“JUNTOS PARA SEMPRE” – (15) – José Eduardo Taveira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Maria acorda tarde. Levanta-se e procura a enfermeira Celeste. Dizem-lhe que não vem trabalhar porque é o seu dia de folga. Fica apavorada. Hoje é o seu penúltimo dia no Hospital. Sente-se desprotegida. Não tem ninguém que lhe garanta que a promessa da enfermeira Celeste será para cumprir. Junto à janela da enfermaria, observa a vida que acontece para lá do vidro. Olha para a suavidade das folhas que abanam levemente, embaladas pela brisa que não consegue sentir. E as flores espalhadas pelos canteiros. Como desejaria poder tocar-lhes com a liberdade dos seus cinco sentidos. Sentir o seu cheiro, a sua textura, admirar a sua forma. Como gostaria de poder falar-lhes. Os seus olhos percorrem a sombra de cada movimento. E é aí que observa uma freira do Orfanato que olha em frente, de cabeça erguida, de aspecto arrogante, enquanto pisa um chão que parece pertencer-lhe. Entra no Hospital e desaparece.

Maria sente as pernas tremerem. Os olhos são invadidos por lágrimas que parecem acumular-se abruptamente. Sente a pele humedecida pelas gotas que rasgam a sua face. Espera ouvir os passos que tão bem conhece. Estes parecem ecoar na sua mente, como um relógio cujo tic-tac não cessa. Quer eliminar este som enervante que repica na sua imaginação, mas não consegue. Lamenta a infelicidade de ter que voltar para o Orfanato e sente uma revolta íntima de não poder acreditar em ninguém. Nem mesmo na enfermeira Celeste, que começava a conquistar a sua confiança. Como é difícil aceitar mais uma traição! Vai repetir-se a cena vivida com a Filomena. Espera ouvir chamar pelo seu nome e seguir mais uma vez, levada pela freira, para o local que parece não desaparecer da sua vida. Aguarda, junto à janela, ansiosa. Olha para o exterior novamente. Sente nos olhos um ardor que parece dever-se à fusão da intensidade da luz com a sua dor. As pessoas entram e saem do hospital livremente. Inveja a liberdade que pensa não conseguir ainda alcançar. E, no meio daquela pequena multidão, vê sair a freira que entrara momentos antes. Maria está boquiaberta. A freira saiu e o seu nome não foi chamado! Uma enorme sensação de alívio começa a percorrer o seu corpo. Sente uma paz que goza obsessivamente, pois tem medo de perdê-la. Agarra-a com a sua cabeça, com o seu tronco, com os seus dedos. E a culpa? A enfermeira Celeste não a enganou? Sente novamente o constrangimento de não ter acreditado nela. Está confusa. As pessoas parecem vestir máscaras que a perturbam.

(Continua)

José Eduardo Taveira

 

Sobre José Eduardo Taveira

Nasci no Porto. Um ano depois vim com os meus pais para Lisboa. Fui mobilizado para Angola, onde permaneci mais de dois anos. Escrever e ler era o escape de uma vida rotineira, sem objectivos úteis. Uma fuga à loucura que emerge nos cérebros paralisados. Trabalhei em várias grandes Empresas, das quais destaco as multinacionais Warner Lambert, Johnson & Johnson e United Distillers, desempenhando em todas elas cargos directivos, Actualmente vivo liberto de compromissos profissionais, usufruindo a merecida liberdade de viver como gosto e quero. A leitura, a música, a escrita, as viagens, os espectáculos e os passeios à beira-mar ocupam-me o tempo a meu bel-prazer. Editei dois livros através do Sítio do Livro: "Juntos para Sempre" e "Histórias de Pessoas que decidi divulgar".
Esta entrada foi publicada em Sem categoria. ligação permanente.

Deixar um comentário

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s