Acha-se em mim profundamente arreigada a convicção de que a literatura, tal como a música ou a arte, deve servir uma função social. A toda a obra literária deverá subjazer um fim, um objectivo. E aí se insere a crítica social.
Na verdade, o texto literário constitui uma excelente forma de estudo da estrutura da sociedade, dos seus caracteres mais marcantes, podendo e devendo, então, contribuir para assinalar os seus defeitos e, decorrentemente, para propor soluções de mudança. Não se trata de apontar um dedo acusador a este ou àquele sujeito, mas sim de nomear vícios universais da sociedade do nosso tempo, e de que nós somos, também, parte constituinte.
Uma das mais eficazes e incisivas formas de efectuar-se essa crítica é, precisamente, o recurso aos tipos sociais, condensando, em uma só personagem, os múltiplos vícios de que enferma certa classe ou categoria social. Diversos autores da nossa literatura o fizeram. Citemos dois, e em épocas distintas: Gil Vicente e Eça de Queiroz. Como sabemos, ambos retrataram, com grandíssima fidelidade, a sociedade em que viviam, e a sua magistral crítica de costumes veio a afirmar-se de perenal validade.
Em tudo isto busquei inspiração para o meu modesto trabalho «Retratos Dispersos». De facto, cada um dos contos que compõem a obra é o retrato de uma personagem – personagem-tipo, bem entendido, representativa de diversas características comuns a muitos de nós. Tenta-se, de tal modo, efectuar uma espécie de «auto-retrato» social, crítico e abrangente. É certo que, na grande maioria das situações, o enredo propende para a evocação de épocas passadas, recuadas no tempo. Não obstante, isso apenas visa fazer revivescer certas marcas históricas, com uma nostalgia não exagerada. Tal característica em nada macula o intento fundamental do livro, pois que as situações descritas poderiam, no essencial e mutatis mutandis, desenrolar-se nos nossos dias.
De resto, e ressalvando novamente o facto plasmado na «Nota Prévia» desta obra (os últimos quatro contos foram produzidos em alturas diversas, pelo que lhes falta a unidade estilística patente no conjunto dos primeiros nove textos), a mesma acusa alguma influência literária de textos de Eça de Queiroz, Júlio Dinis e Camilo Castelo Branco, que foram, consabidamente, destacados contistas. E a opção pelo conto como género narrativo pareceu, no caso, adequada. Por meio de histórias breves, consegue-se transmitir a mensagem exacta que às mesmas inere, sem diluições narrativas. Não prejudicando o necessário pendor literário, o conto tem essa apreciável potencialidade: é mais directo e eficaz na expressão do pensamento do autor. Eis a razão que explica tal configuração da obra, que, assim, mais não é do que um álbum de… «retratos» sociais, «dispersos», que o leitor é convidado a folhear e a analisar criticamente.
Diogo Figueiredo P. D. Ferreira


