e dignidade, cimentaram uma posição de destaque no seio do novo regímen. Nem tudo foi instabilidade na Primeira República – houve progressos, notórios e bem-vindos. Relembre-se, sobretudo, e em jeito de profunda homenagem, o quanto se fez em prol do ensino, mormente das primeiras letras. Apraz-me citar um exemplo de modernidade, desavisadamente extinto pouco depois do 28 de Maio de 1926: o Ensino Primário Superior. Numa época em que, via de regra, apenas se podiam conseguir estudos liceais nas capitais de distrito, o que a bolsa de muitos portugueses não lograva comportar, a criação de Escolas Primárias Superiores em diversos concelhos do país foi um passo em frente rumo ao progresso. Com um programa formativo bastante abrangente, permitiram tais instituições levar uma instrução mais desenvolvida a quem por ela buscava, mas cujas possibilidades pecuniárias de, após a conclusão do Ensino Primário Elementar, vir a estudar num liceu eram quase nulas. Os governantes de então compreenderam esta última realidade, e a necessidade premente de dilatar a instrução e a cultura. O Ensino Primário Superior fica, sem dúvida alguma, como uma das mais nobres e lúcidas realizações da Primeira República.

Porém, não quero espraiar-me muito mais nesta breve recordação do 5 de Outubro de 1910. Creio que as minhas palavras são grandemente insuficientes para evocar tudo quanto há a evocar, e para homenagear o muito que há para homenagear.

Apenas queria aludir, porque vem a propósito, à minha modesta obra O Morgado Republicano. Trata-se de uma novela, narrativa ficcionada, que, no entanto, procura passar em revista, ainda que a fugazes pinceladas, o longo caminho que o movimento republicano houve de percorrer até à coroação dos seus esforços. Tenta-se dar um retrato geral da realidade portuguesa nos últimos anos do século XIX e nos primeiros anos do século XX, ao mesmo tempo que se alude a marcos históricos de inquestionável importância. Polarizando toda a acção em torno de si, a personagem principal, D. José Augusto, fidalgo abastado a quem o curso da vida faz republicano convicto, conduz-se sempre com dignidade e constância nas suas opções, nos rumos que para si traça, naquilo que pretende constituir uma evocação de vários membros do movimento republicano que, de idêntica forma, sempre se afirmaram pela sua coerência, rectidão e elevada estatura moral.

Assim, é com muito gosto que formulo aos benévolos leitores o convite de se debruçarem sobre este meu livro, o qual, muito embora padeça, certamente, de inúmeros defeitos e imperfeições, é um preito sincero àqueles que, com denodo, fizeram o 5 de Outubro, e a quem hoje presto, aqui, uma renovada e sincera homenagem.

Diogo Figueiredo P. D. Ferreira

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Uma resposta a Sobre o 5 de Outubro e «O Morgado Republicano»

  1. jsola02 diz:

    A seu tempo a desilusão aumenta no nosso País. Não e apenas sobre os ideais da República, mas de igual modo sobre todos os ideais que elevam e dignificam os Homens. Na verdade, estamos a perder aos poucos tudo o que tivemos de bom; estranho e bizarro que assim aconteça sobre a égide da República!

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