Mertre marceneiro

Das minhas andanças pela vida, ainda rapazola, passei pela oficina de mestre marceneiro, ou mestre Luís para os aprendizes, e para os amigos.
Mestre Luís tinha uma pequena oficina numa garagem de rua, dessas que têm apenas uma entrada e saída, sendo necessário passar atravessando o empedrado do passeio, e, se de carros fosse o movimento, e não de pessoas, tinham de vencer o abaulado do lancil de pedra, com cuidado na manobra, por ser rua com certo movimento. Para os amigos, sempre à espera da sua presença na mesa do café, onde se encontravam em tertúlia, se a isso ele se mostrasse disponível, o silêncio impunha-se na mesa, depois de espreitar os ocupantes das mesas ao redor, e se os rostos não fossem de preocupar, a rapaziada nova assistia, com pasmo de aluno, ao desfiar de uma soberba aula sobre temas de política e de comportamento social, e de respeito entre os homens, dada graciosamente, e com gosto de narrador instruído sobre todos os temas sociais possíveis de descortinar, no vasto reportório de tais assuntos criado pelo imaginário humano.
Em outras alturas de noites quentes, logo que bebericado o café, acompanhado de conversa frívola para consumir tempo, o grupo punha-se a andar, avenida para cima, avenida para baixo, ou sentados no banco curvo sob o mural de azulejos da autoria de mestre Cargaleiro, no velho jardim que ainda hoje lá está, ele que pode confirmar as andanças do grupo pela noite adentro, noite que mesmo amodorrada pelas horas tardias, dava a entender que não perdia pitada da conversa, pela forma como as horas badalavam de muito em muito tempo, batidas pelo badalo do campanário da igreja.
O grupo compunha-se por gente aprendiz, ou já mestre em alguma arte; Tínhamos um pintor, um ceramista que nem sempre estava presente, um cantor lírico, um jornalista e um escritor, e depois uns tantos rapazes interessados em tais assuntos, também eles mestres de variados ofícios. Não havia raparigas, nem uma sequer, para dar gosto aos olhos e algum tempero à alma. Em tal época as raparigas não eram flores da noite. Eu, nessa altura, era o mais jovem do grupo, catorze anos feitos pelos idos do mês de Julho, e interessado em tudo o que fosse conhecimento.
Hoje já se pode dizer do que falava mestre Luís, porque, mesmo que alguém se incomode, não vem daí qualquer mal ao mundo. As pessoas de hoje já tem o direito à sua opinião, ao seu gosto, é uma questão que vem da sensibilidade de cada um.
Mestre Luís falava, afinal e simplesmente, de tudo o que aprendera na universidade do Tarrafal, nessa ilha do Sal perdida algures fronteira à costa de África, por entre as névoas do oceano, pedaço de chão deserto gasto pelas brumas do tempo perdido, onde os portugueses de ontem estabeleceram os seus entrepostos da escravatura. E já pela madrugada em que os vivos despertam, o grupo, moído de orvalho por todo o corpo, rabos gelados do banco de pedra, alguns protegidos pelos casacos dobrados, mas com as almas alimentadas pela comida do espírito, começava a dispersar. Parvamente uns diziam boas noites, outros até à manhã, e esta forma de adeus ainda era a mais perversa, dado que o corpo carece de outro tipo de alimento, e esse só pelo trabalho do dia-a-dia o pudemos conseguir. Eu ia a casa descansar uma mão mal cheia de horas, a pensar em tudo quanto havia sido dito noite adentro, e logo me punha a caminho da minúscula oficina, de modestos concertos de móveis velhos, a bem dizer especializada na grudagem de cadeiras velhas e desconjuntadas, em rejuvenescer antigas mesinhas de cabeceira, lixar as superfícies, betumar, passar biochene com a boneca de trapo, em círculos, para evitar manchas, paciência de Jó a comandar os movimentos mecânicos e sempre iguais, que eram pedidos aos braços, e sempre a peça que fora comprada pelo falecido avô de alguém, ia a servir para o neto apetrechar o quarto em casa dos pais, para o casório, com uma peça de estalo, quer pela antiguidade, quer pelo brilho de cativar vistas.
- Ficou bonita, não ficou? – Diria a filha ou o rapazote filho para os pais.
- Sim, que ainda mete vista, e, olha, não foi nada caro. O mestre marceneiro parece que trabalha melhor sempre que trabalha para os pobres!
- Coitado, assim nunca vai passar da cepa torta!
Nunca consegui perceber de que material eram feitos os anarquistas, se de oiro, ou de metal quimeras, se de vidros de quinquilharias de montra de loja de bairro, se de puras gemas de diamante, e se na parte que toca à organização e participação das pessoas no governo das terras deste mundo, na formação escolar agrária para os trabalhadores agrícolas, na aprendizagem dos ofícios para os operários, nas escolas de saberes gerais que permitam aos homens o mínimo de cultura que lhes permita saber pensar, nas organizações de classe que pugnam pelos interesses dos diversos grupos, nas sociedades de recreio e cultura das vilas e das aldeias, nas universidades onde as classes sociais sejam uma mera consequência da vida, mas a inteligência e as pessoas em si mesmas, formem no seu conjunto o bem mais precioso do mundo, a manter e preservar por qualquer preço, e como tudo isto pode funcionar alguma vez sem outras directrizes que não, apenas e somente, o respeito mutuo entre pessoas, através de decisões tomadas em plenários públicos. Andava eu a magicar nestas e noutras coisas, quando, um belo dia de afanoso trabalho de cadeiras, mesinhas de cabeceira e um aparador velho, de tampo de mármore rachado em dois sítios, entrado dois dias antes e apresentado como o princípio dos grandes trabalhos chegados, enfim, a salvar o futuro, um dia antes da ponte com o feriado da Nossa Senhora da Assunção, o mestre e amigo Luís, lá do canto onde funcionava o seu escritório, dedo espetado no ar, a chamar a minha atenção, dizendo Camarada e amigo aprendiz, vamos a ter uma conversa séria sobre as verdades sociais da vida. E lá fui eu, três metros de garagem mais adiante, a encostar-me ao velho banco de carpinteiro de madeiras gretadas por muito já terem visto e escutado.
Mestre Luís estava do outro lado do banco, encavalitado sobre o único toro de madeira mais ou menos nobre que existia na oficina, se me lembro bem, parte de um tronco de mogno seria, que depois de morto ficou assim, daquele tamanho, um metro e quarenta, um metro e cinquenta, não mais, na agonia da espera de ser solicitado para serventia útil. E diz-me o mestre, no seu ar confidente e também de aconselhador das coisas sérias da vida:
-Camarada aprendiz, no fundo da tua consciência acredita no Deus que os padres apregoam?
Perplexo com a dimensão e o tamanho da pergunta, feita no credo de um fôlego só, pensei, pensei, e não achando bem o que havia de dizer, fiz exactamente o mesmo que faria um aprendiz de marceneiro, que fosse em simultâneo um modesto discípulo dos sonhos libertários das ideias de esquerda.
- Acredito precisamente em tudo o que vejo, que sinto, e em que posso tocar!
Depois fiquei espantado com o meu improviso. Ele olhava-me sério, mas notava-se o apreço que tinha pelo seu trabalho de formador de consciências.
- E não é possível ver esse Deus milagroso de que a igreja fala?
- Não, não me parece!
- Então, em consciência, não concordas com o feriado depois de amanhã, e não apenas por uma questão de consciência, mas também pela impossibilidade de alguém ascender a esse espaço lá de cima a que se chama céu, voando, ou simplesmente subindo?
- Não!
- Concluímos então de que nos é impossível, por imperativos de consciência, pela honestidade a que as nossas ideias obrigam, a respeitar o feriado, mas antes a contrariá-lo, vindo trabalhar!
- Essa conclusão é evidente! – Disse, ufano do meu discernimento.
- Mas, sabes, é um feriado obrigatório…
- Sei, mestre!
- Então vamos combinar uma coisa. Vamos parar com o que estamos a fazer, e vamos a ver as tarefas possíveis de executar sem ruído. Quantas cadeiras temos por aí para colar, sabes?
- Só contando!
- Então conta lá num instante!
Fui numa fugida ao outro extremo da garagem, junto à parede da casa de banho, minúscula e pouco asseada, por razões óbvias de economia forçada, tínhamos uma retrete turca, um autoclismo de parede, lá em cima, com uma corrente e um cabo a que se tinha de dar um pequeno pulo para o agarrar, uma janela gradeada que dava para o quintal da vizinha do rés-do-chão, um lavatório de parede de pequeno tamanho, equipado com uma torneira de rosca, que, quando achava que era dia de abrir, havia sempre a incógnita se estaria depois disposta para se fechar.
Lá estavam as cadeiras, na maioria estufadas, empilhadas umas sobre as outras, debaixo da única janela que iluminava a pequena oficina, e quando a nesga de Sol lhes dava, havia uma confusão de sombras misturadas com rasgos de luz dourada a esguichar por entre pernas de madeira e tampos, travessas de travamento e um ou outro pano de pó de mistura. Contei as cadeiras. Quinze!
- Nós conseguimos colar, sem fazer barulho, aí quantas, na tua opinião?
- Umas oito!
- Nem penses! Com a porta fechada, pouca luz, e os tipos a rondar lá fora? Se colarmos quatro é muito! Temos de usar os maços de borracha embrulhados em panos, não te esqueças de, ainda hoje, reunir panos e deixa-los à mão, assim como os novelos de cordel e pedaços de madeira para dar os apertos nos fios!
- O mestre pensa que vamos ser espiados?
- É evidente que sim, pelos santos da PIDE do costume. Temos de estar atentos e de quando em vez espreitar por uma nesga de porta para os localizar!
- Há aí um buraco!
- Onde?
- Na folha da esquerda, foi um nó pequeno que saltou, eu esqueci-me de dizer. Olhe, mestre, ali mais para cima!
- Tens razão! Caramba, vem mesmo a calhar! E olha que a altura não é má de todo, temos, é de nos agachar um bocado, vou ficar com dores nas costas. Fazemos assim, revezamo-nos, tu espreitas um bocado e eu espreito outro. É bom que os tipos estejam sempre sobre observação, porque os maganos são matreiros, sabem-na toda!
- O pior é se eles conseguem perceber que os estamos a espreitar!
- Rapaz, tens ideias certas! Vamos experimentar agora; fechamos esta folha da porta, eu espreito e tu passeias um bocado no passeio, assim como quem anda a apanhar um pouco de ar, e vês se é possível notar-se lá de fora!
Fez-se tal e qual como foi dito. Fechou-se a porta com as duas folhas, para evitar que a claridade do dia interferir-se com a experiência, o mestre ficou na posição de estar à coca, de pernas flectidas para conseguir uma posição de observação perfeita, e eu pus-me a calcorrear o passeio para trás e para diante, fixando a porta, com pena de, na altura, não ter olhos de águia pesqueira, porque aí, sim, a conclusão seria perfeita e indiscutível; passei pela porta uma, duas, três, quatro vezes, talvez cinco, quase roçando a folha da ultima vez, olhos fixos no sítio onde se sabia que estava o buraco do nó, depois, por um lado satisfeito pelos resultados da observação, por outro, porque dei com os olhares de perplexidade da vizinha do rés-do-chão ao lado, a fitar-me enquanto sacudia um tapete na janela, achei chegada a altura de dar a boa nova ao mestre. Bati e entrei.
- Então?
- Não se vê mesmo nada!
- Garantes?
- Claro que sim!
- Pois… é que, sabes, se calhar não viste nada porque os olhos não estavam lá!
- Então?
- É que não aguentei a posição, por ser demasiado incómoda!
- E agora?
Mestre Luís pensou um segundo, e logo decidiu.
- Ficas tu a espreitar e eu vou lá para fora!
- Como achar melhor. Mas tenha cuidado com a vizinha do lado, que está a sacudir o tapete na janela e julgo que ficou intrigada com as minhas andanças, se agora o vê a si a fazer o mesmo não sei o que pensará…
Mestre Luís abriu a porta e espreitou para o lado da janela, a modos de quem não quer a coisa, e logo disse para dentro, com ar triunfal, A senhora já foi para dentro!
Andou lá por fora bem uns cinco minutos, e depois retornou, a dizer, Tens razão, não se vê nadinha…

O dia feriado chegou, com foguetório no adro da igreja, por sinal um largo próximo, pois a igreja fica numa rua estreita lateral à câmara municipal, e assim o largo é o espaço de apoio às festividades religiosas.
Nós chegamos cedo, como se tinha combinado, um de cada vez, e deslizamos para dentro da oficina num ápice.
Sem a porta aberta a oficina mais parecia um túmulo, de tão tristonha que ficava, uma luz mortiça no alto, presa no fio eléctrico, uma nesga de claridade vinda da janela, vencida pela luz eléctrica, um cheiro desagradável a chegar constante da minúscula casa de banho. Mas como a vida do aprendiz e do discípulo carece de sacrifícios para se chegar a mestre, vamos com alegria a começar o dia de trabalho; de manhã assim cedo não é preciso estar de atalaia porque os pides são preguiçosos, levantam-se tarde, se fossem pessoas úteis à sociedade não tinham ido para a PIDE! – Disse o mestre. – Vamos aproveitar para desmanchar o maior número de cadeiras, e da parte da tarde é que as colamos.
Pusemos mãos à obra, cada qual em seu canto do banco de trabalho, martela com cuidado daqui, dali, para soltar as travessas, limpa-se os cunhos e as fêmeas onde eles encastram, coloca-se por ordem, peça a peça, no chão, sobre jornais que ali foram colocados para terem exactamente esse préstimo. Com a aplicação ao trabalho as coisas começaram a correr melhor; ao cheiro e à luz mortiça, a um adaptamos o olfacto, e ao outro a vista, e aí por roda das onze da manhã já estávamos em perfeita sintonia com semelhantes dificuldades.
Foi por volta dessa hora que espreitámos pela primeira vez a rua. Aos feriados passavam menos carros e a rua enchia-se de passeantes, nariz no ar, a apreciar as vistas das janelas, ou então fixos na meia dúzia das montras, em particular na da loja dos vestidos, as moças a ver, um pouco curvadas, os paspalhos a espreitar por de trás delas, e quase em frente, na esquina direita da pequena rua que ficava perpendicular à nossa, na taberna dos alentejanos, já as vozes dos homens lançavam no ar as soberbas melodias dos ranchos das planícies. Isso era o melhor de tudo. As vozes alentejanas, timbradas e fortes, valiam bem um dia feriado passado a trabalhar.
- Mau, começa a festa!
- Então? – Inquiriu o mestre.
- Estão dois polícias parados no passeio em frente a olhar a porta, e um paisano, polícia política, pela certa, passeia-se mesmo em frente da porta.
- Chegou a minha vez de espreitar. Havia de facto uma parelha de polícias no passeio da frente, mas fiquei com a impressão de que olhavam para todo o sítio menos para a porta. E também, é facto, havia um tipo esquisito, chapéu de abas enterrado na cabeça, cinzento com a faixa preta, fato cinzento-escuro com riscas brancas, mãos enterradas nos bolsos das calças, a andarilhar o passeio de trás para a frente, da esquerda para a direita, e de novo de trás para a frente, mas desta vez da direita para a esquerda. E aí sim, eu senti um certo arrepio a nascer ao fundo das costas, e a subir pela espinha, a refrescar e a fazer tremer o corpo todo. Olhei o mestre. E agora? Não viemos trabalhar? Então é isso mesmo que vamos continuar a fazer.
Primeira cadeira colocada peça por peça sobre o tampo do banco de trabalho. Ultima limpeza nos encaixes, machos e fêmeas. Eu comecei a passar cola branca nas peças e o mestre a encaixa-las, batendo com o maço de borracha envolto em panos, para que a entrada do macho fosse completa e perfeita. Mas, não é que a batida do maço, no espaço fechado da garagem, fazia eco? Isto houve-se lá fora! Foi a primeira reacção do mestre. Bata outra vez, pedi. Zás, pum, pum, pum. Talvez que não se oiça. Disse. Vamos a ver outra vez do homem. Fui à porta e espreitei. Lá continuava o sacana, no mesmo sítio, precisamente em frente da porta, com a mesma expressão que não era nenhuma, uma cara parada e séria, as mãos continuando nos bolsos. Mas, pensei, se tivesse ouvido não continuaria assim, passivo e parecendo desligado do mundo, unicamente concentrado em manter o mesmo ritmo pisando as mesmas pedras.
- Olhe que me parece que o ruído não passa para fora…
- Mas como é possível se faz tanto eco?
- Já pensou que é o estado de apreensão em que estamos que nos faz parecer que este eco é enorme?
- Talvez…
Deixe-me espreitar de novo o tipo! – E voltei a encostar o olho ao buraco. – Não, o homem contínua no seu passeio! Há! Espere. É isso, o homem não é nada policia. Acaba de aparecer uma senhora e lá vão os dois, de braço dado, a caminho do Pancão!
- Não me digas!
- É verdade, ora espreite lá…
- Pois, é verdade, mas olha que os outros dois continuam ali na frente!
As dúvidas e os sobressaltos de mestre Luís continuaram pelo dia fora, e ao fim, por roda das cinco da tarde, olhando a obra do dia, duas escassas e modestas cadeiras solidamente apertadas pelos cordéis, já em adiantada fase de secagem, ambos reconhecíamos que a produtividade tinha abalado para as terras da amargura, a modestíssima contribuição do trabalho do dia que, se fossem todos os dias iguais, não valia a pena sequer esperar pela falência, mais valia fechar já a porta e levar a chave ao senhorio. Desolado, mestre Luís pagou-me vinte e cinco tostões pelo trabalho do dia, à época perto de um terço do salário de um dia, e ambos partimos, cada qual para a sua casa.
Se no plano económico o nosso feito foi considerado por nós, um desastre redundante, no plano politico foi um êxito de primeiríssima água, a jóia da coroa da esquerda, se assim se pode dizer, uma coroa sem rei, como é óbvio, destronada e arquivada nos fundos da arca dos tempos, mas, que diabo, sempre uma coroa.
No resto das noites quentes do verão, foi badalado palmilhando a avenida para baixo e para cima, mas sei que também passou as fronteiras da terra, foi falado por cafés e em tertúlias de cidade grande, talvez que em algumas noites bichanado entre os quatro ou cinco da mesa, cabeças próximas umas das outras. No dia de Nossa Senhora da Assunção, vejam só, feriado sagrado do regime, que coragem e engenho não terão sido preciso, e a preparação, o planeamento, o rigor, a fortíssima convicção dos intervenientes; há quem diga que foram só dois, pois, eu sei que tal é verdade.
Para mim, simples mortal, aprendiz e discípulo, inconsciente em função da idade, um alivio por não ter corrido mal, por o tal sujeito, apesar das aparências, não passar de um pacato e modesto cidadão, apesar do chapéu cinzento com fita larga preta, do fato cinzento às riscas largas brancas, da expressão inexpressiva a ver com extremo cuidado se pisava sempre as mesmas pedras do passeio, um cidadão que sabia disfarçar a impaciência, na prolongada espera por uma esposa que não seria um modelo de consideração pelo esposo, e a sorte, a grande sorte, foi a policia politica já ignorar por completo a irreverência do velho anarquista, diriam que seria da idade, ou que a porrada que apanhou no Tarrafal lhe teria dado cabo do juízo. Como seria possível alguém querer repetir a dose, os calores da fritadeira, os esbirros Mete- Nojo e Porcalhão, escutando conversas e imiscuindo-se na privacidade da gente de bem, sonhadores solidários, de bondade canina, a pugnar por uma sociedade inculta, um povo quietinho, como Teixeira de Pascoais dizia, iletrado e mesquinho, que se deixava manobrar na fome, permitindo ao Estado Novo metodicamente construir o quarto império, vivendo das remessas dos imigrantes.
O quarto império foi construído sem que o ditador investisse um tostão furado; as pessoas fugiam, pagando aos passadores o dinheiro que fazia falta para comprar pão para a boca dos que por cá ficavam, e por terras de França, da Alemanha, ou outras pátrias, humilhavam-se a fazer todo o tipo de trabalhos não qualificados que lhes surgissem.
Mas deixemo-nos de recordar as coisas tristes. O que passou, passado está, digamos lá o que dissermos, e não vale a pena dizer nada, as pessoas não mudaram, as pessoas não mudam nunca, enjeitam os trapos velhos, sem perceberem que são exactamente iguais aos novos, de promessas de políticos está este mundo a transbordar.
Sempre a perseguir a Utopia fomos deixando os meses escoarem-se pelo funil do tempo, na pasmaceira das conversas repetidas, das noites perdidas, e o cansaço aos poucos começou a desbastar a minha convicção acerca das convicções e certezas que, na minha ingénua perspectiva, iriam a resultar num mundo melhor.
Escrevi a minha primeira história sobre uma aventura tipo Júlio Verne e calcorreei Lisboa inteira em busca de um editor que pegasse na história. Recordo o semblante das pessoas que encontrei nas editoras, ao verem um catraio com catorze anos a entrar por ali a dentro, pasta de cartolina debaixo do braço, Sou o autor desta história e gostaria de ter o vosso parecer, quanto à qualidade, e a uma possível publicação. Ao princípio as pessoas não sabiam bem o que lhes tinha caído ali na frente, diziam simplesmente: Não estamos a aceitar trabalhos, mas também me lembro daquele senhor grisalho de cabelos e com rugas marcadas no rosto, que olhando de cima para baixo, a ver bem quem ainda se estava a levantar do chão, e me disse, Filho, és de boa cepa, mas tens ainda de padecer muito na vida, os escritores são feitos pelas experiencias da vida, volta por cá daqui por uns anos. Não voltei, porque passados os anos, percebi o que é possível, e o que é impossível para os pobres fazer na vida. Das poucas coisas que nos é sempre permitido fazer é ficarmos quietos na nossa condição de pobres; pobre trabalha, e por isso não tem muita necessidade de pensar, mas se for teimoso e pisar o risco, se por mera questão de princípio, o devemos de meter na ordem, por outra, devemos ter sempre presente que a sua condição de pobre é segurança que baste para os ricos e os eleitos; é que vozes de burro nunca são altas o suficiente para chegarem ao céu e berrarem aos ouvidos de Deus.

Passados que foram meses, postos para trás das costas, em uma manhã soalheira de Abril, esse mês das águas mil que purifica o ar e enche de primavera a terra, pôs os pés na oficina ao som de uma cantiga, – era o fado do cavador, – que o mestre na sua voz sem ritmo, cantarolava junto à parte do banco a que chamava de escritório.
- Alegria no trabalho? – Inquiri.
- É, estou a adivinhar o feriado!
- Feriado? Qual feriado?
- Então não sabes que amanhã é fim de mês?
- Mas não é feriado, que eu saiba!
- Pois, claro que não é, mas que dia é depois de amanhã? O primeiro de Maio! O dia internacional do trabalhador!
- Não me diga que está com ideias…
- Se não temos capilé nas veias, mas sim o sangue de quem trabalha, é evidente que temos a obrigação de respeitar o nosso dia, não trabalhando!
- Olhe que oficialmente o primeiro de Maio não é feriado consentido em Portugal. Lembre-se que da outra vez tivemos muita sorte, e isso deve-se a pudermos ter a porta fechada porque se tratava de um feriado oficial, o homem que nos meteu medo não era policia, e os dois policias fardados ali de fronte estavam lá por outra questão qualquer, mas depois de amanhã temos de ter a porta aberta e não somos homens invisíveis. Vamos passar o dia aqui parados a olhar um para o outro sem fazer nada? Só se quer fechar a porta e depois arcar com as consequências. Pense que estes estupores trazem-no marcado…
- Sem fazer nada não vai ser, pudemos bem sentarmo-nos cada um em sua cadeira e pôr a leitura em dia!
- Isso é desafiá-los abertamente!
- Não é se não tivermos material…
- Como está a pensar fazer isso?
- É simples. Entre hoje e amanhã eu levo o material que aí temos para casa, com a tua ajuda, que é muito peso só para um homem, já tenho uma requisição de material que não vai chegar a tempo, e assim podemos passar o dia dedicados a leituras e conversas importantes, a não ser que não queiras vir…
- Claro que venho! Eu não sou o problema maior, aliás, nem sequer sou o problema, é em cima de si que essa gente anda!
- Então estamos cá no nosso feriado?
- Por mim, sim!
E o primeiro de Maio apareceu na manhã fresca da Primavera, entre flores abertas nos jardins e almas atrevidas de homens e mulheres foitos e fartos, mas poucos, sempre poucos, a engrossar de raivas as reuniões e os ajuntamentos proibidos. E nós lá estávamos, cada qual refastelado na sua cadeira de braços, firme porque bem colada, próximos de distância e de espírito, a deliciar-nos cada qual com a sua leitura.
Eu levei O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, e o mestre um trabalho de André Malraus, e quando a alma dos homens se satisfaz de alimento, fica confortável, e não repara nas horas que correm. Foi assim que correu uma parte substancial do dia, e nem sequer a exposição pública nos abstraiu da leitura.
Dei por mim às tantas com um certo incómodo. Ergui os olhos da leitura e fiquei estarrecido. No passeio do outro lado, sozinho, parado, sem conseguir conter o riso, estava o homem do chapéu cinzento com fita de cetim preta, fato cinzento às riscas largas brancas, mãos enterradas nos bolsos das calças, e ambos nos fitamos nos olhos, de um lado os meus, verdes cinzentos-claros, mas tristes, do outro não sei, não lhes percebi a cor, mas que eram brilhantes e grandes, rasgados como os dos falcões, lá isso eram. Olhamos fixos um para o outro, não sei por quanto tempo, e depois chegou a mulher, com um fato saia casaco azul-escuro e uma blusa branca rematando no inicio do pescoço com um laço, deu-lhe o braço, e ambos arrancaram a passo estugado no sentido do Pancão.
Com o passar do tempo segui a minha vida, meti-me por outros rumos e outros voos. Anos mais tarde soube que o mestre tinha falecido, apesar do seu vigor aparente. Terá sido em resultado da porrada dos PIDES, mas também da frustração de ter percebido, que uma boa parte do povo ignora os sacrifícios e os esforços, de um grupo escasso de pessoas que pensa nele. Hoje, na cidade, fizeram a justiça de ter uma rua com o seu nome…

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“JUNTOS PARA SEMPRE” – (21)

Maria percebe que o ambiente de aparente paz está a ficar minado pelos acontecimentos recentes. Resolve escrever à enfermeira Celeste a contar esta história que tanto a humilhara. Tem a certeza que Fernanda pretendeu vingar-se por ter perdido o lugar da melhor aluna dos bordados. A carta não foi entregue porque a Madre Superiora não autorizou.

– Tu infringiste novamente as regras da Casa de Acolhimento, denunciando para fora o que se passa cá dentro. Que tens a dizer sobre esta desleal atitude?

– Mas, Madre Superiora, a Celeste é minha amiga e portanto eu ia contar-lhe o que se passou, mas sem me queixar de ninguém e eu nem tive culpa de nada.

A Madre Superiora fita-a nos olhos, rasgando a carta que Maria escrevera e avisa-a:

Esta é a última carta que escreveste nesta Casa. Nunca mais escreverás uma linha até saíres daqui. Não admito traições. Esta Casa dá-te acolhimento, comida e educação. Deus não aceita ingratidões. E aqui ninguém tem amigos lá fora, estás a perceber, sua cara de manhosa? Serei implacável a cumprir as ordens divinas. Agora desaparece da minha vista.

Maria, ao ouvir este sermão, sentiu uma vontade enorme de lhe responder:

Estou farta de si, que não respeita os que mais precisam. Deus tem vergonha de si e do seu bando, sua caixa de óculos, sempre de terço nas mãos, parece uma santinha, mas espalha o medo pelos mais fracos, que somos nós, sua hipócrita! Que mulher feia e bexigosa!

* * * * * * * * * *

Estas freiras são soberanas porque os seus súbditos não têm alternativa de escolha. São monarcas odiadas que ficarão eternamente como um marco negro de ignorância e vergonha na vida daqueles que tiveram o infortúnio de precisar de sobreviver sob as suas ordens. Alguma desta gente que vegeta pelos conventos, orfanatos, casas de acolhimento, seminários, igrejas, lares de idosos e outras instituições, tem frustrações por resolver, transferindo cobardemente a violência gratuita da sua autoridade espúria, para sobre crianças, jovens e velhos incapazes de reagir, pela sua pobreza e fragilidade social. Gente amorfa, caquéctica, que vive fascinada pela exibição do poder ridículo, que diz ter-lhes sido concedido por Deus. Triste gente que Ele castigará, enviando-a para as labaredas de um inferno que dizem existir.

* * * * * * * * * *

Maria está no Oratório. Precisa de um momento de isolamento. Durante aqueles minutos compraz-se de um silêncio que não está corrompido pelo vozear sibilino que marca o estilo de comunicação das freiras com as jovens. Sente a entrada de alguém e logo percebe que se tratam de duas freiras que se preparam para um dos seus frequentes retiros meditativos. Faz uma vénia à imagem de Jesus Cristo fixada na parede branca e sai. As freiras simulam que não a vêem.

Ao dobrar a esquina que dá acesso à sala de costura, Maria depara-se com a Madre Superiora. Faz um suave gesto com a mão e continua em frente. Contudo, aquela ríspida voz detém-na.

– Tens visitas. Vai para a sala de entrada e lá encontrarás quem te procura.

Maria fica surpreendida e dirige-se para o local indicado onde está uma freira que olha absorta para o tecto. Na outra ponta está outra pessoa voltada para a janela com vista para a estrada. Quando Maria fecha a porta, surge, por entre os raios de sol que espreitam pelas grades, o semblante de Celeste.

– Enfermeira Celeste! Que alegria! A minha querida amiga Celeste! Que bom vê-la aqui! Que surpresa!

Maria está eufórica. A freira tosse com o intuito de acalmar o entusiasmo. Aproxima-se de Celeste e abraça-a. Desejaria que aquele abraço se eternizasse pelo que significa de afecto, sinceridade e gratidão. Celeste fica comovida pela atitude de autêntica espontaneidade. Não podem estar à vontade porque a presença controladora da freira não permite que Maria fale sobre os acontecimentos ocorridos na Casa, que tanto a amarguraram. Mas Celeste compreende e começa a falar sobre a sua vida, que neste momento não está a correr bem.

– A Tia Amélia tem uma idade avançada e está doente. A única pessoa que a pode ajudar sou eu. Mas como trabalho no Hospital, não posso dedicar-lhe a assistência que necessita. Muitas vezes estou de serviço à noite e ela tem de ficar sozinha, o que me deixa preocupada. A minha vontade era estar sempre ao seu lado, mas tenho de trabalhar para ganhar a vida, que está cada vez mais cara. Por isso resolvi procurar alguém que esteja disponível para acompanhar a Tia Amélia.

– E já encontrou alguém? – pergunta com a voz tremelicante.

– Penso que sim, Maria.

– Tem de ser uma pessoa de confiança, não tem Celeste?

– Claro. Não vou deixar a Tia Amélia com alguém que eu não conheça…

– Pois claro, tem toda a razão.

Os olhos de Maria enchem-se de lágrimas, identificando-se como a pessoa ideal para tratar da senhora, mas não tem coragem de transmitir esta ambição. Celeste percebe o que Maria pensa naquele momento, quer através das expressões vocabulares quer do rosto desanimado. Por isso acaba com este jogo de palavras.

– Penso eu, não sei, mas tu não deves gostar de viver aqui, pois não? Ou estarei enganada?…

– Não está nada enganada. Odeio, Celeste, odeio viver aqui. Acredite em mim.

A freira controladora olha-a com desprezo. De mãos postas, dirige o olhar novamente para o tecto e exclama: “Perdoai-lhe Senhor porque ela não sabe o que diz”. Persigna-se e mantém a sua posição de matrona fiscalizadora.

– Falei com a Tia Amélia e ela concordou que tu a ajudasses a passar os dias com mais alegria.

– Oh! Celeste, eu não acredito! Meu Deus, não pode ser verdade! Isto é um milagre!

A freira olha-a de alto e baixo, cruza os braços, exibe um ar de desdém e murmura:

– Graças a Deus que esta herege se vai embora. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Ámen!

– Maria, acalma-te e ouve. A Tia Amélia fica muito triste quando está só. Não podemos pagar-te, porque a sua reforma é pequena e o meu ordenado é para a alimentação e outras despesas, como deves calcular. Temos um quintalzinho que nos abastece de legumes, batatas e fruta, que é uma grande ajuda para vivermos um pouco melhor. Estás contente com esta surpresa?

Maria abraça-se a Celeste e aceita dar a sua ajuda sem receber nada em troca. Só quer a sua amizade e a da Tia Amélia. Tentará arranjar freguesas para consertar roupa e contribuir para as despesas da casa. Celeste fica muito grata e promete que depois da autorização, que irá ser concedida pela Madre Superiora, a virá buscar dentro de pouco tempo.

A freira avisa que o tempo da visita acabou:

Maria e Celeste despedem-se com um beijo carinhoso.

– Vá, toca a andar para a camarata, sua cara de sonsa. Acabou-se a conversa com a amiguinha.

José Eduardo Taveira

 

 

 

 

 

 

 

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Uma pequena experiência poética: «Pensamento»

Partilho, hoje, com os nossos estimados leitores esta pequena incursão por mim efectuada, há já algum tempo, nos domínios do texto poético, onde a poucas experiências me permiti ainda, porque mais ocupado em cultivar a narrativa em prosa. Porém, certos dias de maior inspiração são sempre susceptíveis de levar-nos a tentar novos caminhos. Se consegui fazê-lo razoavelmente ou não, a crítica o dirá.

«Pensamento»

À luz mortiça da candeia,
Fitando o papel alvacento,
Bailam-me sonhos na ideia,
Vagueia meu pensamento.
Vislumbro um sonho irreal,
Floresta de viço exuberante,
Ténue visão, afinal,
De realidade assaz distante.
Mas continuo percorrendo sem cessar
As veredas desse idílico mundo,
Ao cabo do qual venho a achar
Cintilações dum olhar profundo.
Vulto de beleza etérea,
Vivo louvor à formosura,
De gesto rosado, tez cérea,
Sorriso benévolo, de candura.
Quem seria tal anfitriã
Daquele Éden isolado?
Por certo admirável guardiã
De tão belo tesouro sagrado.
E pelos caminhos fui seguindo
Minha simpática companheira,
Até que estacou, sorrindo,
Ante cristalina ribeira.
Contemplando as águas serenas,
Tomando certo ar de tristeza,
Me contou, então, suas penas,
Em relato de grande singeleza.
Seu amor houvera partido,
Para a guerra fora pelejar,
Saindo duma contenda ferido,
Perecera em noite de luar.
Ficara a formosa donzela
No mundo desprovida de amor;
Caiu o desgosto em sua face bela,
Seu coração tolhido de dor.
Preces instantes a Deus dirigiu
Para que o sofrimento lhe aplacasse;
Prestes Ele a ouviu,
Providenciou para que em paz ficasse.
Fez-lhe Deus mercê daquele paraíso,
Onde está ela agora morando.
De seu amado vê ela o sorriso
Nas águas que correm, cantando.
Tudo ali evoca com saudade
Memórias ternas do passado,
Duma doce felicidade
Passada junto do seu amado.
E em isto ela me contando,
Em sua face pungente lágrima caindo,
Me disse estar já chegando
O momento em que o sonho é findo.
Tornei à minha existência;
Sobre o papel, uma poesia inacabada;
Recobrei minha consciência,
Evolara-se o sonho em nada.
Mas minh’alma diz, lá no fundo,
Que não é o sonho acabado.
Poderá a gente sonhar, neste mundo,
Ter um amor a nosso lado?
Diogo Figueiredo P. D. Ferreira
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“JUNTOS PARA SEMPRE” – (20)

A Madre Superiora entra na sala de aula. Todas se levantam em simultâneo. Olha à sua volta, observando as raparigas como se fosse um Oficial a passar revista às tropas. Inicia a análise de cada trabalho, minuciosamente.

Após acabar o cerimonial que faz rejubilar a sua vaidade de exercer um poder vácuo e pacóvio, olha mais uma vez para o rosto das jovens que a enfrentam timidamente, de pé. Aponta para Maria, chamando-a para junto de si. Pede-lhe que traga o pano que bordara. Percebe que qualquer coisa de bom lhe vai acontecer. Embaraçada, dirige-se para a Madre Superiora. Esta, segurando no tecido que havia sido bordado por Maria, declara:

– Este é o trabalho distinguido por mim como o melhor do mês!

O tempo parece parar por segundos. As raparigas olham-se como se algo de estranho estivesse a acontecer. Pela primeira vez, alguém destronara Fernanda da sua posição de ininterrupta vencedora. Maria, eufórica, não se consegue controlar. Sente algo inexplicável que não pode transmitir por palavras, apenas através de um grito de alegria que ecoa pela sala. Subitamente, o ambiente gela. A Madre Superiora atira com brutalidade o bordado para cima de uma mesa próxima de si.

Ninguém, ninguém tem a ousadia de reagir de modo tão impróprio numa Casa de Deus! Retire-se imediatamente!

Maria observa Fernanda, ainda de pé como todas as outras. O seu olhar é cruel e parece atingir o de Maria como balas.

Pede perdão pelo sucedido e promete nunca mais reagir de modo tão impulsivo. Agradece ter sido escolhida como a melhor, pois trabalhara bastante para conseguir atingir este objectivo. A Madre Superiora ordena-lhe novamente que saia de imediato da sala, pois não está disposta a comentar com uma gaiteira as suas decisões. Maria dirige-se para a porta, humilhada com tal reprimenda. Mas no íntimo sente-se diferente e orgulhosa por ter conseguido o que tanto ambicionava.

Que pessoas esquisitas são estas freiras! Devem ter nascido numa noite de trovoada. Nunca nada está bem para elas! Que gente, chiça!

…….. No dia seguinte …..

As raparigas acordam em sobressalto. Ouvem vozes exaltadas e o pisar estridente dos tacões das freiras, que parecem martelar os seus ouvidos. Umas levantam-se, outras mantêm-se deitadas ou sentadas. Olham-se entre si tentando descodificar o motivo de tal alvoroço. Contudo, ninguém sai da camarata. Abruptamente, a porta abre-se. Todas se levantam, fixando os seus corpos junto às respectivas camas.

A Madre Superiora entra, impetuosa, liderando o séquito das obedientes freiras. A sua face exprime uma cólera diabólica. Os seus olhos faíscam através dos óculos, jorrando duas línguas de fogo que cegam a visão das jovens. Sentem os seus corpos afogueados de medo e perturbação.

– Alguém nesta camarata cometeu um crime gravíssimo! Um acto ignóbil de bradar aos céus! Exijo, em nome do Senhor, que a culpada se acuse imediatamente. Desapareceu o rosário que estava pendurado nas mãos de Nossa Senhora que se encontra no Oratório. Um rosário valioso, de contas em madrepérola com uma cruz cravada de diamantes, pertencente a Nossa Senhora, Mãe de Deus. Um pecado horrendo. Uma desobediência às leis de Deus e dos mandamentos da Igreja! A culpada será severamente punida. Não há perdão para tão repugnante acção praticada por uma desgraçada louca e miserável! Quem roubou o rosário? Quem roubou o rosário? Quem roubou o rosário?

Os berros da Madre Superiora contrastam com o silêncio penetrante da camarata que incute um medo generalizado pelas consequências que devem ocorrer de seguida. As raparigas entreolham-se disfarçadamente, cada uma à espera que outra se acuse.

– Muito bem. Fizeram a vossa escolha! – vocifera em tom ameaçador.

Avança em direcção à primeira cama. A rapariga treme de medo. Os seus olhos estão arregalados como se tivesse visto um fantasma. Abre a gaveta da mesa-de-cabeceira e despeja-a sobre a cama, repetindo este acto sucessivamente. Todos os olhares se concentram naquela cena, incluindo os das outras freiras. Aproxima-se da cama de Maria. Fixa atentamente os objectos espalhados no cobertor. Uma cruz de diamantes refulge entre as bugigangas.

– Aqui está o rosário que prova o roubo perpetrado por ti. Tu és uma ladra! Não tens vergonha nessa cara de sonsa, sua desgraçada?

– Não fui quem pôs o rosário na minha gaveta. Eu não sou ladra! Eu não sou ladra! Eu só quero o que é meu, que é nada. Eu não sou ladra. – grita revoltada com o rosto banhado em lágrimas.

A Madre Superiora beija o rosário com fogosidade, ergue-o, supostamente exibindo-o a Nossa Senhora, e proclama com altivez:

– Milagre! Milagre! Milagre!

De seguida encosta-o ao peito, reza três Ave-Marias em posição genuflexa, persigna-se e levanta-se, com a ajuda de duas freiras que estavam de mãos postas e olhos cerrados. Titubeia algumas palavras imperceptíveis, de cabeça baixa. Depois desta representação de teatro medieval inspirada nas mediações milagrosas da Virgem Santa, a Madre Superiora muda de estilo, vira as costas a Maria e ordena:

– Segue-me, pecadora sem perdão.

No trajecto até ao gabinete, Maria, em camisa de dormir, descalça, com aspecto desolador, sente o suor invadir a sua testa, lambendo as pontas dos seus desgrenhados cabelos negros. Está de pé, em frente à secretária, chorando silenciosamente. A Madre Superiora olha-a com repugnância. Prepara-se para transmitir o castigo que lhe será imputado. Maria sente-se injuriada e incapaz de conseguir provar a sua inocência. Pede a Deus que a leve para junto de si, já, sem demora, porque não quer viver mais neste eterno sofrimento. 

Alguém bate à porta. A Madre Superiora dá permissão para entrar. Uma freira, idosa e anafada, entra, acompanhada por Fernanda. Esta olha para o chão. A sua face está vermelha, como se tivesse sido pintada com uma cor embebida em vergonha.

– O que a traz aqui? – pergunta com voz toante.

– Posso afirmar, em nome de Deus, que Maria está inocente. Foi Fernanda quem colocou o rosário na sua mesa-de-cabeceira. – declara a freira.

– Como soube isso?

– Escutei uma conversa entre a Fernanda e outra rapariga. Achei que se justificava transmitir à Madre Superiora a não observância e incumprimento dos sétimo, oitavo e décimo mandamentos da Lei de Deus, que são, respectivamente: não roubar, não levantar falsos testemunhos e não cobiçar as coisas alheias. Que Deus seja louvado! Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo! Ámen!

A Madre Superiora faz um sinal a Fernanda para se aproximar, juntando-se a Maria. Olha para ambas com desprezo e indignação. Tanto a inocente como a culpada vão sofrer castigos adequados à gravidade dos actos praticados.

– Durante uma semana ficareis sem jantar e ireis rezar o terço sem parar, cinco horas por dia, recolhidas no Oratório. E agora, desapareçam daqui imediatamente, suas desprezíveis criaturas.

José Eduardo Taveira


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A vírgula…

A virgula é a distância
entre o verbo e a palavra
Entre lábios que se desejam
Num beijo molhado

 

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“PARABÉNS! LUÍSA DACOSTA

LUÍSA DACOSTA nasceu no dia 16 de Fevereiro de 1927 em Vila Real.

É formada em Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras, em Lisboa. Foi professora do antigo Ciclo Preparatório nas escolas Ramalho Ortigão e Francisco Torrinha, até se reformar por limite de idade.

Foi colaboradora de vários jornais e revistas, tais como: O Comércio do Porto, O Jornal de Notícias, Diário Popular e A Capital, Seara Nova, Vida Mundial, Vértice, Raiz e Utopia, Gazeta Musical e Colóquio de Letras.

A sua obra inclui romance, crónicas, poesia, autobiografia, diários e participação em várias antologias.

Luísa Dacosta conheceu intensamente a vida das mulheres de A-Ver-o-Mar que a inspiraram para tema de vários livros, como “Morrer a Ocidente”, “Nos Jardins do Mar”, entre outros.

A condição da mulher é também abordada no romance “Corpo Recusado”.

A sua sensibilidade levou-a a publicar alguns livros dedicados às crianças.

Em 1975 esteve em Timor requisitada pelo governo de então, para prestar serviço na Comissão encarregada de fazer a remodelação dos programas de ensino.

Luísa Dacosta recebeu vários prémios, dos quais se destacam: Prémio Máxima de Literatura, Prémio Gulbenkian, Prémio “Uma vida, uma obra” da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Prémio Vergílio Ferreira atribuído pela Universidade de Évora.

Em 1997 a Câmara Municipal do Porto condecorou-a com a medalha de prata de Mérito da Cidade e em Junho de 2004 recebeu a Medalha de Cidadã Poveira (grau prata). Também neste ano a Cooperativa Árvore distinguiu-a com o Prémio para a área do ensino.

Nesta singela homenagem no dia do seu aniversário, apreciemos este poema de Luísa Dacosta:

Se…

Se eu tivesse um carro
havia de conhecer
toda a terra.
Se eu tivesse um barco
havia de conhecer
todo o mar.
Se eu tivesse um avião
havia de conhecer
todo o céu.
Tens duas pernas
e ainda não conheces
a gente da tua rua.

José Eduardo Taveira

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Stay Gold Passos Coelho

Magestic FreedomNos tempos em que ainda andava por Coimbra (devo ser o único ex-estudante que não fala disso com saudade, em primeiro lugar porque não falo disso sequer), em circunstâncias que não recordo atiraram-me a afirmação “os professores catedráticos até ganham mal, por comparação com o sector privado.” Nunca lidei bem com estas frases que nos atiram com antecipação. Devia ter respondido: mas se sim, porque é que não vão trabalhar para o privado? Que se perceba. Os professores catedráticos têm todos os instrumentos de trabalho que possam necessitar pagos pelo Estado. Livros, computadores, ISP, conferências e congressos em Cancun, as revistas especializadas caríssimas, acesso, contactos, tudo. Alguns são muito competentes. Outros não. O sistema português tem conseguido proteger brilhantemente os incompetentes, sem conseguir dar brilho particular aos que se destacam. Quintanilha era o melhor… até que regressou a Portugal. Os prémios de que se fala, são de fora, estando os recipientes tutelados por uma ex-ministra que foi ilibada em tribunal alegando que nada sabia do que se passava no seu Ministério.

Isto para introduzir a noção de que os jornalistas também nada sabem. Tiram cursos ao nível da Licenciatura, para aprender que há um emissor, há um receptor, entre eles há uma coisa chamada mensagem. Mostre-se o curriculum dos cursos que tiram a um estudante que se preze, de Engenharia, ou História, ou até de Línguas, Inglês ou Alemão. Qualquer assunto é Terra Incognita para os jornalistas. Assim percebe-se que de um discurso brilhante e eloquente durando meia hora, tudo o que os jornalistas conseguiram reter fosse uma expressão com a qual infernizaram a vida pública durante 3 dias. Fiz um vídeo para lhe mostrar isto mesmo.

No segmento com a Coreia do Norte, a banda sonora foi escolhida e aprovada pelo Governo de Pyongyang. E moral da história: se forem piegas, por favor não tentem o alpinismo. Depois na Califórnia da Europa pode ter de vir um bombeiro para desencravar o maçarico. No meu caso, o quartel estará fechado por motivos de manifestação.

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