A CRÓNICA DO SEM INTERESSE…

A CRÓNICA DO SEM INTERESSE…
Alguém disse por aí que eu sou “Um sem interesse.” Finalmente, que grande verdade, embora, no meu modesto parecer, julgue que esta tão necessária e oportuna frase não se aplique ao “meu todo.” Vou tentar mostrar-me às fatias, e começo exactamente pela mais fácil, a física.
Sou gordo em baixo e magro em cima, (literalmente pareço-me com um sempre em pé), sou cegueta por via de ser um alto míope desde nascença, devido à má nutrição e aos maus tratos vindos da ignorância, e do não “saber como tratar uma criança” e, após a operação feita já “com os pés para a cova,” quando ponho os óculos de ver ao perto, para ler e escrever, fico tão feio que digo aos poucos amigos que ainda estão vivos, que não posso sair à noite porque o escuro assusta-se! É por isto que não gosto de me ver nos retratos. Detesto retratos. São supinamente estúpidos e desagradáveis. Pum aos retratos! (Isto no sentido de tiro de pistola). Há! Já me estava a esquecer, por mor de uma doença profissional também cuspo para o chão. Na rua, está bem de ver. Se fizesse em casa apanhava da patroa que nem sempre compreende tudo. É uma chata, a patroa, é como todas as patroas afinal, segundo os meus amigos, homens casados.
Bom, no meio desta “desgraceira” toda, (ainda a procissão vai no adro), deve de existir alguma coisa que valha a pena. Tenho um péssimo hábito, é que, embora não pareça, gosto das pessoas. E nisto pareço-me com os cães vádios e os outros, todos os cães, (até os policias), e isso, estou bem ciente, é um mau e incorrigível gosto.
Bom, passemos adiante. Se o mundo se divide entre pessoas e suas respectivas vidas, classificadas como Sem Interesse, ou como Com Interesse, o mesmo é dizer esquerda e direita, então eu tenho duas histórias para contar. Uma deu-se no tempo em que as galinhas “ainda tinham dentes,” reparem, aos anos que foi, para cima de cinquenta. A outra é recente; terá, não mais de quinze dias. Vamos à primeira:
O jornalista Contreiras, amigo da velha guarda, por roda das onze da noite, entrou na farmácia de serviço, a saber da última palavra dos cremes e das loções para antes e depois do barbear, ou mesmo para alimentar a pele durante o sono. O seu “Calcanhar de Aquiles” passava por parecer bem aos outros, em particular às senhoras. Um dia, anos depois, apareceu com a cara cheia de borbulhas, (mas isso é outra história), e como nunca mais se decidia, o farmacêutico foi atender uma cliente recem chegada. Uma mulherzinha modesta, não digo (pela descrição que na altura me fizeram), andrajosa, mas para aí caminhava. A pequena senhora procurou por determinado medicamento, e o balconista foi ver do remédio. Voltou com a embalagem. A senhora diz: “Só quero tantos comprimidos, porque são os que o médico indicou, e porque não tenho dinheiro para mais.” Ao que o empregado responde: ”Não vendemos comprimidos avulso. A lei não o permite!” A senhora chora, conta a sua vida. O farmacêutico olha para o Zé e encolhe os ombros. Aí o Zé decide agir. Pega na caixa e diz: “Olha que engraçados, como eles fazem estas caixas tão bonitas!” Abre a caixa, tira parte do conteúdo e, depois de contar os comprimidos, entrega a parte solicitada à senhora. “Aí tem, minha amiga, espero que o seu rapaz melhore.” O farmacêutico, altamente zangado, grita: “O senhor não pode fazer isso!” “Pois não, mas já fiz. Olhe, só pago os comprimidos, não pago a caixa. É que não venho prevenido com dinheiro que chegue. Por favor, chame a polícia. Sabe, eu sou jornalista, e esta história dá um excelente artigo!” Responde o Zé…
Na segunda história, as coisas, sendo diferentes, também nos dizem o mesmo. No telejornal passa uma notícia sobre uma manifestação de vinicultores. Os ânimos estão exaltados. Um homem diz: “Por culpa do sistema perdi tudo o que consegui amealhar nos quinze anos de emigração! Agora só me resta voltar para a França ou para a Suíça!”
Em ambas as histórias estão em confronto os Sem Interesse contra os Com Interesse. Os primeiros sofrem, os segundos, aparentemente, fornecem a dor. É sempre assim desde o inicio dos tempos. Mas, às vezes trocam, ou por cansaço, ou por tédio, ou por outra coisa qualquer. Talvez que a camisa de forças da Lei passe a prisão perpétua. Não sei, mas sei que mudam. Os de baixo passam para cima, e os de cima passam para baixo. Os Sem Interesse de ontem são os Com Interesse de hoje, ou vice – versa.
Não terá chegado o tempo de o mundo arranjar um meio-termo, um compromisso, uma verdade composta pelos melhores “meio termos” de ambos os lados? Não sei, e quem sou eu para saber alguma coisa?

Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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